O tapete do pleno emprego

por Sérgio Trindade foi publicado em 08.dez.25

Imagine a seguinte cena: você está sentado na sala, controlando o impulso de jogar o controle remoto pela janela, enquanto alguém na TV, com a empolgação de um vendedor de loja que ataca o pedestre quando ele passa na calçada para arrastá-lo para dentro da loja anuncia que o Brasil vive o “melhor mercado de trabalho da história”. A pessoa sorri, abre os braços, e quase esperamos que ela revele um carro zero quilômetro escondido atrás do telão. Pois é. Quando falamos de desemprego no Brasil, cada estatística parece vir acompanhada de uma trilha sonora de auditório: “Olha o ibope, olha a expectativa, valendo o emprego!”. Mas, para nossa sorte, ainda existe o IBGE (e outros institutos sérios), que, até onde sabemos, apesar de ser presidido por quem é, ainda não é patrocinado por nenhum partido, nenhuma gravadora e nem sequer por uma rede de supermercados. Ele apenas mede as coisas. O que já é uma extravagância no Brasil, país habituado a dar pouca importância para dados concretos.

Pois bem, vamos aos fatos, porque mentira já tem demais no mundo, principalmente depois da invenção das redes sociais. A taxa de desocupação despencou desde o início do governo Lula. Caiu, sim. Caiu como o peso de quem faz bariátrica: rápido, vistoso e com aplausos. Em 2023, a média ficou em 7,8%. Em 2024, encolheu para 6,6%. E no último trimestre, bateu 6,2%,  que, na série histórica da PNAD Contínua (iniciada em 2012), é um recorde. É como se o desemprego tivesse visto o extrato bancário do brasileiro e dito: “Eu? Vou embora daqui. Aqui não tem futuro pra mim, não”.

Tem mais, porquanto a população ocupada bater na marca de 100 milhões de pessoas. Não é pouca gente; é aproximadamente o número de brasileiros que têm uma opinião definitiva sobre futebol, mesmo sem saber o nome de nenhum lateral-direito. Além disso, o número de trabalhadores com carteira assinada também subiu e subiu bonito, renovando recordes. E, para completar o show, o rendimento médio real também reagiu. O brasileiro, em tese, voltou a comprar mais do que miojo, ovo e refrão de sofrência.

Tudo, repito, é verdade. Não é meme, não é pegadinha, não é deepfake do IBGE cantando pagode no Jornal Nacional. São dados.

TABELA 1 – Fatos que são, de fato, fatos

Indicador Situação Real
Taxa de desemprego Caiu para 6,6% em 2024; 6,2% no último trimestre
População ocupada Ultrapassa 100 milhões
Emprego com carteira assinada Crescimento contínuo; sucessivos recordes
Massa de rendimento real Em nível recorde
Rendimento médio real Em recuperação consistente

 

Até aqui, tudo muito bonito, elegante e sincero. Mas, como todo jantar requintado, sempre tem aquele momento em que alguém bate a mão na mesa e pergunta: “Mas e a conta, quem vai pagar?”. A conta, no caso, é a parte da história que alguns preferem omitir, esconder debaixo do tapete ou, com mais classe, empurrar para debaixo dos gráficos de pizza.

Imagem feita com auxílio de IA

A principal delicadeza, palavra bonita para “problema”, é que a taxa de desemprego mede só quem está procurando emprego e não encontra. É quase como medir a quantidade de solteiros levando em conta apenas quem está no Tinder. Ou seja: tem muita gente fora da conta. Os desalentados, por exemplo: cerca de 2,6 milhões de pessoas que desistiram de procurar trabalho porque, é provável, receberam um sinal divino dizendo “não perca tempo, meu filho”. Há também os subocupados, aqueles trabalhadores que têm emprego, mas não têm horas suficientes, renda suficiente ou sequer paciência suficiente para esse tipo de situação.

