Infância na vitrine: do museu à tela do celular
Resolvi escrever este texto depois de ler, ao longo de dias, a polêmica causada pelo material produzido pelo youtuber Felca sobre adultização de crianças. O escritor franco-argelino Albert Camus proferiu sentença que deveria ser guardada por todas as pessoas que exercem uma papel de liderança no país: “A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente”. E o presente brasileiro é sempre generoso em pânico e quase nada em proteção.
Ao final, há uma lista de fontes consultadas sobre os episódios.
Em 2017, um artista nu ofereceu o corpo como obra. Uma criança tocou-lhe o pé. O vídeo correu as redes como peste medieval. O Museu de Arte Moderna de São Paulo virou réu na praça pública. A Câmara Municipal convocou audiência, o MAM não compareceu. A cena, que deveria ser discussão estética, tornou-se caso de polícia, como já nos alertava, em Memórias Póstumas, Machado de Assis: “não há ideia estúpida que não possa ser tornada sublime pelo escândalo”.
No mesmo ano, em Porto Alegre, o Queermuseu foi fechado pelo Santander Cultural. A obra foi acusada de apologia à pedofilia e à zoofilia. Houve visita escolar. O El País registrou o episódio, a Veja também. Um estudo na SciELO classificou tudo como “escândalo moral”. O banco preferiu encerrar a mostra a administrar a crise. Parafraseando Guimarães Rosa, “é difícil ser banco”, diante da fúria digital.
Daí nasceu a fórmula: arte + nudez + crianças = escândalo nacional.
O Ministério Público Federal avisou: “a mera nudez não constitui crime”. Mas manchete boa não é a que diz que não houve crime. Manchete boa é foto de criança diante de um corpo nu. Na ágora digital, todos se tornaram juízes. A lógica era a de Bentinho, o ciumento de Capitu: qualquer movimento do olhar é traição.
Em 2017, correu o boato de que Wagner Schwartz, o organizador da exposição do MAM fora linchado, notícia logo desmentida. Confirmando a expressão de Jonathan Swift de “a mentira voa, e a verdade vem mancando passo atrás dela”, o boato da linchamento correu solto, o desmentido andou a passos de cágado.
O artista sobreviveu. E virou símbolo.
As consequências apareceram no Legislativo. Em 2022, a Câmara Municipal de Curitiba discutiu projeto proibindo crianças em atividades com nudez. Multa para quem ousasse. Em 2024, o Senado seguiu o mesmo caminho. A Comissão de Direitos Humanos aprovou relatório de Eduardo Girão, inspirado em Magno Malta, para restringir menores em exibições consideradas inadequadas. Enquanto isso, a SaferNet Brasil registrava recordes de denúncias de exploração sexual infantil em 2023 e 2024. Os números criaram um clima de tolerância zero. A nudez artística foi engolida pela maré de horror às estatísticas.
Avança-se para 2025. O palco não era mais o museu, era o YouTube e o youtuber Felca publicou um documentário de cinquenta minutos sobre a adultização de crianças, mostrando meninas maquiadas, meninos em coreografias sexuais, adultos faturando com patrocínios. Disse, sem sutileza: isso acontece impunemente. A reação foi fulminante. Como em Romeu e Julieta, a pressa virou método: “Apressa-te devagar”. Em 12 de agosto, deputados apresentaram dezenas de projetos de lei numa única sessão. A proposta: regular o uso da imagem de crianças, punir pais que exploram filhos, obrigar plataformas a vigiar conteúdo. O Senado falou em CPI. Mas em Brasília a pressa nunca é devagar, é espetáculo. E a pressa da Ilha da Fantasia é contaminadora. Três dias depois, a Polícia prendeu o influenciador Hytalo Santos e seu companheiro, Israel Vicente, acusados de exploração de menores e tráfico de pessoas. O inquérito já estava aberto desde 2024, mas o documentário de Felca serviu de faísca. Ato contínuo: Felca passou a receber ameaças. Em 25 de agosto, a Polícia prendeu em Olinda um homem suspeito de intimidá-lo.
Duas histórias distintas: MAM/Queermuseu e Felca. Uma é arte contemporânea, a outra, internet. Mas ambas se perguntam: quem protege a criança quando o adulto perde o controle?
No museu, havia classificação indicativa. Mas quem impede uma mãe de entrar com o filho de sete anos? Uma placa não segura ninguém. No mundo digital, o algoritmo tem placa invisível. Ele recomenda, insiste, força. Pais não veem, crianças clicam.
O que era exceção em 2017 tornou-se epidemia em 2025. Museus renderam protestos pontuais. Redes criaram um mercado. Agências de influenciadores, monetização, patrocínios. Milhões em jogo. A exploração deixou de ser hipótese e virou negócio. Por isso, as reações políticas foram diferentes. Entre 2017 e 2024, projetos de lei dormiam nas gavetas. Em 2025, o vídeo de Felca fez deputados federais e senadores correrem às tribunas. CPI virou palavra de ordem.
A lição é clara: no museu, discutia-se estética. No YouTube, algoritmo. Nos dois casos, a criança era personagem involuntária. Há uma coisa elementar a ser discutida: a nudez de um adulto pode ser legal, a sexualização de uma criança é crime. Felca disse o óbvio. Mas disse em vídeo, com edição e audiência. Transformou um problema de anos em urgência legislativa. Sua fala ecoou porque o terreno já estava fértil: recordes de denúncias, investigações em curso, estatísticas robustas. A obviedade saltava aos olhos – e os antes cegos passaram a enxergar.
Em 2017, direita via escândalo moral, esquerda gritava censura. Em 2025, unanimidade: ninguém defende exploração infantil. A unanimidade, dizia Nelson Rodrigues, é burra. Mas, nesse caso, era inevitável.
O Brasil oscila entre a permissividade e a histeria. Nudez confundida com crime, pai filmando filho no TikTok tratado como criminoso. A linha entre liberdade artística, liberdade de expressão e proteção integral é tênue. Viver, é bom lembrar Guimarães Rosa, exige coragem. Coragem, contudo, é o que mais falta às nossas lideranças. São, em sua maioria, movidas por interesses mesquinhos ou por medo da opinião pública. Não dá para liderar nada assim.
Resta a encruzilhada. Museus são regulados com classificação, fiscalização, multas. Simples. Plataformas são globais, algoritmos opacos, interesses bilionários. Difíceis. Um país pode cercar um museu com guardas. Não pode cercar o YouTube com fiscais.
Felca fez o que ONGs e parlamentares não conseguiram. Transformou um tema técnico em escândalo nacional. Seu vídeo gerou prisões, projetos, CPIs. Moveu engrenagens paradas havia uma década.
A história é velha – e velhaca Em 2017, uma criança tocou o pé de um artista nu. Em 2025, milhares de crianças dançam coreografias sexuais no TikTok. O que mudou não foi o problema. Foi a escala. Dizia um gênio russo: “Todos somos responsáveis por todos”. O problema do Brasil é que a responsabilidade sempre chega atrasada.
Fontes consultadas
www.saopaulo.sp.leg.br; brasil.elpais.com; veja.abril.com.br; www.scielo.org; www.mpf.mp.br; www.lupa.uol.com.br; www.gazetadopovo.com.br; www12.senado.leg.br; www.safernet.org.br; www.cnnbrasil.com.br; www.camara.leg.br; www.cnnbrasil.com.br