O achamento reinventado: das brumas do Atlântico à geografia da controvérsia

por Sérgio Trindade foi publicado em 29.nov.25

A empresa ultramarina portuguesa, essa vasta arquitetura de ambições que marcou a transição da Idade Média para a Moderna, não se movia apenas pelo sopro dos ventos, mas pela tensão constante entre o mito e a experiência prática, como demonstra a tarefa maior atribuída pelo rei português D. Manuel, na transição do século XV para o século XVI, ao gigante da Beira, Pedro Álvares Cabral. A missão não era, em sua gênese, achar uma nova terra a oeste do mar Oceano, mas chegar, tal como fizera Vasco da Gama, às Índias e negociar as ricas especiarias transacionadas na região.

Até o século XV, o conhecimento sobre os oceanos e a geografia do nosso planeta era um terreno nebuloso. Havia até muitas informações, em sua maioria herdadas dos gregos, que desde a antiguidade viajavam pelos mares e contavam aquilo que haviam visto em histórias fabulosas, cheias de mitos e seres maravilhosos e monstruosos, e imprecisas. A essas histórias os europeus medievais e modernos acrescentavam outras, nas quais a religiosidade cristã se fazia presente.

Como bem observou Thomaz Oscar Marcondes de Souza no seu O descobrimento do Brasil, duas concepções geográficas se defrontavam nos últimos decênios do século XV: “De um lado estava um pequeno grupo de cosmógrafos letrados (…) o qual dando grande impulso às ideias clássicas da antiguidade grega sobre a redondeza da terra e a pequena extensão dos mares, dizia que navegando rumo ocidente seria possível em curto espaço de tempo atingir a ilha de Cipango e o litoral de Chatay. Eram os partidários do chamado ciclo ocidental. Combatiam essa ideia os cosmógrafos portugueses que opinavam pela procura da rota marítima para a Índia navegando ao longo da costa ocidental da África (…). Eram os adeptos do denominado ciclo oriental.”

Mesmo o oceano despertando medo – parte proveniente das dificuldades técnicas, parte do fascínio que ele despertava –, os europeus, portugueses e espanhóis à frente, conseguiram desvendar parte de seus mistérios e foi neste cenário que, depois de Vasco da Gama retornar da expedição à Índia, o rei D. Manuel enviou Pedro Álvares Cabral.

Cabral partiu de Lisboa em março de 1500 e chegou, em 22 de abril do mesmo ano, ao que veio a ser o Brasil. Para comunicar a boa nova, enviou embarcação com carta escrita por Pero Vaz de Caminha. Depois de passar pouco mais de uma semana na nova terra, mantendo contato com os nativos, a esquadra seguiu viagem em direção ao destino oficial, a Índia.

A fúria expansionista portuguesa nos traz, contudo, indagações semânticas que revelam a mentalidade da época: os portugueses acharam ou descobriram o Brasil (https://www.academia.edu/13554828/Capistrano_de_Abreu_Descobrimento_do_Brasil_e_Povoamento).

A carta de Pero Vaz de Caminha não utiliza em momento algum a palavra descobrimento. Caminha usa a expressão achamento. Antes disso, o verbo achar era utilizado pelos navegadores lusitanos para indicar a chegada às ilhas perdidas no período medieval, “reencontrando o que estava perdido”, no dizer de um estudioso do período (http://www.continuitas.org/texts/donnard_ilhabrasil.pdf). A palavra descobrir, que assumiria o significado de revelar o oculto, só ganharia força documental posteriormente. Se assim foi, alguém achou o Brasil antes de 1500. Quem o descobriu para a história oficial, porém, foi Cabral.

Disputas em torno do Descobrimento do Brasil são antigas. Esquecendo os espanhóis, afinal, se aqui aportaram em Jericoacoara ou no Cabo de Santo Agostinho, apenas acharam sem descobrir, a questão que persiste é: os portugueses descobriram o Brasil exatamente onde?

Há três testemunhos do Descobrimento: a Carta de Pero Vaz de Caminha, a Carta de Mestre João Faro e a Relação do Piloto Anônimo, material organizado por Paulo Roberto Pereira e publicado, em 1999, por Lacerda Editores. A carta de Caminha deslinda que a expedição avistara sinais de terra no dia 21 de abril de 1500, após ter percorrido “obra de 660 ou 670 léguas” a partir de Cabo Verde. No dia 22, avistaram um “grande monte, mui alto e redondo; e outras serras baixas ao sul dele”. Mestre João diz ter descido em terra e, medindo a altura do sol, julgou estar a 17º de latitude sul.

A versão oficial, consagrada, crava a Bahia como o local. Os 17º graus de latitude sul anotados por João Faro conferem com a localização de Porto Seguro (http://historianosdetalhes.com.br/historia-do-brasil/o-brasil-nasceu-na-bahia/). No entanto, a narrativa hegemônica começou a apresentar fissuras ainda na primeira metade do século passado. Jayme de Altavila, em sua História da civilização alagoana (1938), reivindica para Alagoas o local do Descobrimento. Baseando-se em Alexander von Humboldt, Altavila argumenta que a topografia de Coruripe é muito semelhante à descrita por Caminha, especialmente a existência de um rio que corre junto à praia e uma “lagoa grande de água doce”, características do rio Coruripe e da lagoa do Jequiá, e bem diversas do que há na Bahia. Essa tese revisionista (http://historianosdetalhes.com.br/historia-do-brasil/o-brasil-nasceu-em-alagoas/) é reforçada por Max Justo Guedes, que nota a impossibilidade de se avistar serras ao sul do Monte Pascoal baiano quando se navega de noroeste.

