IFRN: do ciclo da expansão ao garrote fiscal

por Sérgio Trindade foi publicado em 07.jan.26

A contabilidade da educação federal brasileira no século XXI divide-se em três atos: a bonança da expansão (2010-2014), a asfixia da crise e do teto de gastos (2015-2022) e a atual instabilidade sob o regime de metas fiscais (2023-2026). O IFRN, como peça da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, reflete as oscilações de Brasília com precisão matemática e ainda acrescenta os seus vícios, históricos, ao modelo. Não tem como dar certo.

Imagem feita com auxílio de IA

Foram dois dias para vasculhar o orçamento do Ministério da Educação nos últimos quinze anos e analisar o calhamaço de material que juntei, nos últimos dez anos, pela Lei de Acesso à Informação. Para ganhar tempo na análise, submeti os dados orçamentários da União e do IFRN a mecanismos de inteligência artificial, para daí criar as planilhas. O que vai neste texto é só a pontinha do novelo. Ia publicar a troçada no último sábado, entretanto estive envolvido com atividades mais edificantes e nobres.

Tentei ser cartesiano e substantivo, para não ferir suscetibilidades (como se eu, meus três ou quatro leitores, estivesse preocupado com isso).

1 – Da ilusão do crescimento ao estelionato orçamentário

No início da década de 2010, a política educacional operou sob a lógica da interiorização. O Ministério da Educação (MEC) dispunha de recursos para obras e custeio que permitiram ao IFRN saltar de uma estrutura concentrada para uma rede capilarizada no Rio Grande do Norte. Os dados nominais mostram que o orçamento do MEC saltou de R$ 53,7 bilhões para R$ 94,1 bilhões em quatro anos.

No IFRN, o orçamento discricionário, aquele que paga a vigilância, a energia e os laboratórios, quase dobrou, saindo de R$ 58,4 milhões para R$ 108,5 milhões. Era o período do capital farto.

 

Tabela 1: A ascensão orçamentária (2010-2014)

Ano

Orçamento MEC (Bilhões R$) Rede Federal (Bilhões R$) IFRN Discricionário (Milhões R$)
2010 53,7 1,10 58,4
2011 64,8 1,45 72,1
2012 73,4 1,80 85,6
2013 86,1 2,15 98,2
2014 94,1 2,30 108,5

O ano de 2015 marcou a inversão da tendência. O ajuste fiscal conduzido pela Fazenda impôs o primeiro recuo nominal expressivo. A partir de 2017, com a promulgação da Emenda Constitucional 95 (Teto de Gastos), o orçamento da educação passou a ser corroído pela inflação, uma vez que o limite de gastos era indexado ao IPCA do ano anterior, enquanto os custos fixos das instituições (contratos de energia e serviços terceirizados) subiam acima desse índice.

O IFRN viveu, neste período, o fenômeno da “instituição maior com menos recursos”. Entre 2019 e 2021, o Instituto enfrentou bloqueios que reduziram sua capacidade operacional ao patamar de 2011, embora o número de alunos e campi fosse significativamente superior.

 

Tabela 2: O declínio e a estagnação (2015-2022)

Ano Orçamento MEC (Bilhões R$) Rede Federal (Bilhões R$) IFRN Discricionário (Milhões R$)
2015 93,6 2,10 92,3
2016 102,5 2,15 95,8
2017 107,3 2,05 89,2
2018 105,4 2,00 87,4
2019 104,9 1,95 82,1
2020 103,1 2,30 91,9
2021 94,8 1,90 70,9
2022 113,4 2,10 78,5

 

2 – A falência operacional e a recomposição frustrada

A partir de 2023, houve uma tentativa de recomposição orçamentária. O orçamento discricionário do IFRN retornou ao patamar nominal de 2013/2014. No entanto, a realidade monetária de 2024 não é a de 2014. A correção monetária pelo IPCA indica que os R$ 108 milhões de 2014 equivaleriam a mais de R$ 180 milhões em valores atuais.

Para 2026, o orçamento aprovado pelo Congresso Nacional impôs uma redução nas verbas discricionárias das instituições de ensino. No caso do IFRN, a redução prevista é de R$ 7 milhões em relação ao projetado para 2025, o que recoloca a instituição em um cenário de déficit operacional.

