Fernando Haddad: museu de velhas novidades
Fazer mágica e cuspir nos fatos virou passatempo de intelectual de bar e de cátedra e de presumidos cientistas. É moda entre os sábios de ciências humanas, esses que enxergam ideologia até no cafezinho. Mas não pensem, meus três ou quatro leitores, que a mágica é monopólio deles. Há feiticeiros também entre os homens de jaleco branco, entre os que contam átomos, mexem com fórmulas e não enxergam gente. O Brasil é um picadeiro. E o pretenso cientista, por vezes, o palhaço que acredita no próprio número.
Manter o cofre em pé é tragédia anunciada nos palácios do mundo inteiro. Um suplício digno de Sófocles. E no Brasil, então, onde o orçamento é peça de ficção e a despesa é folhetim vagabundo, fala-se em equilíbrio fiscal como quem invoca um milagre. Economistas, políticos, tecnocratas, todos reunidos em sabatina infinita, perguntam: o que, afinal, é essa coisa que chamam de equilíbrio fiscal?
A resposta é, em tese, de uma obviedade gritantemente pueril: o governo deve gastar o que arrecada. Deve caber no bolso. Como dona de casa prudente que não se endivida no fiado. Salários, remédios, pontes, escolas – tudo isso pago com dinheiro real, e não com promessas ou canetadas. O Estado, quando saudável, vive de carne. O nosso, doente crônico, vive de vapor.
Mas essa contabilidade não é só planilha; é um espelho rachado da confiança. Quando o governo gasta como um perdulário apaixonado, o investidor se retrai, o mercado se encolhe, a moeda balança. É como se o país todo adoecesse de uma febre que ninguém quer nomear. E o juro, esse demônio moderno, sobe para exorcizar o pânico.
No Brasil, inventaram remédios como quem reza para santos novos. A Lei de Responsabilidade Fiscal, o teto de gastos, o tal do arcabouço – tudo com o tempo devidamente desrespeitado, afinal lei aqui existe para ser descumprida. Todos prometeram frear a gastança, todos viraram letra morta diante da volúpia descontrolada do Estado. O mais novo, aprovado em 2023, veio com ares de modernidade, mas já nasceu velho – com artifícios e concessões.
Ajuste de verdade exige faca e coragem. Cortar salários, rever aposentadorias, limitar mamatas. Tudo isso com um bisturi amolado e preciso, porque se erra, mata. E o Brasil, esse país de feridas abertas e por vezes purulentas, exige equilíbrio de equilibrista; sustentar os pobres sem afundar a República. Uma contradição comovente. Um dilema que cheira a tragédia.
Equilibrar o cofre, portanto, não é fim. É caminho. O destino é outro: justiça, crescimento, dignidade. Mas como trilhar essa estrada sem sangrar a alma social do país? Como dividir a pizza sem cortar o dedo de quem tem fome?
Tudo começou com o pecado da abundância. Nos anos dourados das commodities, o governo se embriagou de otimismo. Gastou como novo-rico. Desonerou, subsidiou, inchou. Achava que o maná cairia para sempre. Mas veio 2014, e a recessão nos engoliu. E veio a conta. Salgada. A arrecadação derreteu. O déficit virou rotina. O endividamento, um vício.
A tragédia se agrava devido à camisa de força do orçamento. Quase tudo é obrigatório, quase nada é cortável. É um monstro que se alimenta de si. E como se não bastasse, temos um manicômio tributário e um Estado que recusa reformas. A máquina emperrou. E ninguém quer ser o mecânico.
Vieram as tentativas de contenção. Mas o país é mestre em sabotar seus próprios remédios. Os políticos, sempre de olho na próxima eleição, esticam as regras até romperem. E o povo, atônito, assiste a tudo como quem vê um casamento afundar em silêncio.
A nossa crise não é apenas de cofres furados. É crise de projeto, de coragem, de espinha. De moral – ou de falta dela. Remendar não basta. É preciso refazer a roupa. E isso exige sangue-frio, racionalidade e desenvoltura política que, por aqui, são sempre prometidos e raramente entregue.
Em 2024, sob a sombra do caos, Haddad surgiu como um Dom Quixote do Excel. Empunhou seu pacote fiscal com fervor e anunciou o plano de salvação nacional. Zerar o déficit, conter a dívida, acalmar o mercado. Tudo isso entre cafezinhos e entrevistas. Um gesto de fé. Ou de desespero.
O plano era claro e repetido à exaustão: arrancar mais do contribuinte. Reonerar combustíveis, taxar apostas, pegar os fundos exclusivos pelo colarinho. Era uma caçada à arrecadação. Até as offshores foram convocadas à guilhotina. A meta era ousada: R$ 150 bilhões em tributos. Mas cortar gastos? Ah, isso não. Melhor não mexer nos vespeiros. E Haddad evitou os cortes como quem evita uma ex. Nada de mexer nos programas sociais. Nada de enfrentar as corporações. O arcabouço trouxe amarras, é verdade, mas amarras de elástico. E a oposição, farejando o cheiro de sangue, afiou os dentes. O mercado reagiu como sempre: desconfiado. Disseram que o plano dependia do Congresso, das bênçãos do STF e de uma economia que não tropeçasse. Um castelo de cartas. Alguns economistas chamaram o pacote de ilusão tributária. Outros temeram o peso da carga sobre o setor produtivo. Denis Medina, professor de Economia da Faculdade do Comércio, pontuou: “O mercado, os economistas, os investidores, todo mundo está dizendo que o governo tem excesso de gastos e mesmo com a arrecadação recorde, a gente está tendo déficit enorme, comparável com economias em guerra”. Economista-chefe da consultoria MBA Associados, Sérgio Vale seguiu na mesma linha. Para ele, o pacote de contenção de gastos anunciado por Fernando Haddad estava aquém das expectativas e das necessidades para um ajuste estrutural de longo prazo.
Ainda assim, o ministro colheu vitórias. Conseguiu aprovar medidas, articulou, acalmou ânimos. Mas o futuro é um velho rancoroso: exige provas diárias. E o Brasil, sabemos, promete mais do que cumpre. A disciplina fiscal, por aqui, é uma flor que tenta brotar em solo seco e rachado.
Meses depois, Haddad volta ao palco. Propõe novidades com cheiro de naftalina. E o tempo não para. Veio um museu e o ministro o apresentou como espaço onde se guardam coisas novas. Ouvimos Cazuza ao fundo. E lá vem a primeira nova proposta: aumentar IOF. “Não há alternativa”, diz o governo com olhar beatífico. Ora, há sim! Sempre há. Basta coragem, audácia e habilidade. Cortar privilégios, podar emendas, atacar supersalários. Fazer o que é difícil – não o que rende aplauso. Mas aí, meus caros, não haveria Brasil.