O Trambiqueiro de Itajá
A Velhinha de Taubaté acreditava no governo. No Congresso. Na honestidade dos ministros. Na bondade do presidente. E na promessa de que o Brasil um dia seria grande, que o Brasil… “agora vai”. Era tão crédula que fazia a Poliana parecer uma niilista. Se dissessem que o ministro da Fazenda entendia de economia, ela acreditava. E se provassem o contrário, ela dizia que era uma fase.
Amâncio Deodato Urano, seu neto, tinha um talento diferente. Herdou da avó não a fé, mas a capacidade de sustentá-la com firmeza mesmo diante da realidade em chamas. Era conhecido como Trambiqueiro de Itajá. Na região era chamado de Karai Guasu, “o branco que engana com simpatia”, o “grande ladrão”.

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Aos 23 anos, depois de vender terreno alagado, cursinho de oratória espiritual e plano de saúde com oração, Karai teve uma iluminação: se todos mentem, por que não transformar isso em religião?
E fundou a Nova Scientia Lucis Obscurae, ou, em bom português, Nova Ciência da Luz Escura, um nome que ninguém entendia, mas todos repetiam – como Selic ou déficit primário.
Na NSLO, Karai era tudo: profeta, guru, mestre da luz obscura, gerente de Pix e afanador de bolsas e carteiras. Usava túnica, óculos escuros e dizia que a iluminação vinha por QR Code.
As missas tinham PowerPoint, incenso de citronela e frases de efeito: “A fé é a sombra da verdade iluminada por dentro”, “Doe. Se não resolver, doe mais”, entre outras pérolas.
O povo acreditava. Claro! Brasileiro acredita em qualquer coisa, menos na nota fiscal.
A Velhinha, já velhinha mesmo, defendia o neto com firmeza.
– É um líder! – dizia.
– Mas vó, ele cobra R$ 500 pra “acender a luz obscura”!
– E com garantia de três reencarnações!
Um vereador pediu a bênção dele antes da votação do orçamento. Um deputado ofereceu uma emenda em troca de votos espirituais. Um fiel trocou o carro por uma “consultoria energética divina” – e saiu a pé, mas com fé.
Karai cresceu, prosperou, foi investigado e… absolvido. Disseram que enganava o povo. Ele respondeu:
– Não engano. Eu inspiro.
E piscou.
Hoje, dá palestras, vende cursos, tem canal no YouTube e continua evangelizando com sabedoria de camelô:
– “A verdade é relativa. Mas o boleto vence dia 10.”
Sua avó morreu feliz, crente de que o Brasil tinha jeito. Karai, vivo, tem certeza de que não – e por isso mesmo montou um negócio em cima disso.
Ambos acreditaram. Um por pureza. O outro por oportunidade.
E no fundo, os dois estavam certos.