E aí entra o dado que poucos colocam na vitrine: a Taxa Composta de Subutilização. Ela junta o pessoal que está desempregado, o que desistiu, o que trabalha menos do que gostaria, e o resultado é um Brasil que não está tão cor-de-rosa quanto a taxa oficial sugere. A subutilização também caiu? Sim. Mas continua revelando algo muito maior do que o desemprego oficial, a saber, o tamanho real da força de trabalho que está no meio termo entre “ocupado” e “nem tanto”. Ou seja, é possível que o sujeito esteja trabalhando num esquema tão precário que nem o IBGE sabe se parabeniza ou se manda uma cesta básica.

E aqui chegamos a outro elemento importante: a informalidade. Ela permanece em torno de 39%, o que significa milhões de pessoas sem direitos trabalhistas. É como jogar um campeonato inteiro de futebol sem juiz, sem bandeirinha e sem VAR, e ainda torcer para ninguém quebrar a perna. Grande parte dos novos empregos vem dos trabalhadores por conta própria, que é o jeito elegante de dizer “a pessoa faz o que dá”. Alguns têm CNPJ, outros têm apenas coragem, e vários têm só desespero mesmo. E, claro, temos os trabalhadores de aplicativo, um verdadeiro exército que conta como ocupados, mas cujo salário efetivo às vezes depende mais da meteorologia que da economia.

Tudo isso representa um mercado de trabalho que voltou a gerar empregos, sim, mas numa qualidade tão diversificada que seria necessário um curso inteiro organizado pelos melhores especialistas em mercado de trabalho para entender as nuances. Entre o emprego formal e o empreendedor forçado, há um universo inteiro, e é justamente aí que mora a famosa manipulação dos discursos triunfalistas. Porque, quando alguém diz que “o Brasil vive pleno emprego”, o que normalmente quer dizer é: “Por favor, não leia a nota de rodapé”.

TABELA 2 – Onde mora a manipulação (ou onde mora a malandragem)

Tema A realidade Como pode ser manipulado
Subutilização Ainda alta; milhões subempregados Omitida ao se citar apenas a taxa oficial
Desalento 2,6 milhões de pessoas Ignorado nos discursos de “pleno emprego”
Informalidade 39% dos ocupados Tratada como “empreendedorismo”
Qualidade do emprego Muitos postos precários Generalizada como “geração de empregos”
Base de comparação Recuperação pós-pandemia Vendida como “melhor momento da história”

 

Um ponto essencial: a tal da “base de comparação”. Celebrar queda do desemprego é justo, correto e necessário. Mas é preciso lembrar que estamos comparando com a pandemia, quando o mercado de trabalho brasileiro estava tão devastado que até a esperança tinha pedido demissão. Portanto, parte dessa queda é, tecnicamente, uma recuperação do estrago, não uma invenção súbita de um paraíso tropical, no qual todos têm emprego, salário digno e cafezinho de graça

Dá para comemorar? Certamente. No entanto, dá também para desconfiar do entusiasmo exagerado de quem aparece na televisão com a alegria de quem acabou de ganhar na loteria federal, porque, no fim das contas, o desemprego caiu, sim, mas a qualidade do emprego ainda nos obriga a encarar um país onde muita gente trabalha mais do que deveria para ganhar menos do que merece (aqui caberia uma discussão imensa sobre a baixa produtividade do trabalhador brasileiro).

Os dados são reais, o IBGE, apesar de seu presidente, é, repito, confiável e as quedas são consistentes. A manipulação, se existe, não está nos números, mas no discurso. Está na tentativa de transformar um bom resultado em uma epopeia mitológica. Está no esforço de pintar a informalidade como autonomia, a subocupação como flexibilidade e o desalento como pausa estratégica. O governo Lula faz isso, o de Bolsonaro também fez, não esqueçamos. E, claro, está no velho hábito brasileiro de equilibrar o otimismo e o desespero na mesma frase, como quem diz “estamos indo bem, muito bem… embora nem tanto”.

O Brasil é esse lugar maravilhoso onde os números descem, a esperança sobe, e a realidade… bom, essa sempre dá um jeitinho.

posts relacionados
Logo do blog 'a história em detalhes'
por Sérgio Trindade
logo da agencia web escolar