Geddel, o suíno que virou rato

por Sérgio Trindade foi publicado em 11.set.17

É irresistível revirar os álbuns de formatura e dar de cara com as caricaturas que, mais tarde, viriam a habitar o palco central do nosso palco político ou da nossa música popular tensa. E há, na memória afetiva do Brasil, um cruzamento insólito de caminhos no Colégio Marista, ali pelos anos 1970, envolvendo duas figuras que, cada uma à sua maneira, deixaram sua marca: o mítico Renato Russo e o, digamos, notório Geddel Vieira Lima.

A crônica de Carlos Marcelo, em O Filho da Revolução, pesca esse instante de juventude, quando a História ainda era uma disciplina e não um fardo. O professor propôs um trabalho sobre música. E o jovem Renato, que já carregava o ímpeto e a urgência do futuro líder da Legião Urbana, deu o seu grito: o grupo dele mergulharia, obviamente, na História do Rock.

Do outro lado, tínhamos Geddel. Filho do político baiano Afrísio Vieira de Lima, ele era o arquétipo do rapaz bem-nascido, pouco afeito aos bancos escolares, mas certamente expansivo e, segundo se conta, bem-humorado à sua maneira. O detalhe que marcava sua presença e sublinhava sua origem não era a inteligência acadêmica, mas sim o Opala verde no qual desembarcava no colégio, despertando a admiração das garotas e, claro, a justa inveja dos garotos.

A turma de Renato Russo, com sua sensibilidade estética e sua visão de mundo que já dava os primeiros sinais de um inconformismo que se tornaria geração, não o suportava. O jovem Geddel era o alvo da antipatia concentrada, o espécime a ser evitado. Gordinho, escorão e, na visão do futuro poeta, insuportável, ganhou o apelido que define bem o sentimento daquele grupo: “Suíno”.

Não deu outra: na hora de montar a equipe do Rock, o futuro deputado federal e ministro de Estado foi sumariamente vetado. Era um estorvo, uma presença tóxica para a pureza juvenil que se preparava para criticar o mundo.

O resto, bem, o resto é a história que nos custa a digestão e que acompanha a trajetória de tantas figuras públicas. O gordinho palhaço, o “Suíno” da escola, abandonou a fase juvenil para se transformar no anão do Orçamento nos anos 1990, um estágio de maturação da sua arte política. E no momento presente, ele vive a sua porção mais rasteira, a mais repugnante, a de ratazana, algo que, analisando friamente, já estava ali, em germe, desde os tempos em que desfilava no Opala verde, ignorado pelos que, na vida, escolheram a arte e a poesia como guia. A escola passa, o caráter fica, e os apelidos, por vezes, se tornam profecias.

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