Aproximava-se o fim do século XX e o Brasil organizava-se para comemorar os quinhentos anos do Descobrimento. Na Bahia? Era, então, certeza. Mas o Rio Grande do Norte, que gosta de enaltecer momentos de primazia, como a Confederação dos Cariris, a primeira eleitora ou o trampolim da vitória na Segunda Guerra, nunca atentara para a possibilidade de ser a esquina do descobrimento.

Isso mudou quando Lenine Pinto,jornalista e pesquisador “amador” aos olhos da academia, propôs uma virada interpretativa. Lenine foi o precursor solitário. Nascido em 1930 e com uma carreira jornalística notável, Lenine lançou obras fundamentais como Natal, USA e, principalmente, Reinvenção do Descobrimento e Mando do Mar.

Para Lenine Pinto, quando a esquadra cabralina cruzou o Atlântico, não avistou o Monte Pascoal na Bahia, mas o Pico do Cabugi no Rio Grande do Norte. Seus argumentos são de uma lógica náutica implacável:

1) Correntes e Ventos: As correntes marítimas empurravam as embarcações naturalmente em direção ao Rio Grande do Norte. O itinerário recomendado nas Instruções de Vasco da Gama era fazer uma curva no Atlântico (a volta do mar), o que levaria a frota a cruzar o oceano “numa só bordada” até o Cabo de São Roque, facilitando o posterior contorno do Cabo da Boa Esperança.

2) O Monte: O Cabugi, um cone vulcânico perfeito, condiz com o “monte mui alto e redondo”. Lenine cita Duarte Leite para sinalizar que, em mapas antigos, a Serra do Cabugi já figurava como ponto de referência.

A Aguada: O litoral potiguar oferecia “muitos bons portos e muitas fontes”, tornando-se a aguada permanente para as naus da Carreira das Índias, ao contrário do porto seguro baiano.

3) Os Marcos de Pedra: O argumento mais evidente é o da distância. Os portugueses navegaram duas mil milhas náuticas ao sul para fincar o segundo marco de posse em Cananeia (SP). O Marco de Touros (RN) é idêntico ao de Cananeia – ambos de pedra lioz com as armas do Rei. Se Cabral tivesse partido da Bahia, ao navegar duas mil milhas, o segundo marco estaria fincado na Patagônia argentina, e não em São Paulo.

Apesar da robustez desses argumentos, a recepção inicial foi fria. O tema é polêmico e exige pesquisas aprofundadas, mas, por ora, parecia que as universidades não se interessavam muito por ele. A grande imprensa e a academia nacional, encasteladas na tradição baiana, fizeram pouco caso da obra de Lenine Pinto. Ele permaneceu, durante anos, como um “solitário defensor” da tese, um historiador fora dos muros da universidade cujas evidências eram ignoradas pelo mainstream das comemorações dos 500 anos.

O tempo, contudo, é o senhor da razão e o que era tratado como excentricidade local começou a ganhar corpo científico. Já neste século, a tese saiu do isolamento. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Paraíba (UFPB) começaram a trazer o tema à tona, validando metodologicamente as intuições de Lenine.

A professora Rosana Mazaro, do Departamento de Turismo da UFRN, não apenas esposou a tese como a testou empiricamente. Com conhecimentos que extrapolam o ambiente acadêmico, dedicando-se à arte de velejar e tendo feito o percurso Europa-Rio Grande do Norte de veleiro, demonstrou a viabilidade da rota (https://oglobo.globo.com/sociedade/uniao-para-provar-que-cabral-chegou-primeiro-ao-rio-grande-do-norte-21238803). Ao lado dela, Manoel de Oliveira Cavalcanti Neto lançou livros robustecendo a teoria, sugerindo ajustes geográficos (como a Serra Verde no lugar do Cabugi) mas mantendo a premissa potiguar. Mais recentemente, os pesquisadores Carlos Chesman de Araújo Feitosa e Cláudio Benedito da Silva Furtado escreveram artigo acadêmico confirmando a tese, recorrendo a outras áreas do conhecimento para fundamentá-la.

Imagem feita com auxílio de IA

Hoje, a grande imprensa e a academia já não podem ignorar os fatos. Artigos em grandes jornais e portais de notícias demonstram que a ideia penetrou o debate público. O trabalho de Lenine Pinto, que começou com a desconfiança típica reservada aos pioneiros, agora serve de base para uma reescrita da história nacional.

Se o Brasil foi achado ou descoberto, é uma questão de semântica. Mas se foi na Bahia, em Alagoas ou no Rio Grande do Norte, é uma questão de geografia e justiça histórica. E as evidências, agora sob o aval da universidade que antes silenciava e até desprezava a hipótese, apontam cada vez mais para a esquina do continente, onde o Brasil, de fato, parece ter começado.

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