Insppe: números refletem política quente e eleitores frios e desconfiados
A região metropolitana de Natal é o coração demográfico e eleitoral do Rio Grande do Norte. Quase 42% do eleitorado mora aqui.
Em pesquisa presencial feita pelo Instituto Potiguar de Pesquisa Estatística (Inspe) na região, nos dias 23 e 24 agosto de 2025, com 1.035 eleitores e margem de erro de 3 pontos, amostra robusta e representativa sorteada por PPT e quotas, o que dá lastro para ler tendências sem autoengano – e sem militância fantasiada de ciência, o quadro que emerge é de indecisão e de impaciência. Veja o relatório no endereço (https://insppepesquisas.com.br/eleicoes-2026-pesquisa-de-intencao-de-voto-na-regiao-metropolitana-de-natal/).
Na disputa pelo governo estadual, o quadro começa pela espontânea: 64,1% não sabem ou não responderam. Entre os lembrados sem cartilha, Styvenson Valentim surge com 7,3%, seguido por Allyson Bezerra (6,1%) e Rogério Marinho (5,5%); Álvaro Dias marca 2%. Não sabem/não responderam alcançou 64%; branco/nulo, 4%; outro, 5,3%. Trocando em miúdos: há baixa cristalização de preferência e forte efeito recall; quem tem visibilidade aparece, quem não tem, evapora.
Quando a lista de candidatos é mostrada, some o romantismo. Cenário 1 (com Rogério Marinho): Rogério Marinho atinge 21,1%; Allyson, 17,1%; Álvaro, 13%; Cadu Xavier, 7,1%; Ezequiel 2,2% – e um oceano de “nenhum” (23,7%), branco/nulo (10%) e não sabem/não responderam (5,8%). Cenário 2 (sem Rogério): Allyson, 22,1%; Álvaro, 21%; Cadu, 7,2%; Ezequiel; 3,1%; novamente “nenhum” (28,4%), branco/nulo (11,1%) e )7,1%) dominam o ambiente. Tradução: há sobreposição de eleitorado no campo do centro-direita e direita, e o voto negativo (“nenhum”) funciona como válvula de escape do descontentamento.
Na rejeição para governador, o pódio é eloquente: Cadu Xavier, 29,1%; Rogério, 24%; Álvaro, 12,8%; Ezequiel, 8,3%; Allyson tem 5,1%.
A rejeição ao nome de Allyson é baixa para padrões locais, um ativo estratégico importante num ambiente avesso a riscos. A dispersão de rejeição reforça a tese de que o eleitor está em “modo veto”, mais do que em “modo adesão”.
Na corrida para o senado, o filme muda de gênero. Styvenson vira protagonista com folga: 32,4% dos votos válidos são dele, seguido de Zenaide Maia (19,4%), Álvaro (17,1%), Fátima Bezerra (16%), Coronel Hélio (11,7%) e Babá Pereira (3,4%). O “primeiro voto” já mostrava essa vantagem, e o “segundo voto” confirma capilaridade – um capital transversal, como diriam os manuais de ciência política. É o outsider institucionalizado: conhecido o bastante para liderar, distante o suficiente para não pagar a conta da máquina.
A avaliação de governo fecha o quadro: Fátima Bezerra recebe 63,7% de desaprovação (apenas 16,0% aprovam). Em Natal, Paulinho Freire tem 37,4% de desaprovação e 26,1% de aprovação – números que não arruínam campanhas, mas as impedem decolar.
Qual o sentido político disso?
O eleitor está dizendo, com todas as letras, que não quer sermão, quer entrega. O número quase obsceno de “nenhum” nos cenários para governador é um tapa sem luva na classe política, indício mais do que suficiente para indicar que a paciência acabou e o marketing não conserta serviço malfeito. A esquerda governista perdeu o monopólio da virtude; a direita local ainda briga por propriedade do mesmo condomínio de votos; e a maioria, pragmática, prefere bloquear antes de aderir. É o voto como controle de danos.

Imagem feita com auxílio de IA
Academicismos ajudam a batizar os fenômeno: há volatilidade estrutural, identidade ideológica rarefeita (37,3% não têm posicionamento; lulistas são 21,5% e bolsonaristas, 18,6%), e competição por partidos pessoais, em que biografias valem mais que siglas. Mas, tirando o jargão, o recado é simples: quem prometer pouco e cumprir, ganha; quem prometer muito e entregar pouco, dança. E como o eleitor já percebeu que é possível votar contra com eficiência, qualquer salto no vazio será punido sem melodrama.
Se a eleição fosse hoje, a região metropolitana de Natal manteria Styvenson na cadeira de senador e manteria a disputa pelo governo aberta, desconfiada e utilitária. Até lá, vale a lei número um: falar menos, fazer mais – porque o eleitor, cansado, já aprendeu a dizer “nenhum”.