 

Tabela 3: A Instabilidade da Retomada (2023-2026)

Ano Orçamento MEC (Bi R$) Rede Federal (Bi R$) IFRN Discricionário (Mi R$)
2023 158,9 2,45 94,2
2024 180,6 2,50 98,6
2025 200,5 2,65 105,3
2026 233,4 2,35 98,3

 

O exame das planilhas revela que a Rede Federal de Educação Tecnológica sofreu uma compressão de 14% no orçamento discricionário entre o pico de 2014 e a projeção de 2026, sem considerar a perda do poder de compra da moeda. O IFRN, especificamente, encerra o ciclo de dezesseis anos com um orçamento discricionário nominal inferior ao que possuía em 2014, apesar do aumento da sua complexidade administrativa.

As despesas obrigatórias (folha de pagamento) continuam a crescer devido a progressões  de carreira e novas contratações, mas a margem de manobra dos gestores – o recurso para o “giz”, o reagente químico e a conta de luz – permanece estacionada ou em declínio.

A aprovação do orçamento de 2026 sinaliza a continuidade da política de ajuste sobre as despesas não obrigatórias. Para o IFRN, o dado bruto de R$ 98,3 milhões para 2026 representa o retorno ao patamar financeiro de 2013, ignorando treze anos de inflação acumulada e o crescimento da comunidade acadêmica.

 

3 – O garrote no aluno e o banquete na Reitoria

A gestão das crises orçamentárias no IFRN obedece a um roteiro previsível. Sempre que o Diário Oficial da União publica um decreto de contingenciamento ou o Congresso Nacional aprova um orçamento restritivo, como o de 2026, a Reitoria aciona um protocolo de alarmismo que foca, invariavelmente, no “andar de baixo”. O anúncio da crise vem acompanhado de ameaças de interrupção de contratos de limpeza, desligamento de condicionadores de ar e redução de auxílios para estudantes em situação de vulnerabilidade. Contudo, a aritmética da crise é seletiva. Os dados mostram que, enquanto o orçamento discricionário para custeio sofreu perdas reais de quase 50% em doze anos, o ecossistema de funções comissionadas, diárias de alto escalão e eventos de cúpula manteve-se operando em regime de bonança.

 

3.1 – A dieta das salas de aula e o banquete das comissões

A primeira medida de qualquer Reitor diante de um corte é a moralização da conta de energia. Salas de aula no semiárido potiguar ou úmida zona litorânea são submetidas ao calor sob a justificativa da preservação do bem público. No entanto, não se vê, na mesma proporção, uma proposta de extinção de cargos em comissão (CDs) e funções gratificadas (FGs) que povoam a estrutura administrativa da Reitoria.

Muitas dessas funções, criadas para sustentar a capilaridade da instituição, transformaram-se em nichos de acomodação política interna. São “assessorias” e “diretorias” que, na prática, possuem pouca ou nenhuma entrega finalística pedagógica, mas que consomem recursos que poderiam blindar a assistência estudantil. A militância em favor dos desfavorecidos, frequente nos discursos da cúpula, esbarra na porta dos gabinetes climatizados da Reitoria.

 

3.2 – O turismo administrativo: diárias e REDITEC

O fenômeno da “diplomacia dos institutos” é um dos capítulos mais opacos da gestão. Entre 2023 e 2025, o IFRN registrou um fluxo contínuo de viagens internacionais de membros do alto escalão. Diretores e assessores vinculados à Reitoria percorreram destinos diversos sob o pretexto de “acordos de cooperação”, enquanto os campi do lidavam com atrasos no pagamento de bolsas de pesquisa.

O ápice dessa desconexão entre o discurso de austeridade e a prática de gastos é a REDITEC (Reunião Anual dos Dirigentes das Instituições Federais de Educação Profissional e Tecnológica). Trata-se de um evento que desloca, anualmente, centenas de gestores (Reitores, Pró-Reitores e Diretores-Gerais) para destinos turísticos de alto padrão, bancados pelos cofres públicos. O script é o mesmo:

a) O piquenique dos gestores: O custo de deslocamento, hospedagem e diárias para levar dezenas de servidores do IFRN a esse evento é equivalente ao orçamento mensal de assistência estudantil de campi de médio porte.

b) O contraste: Não há registro de que o atual Reitor do IFRN tenha proposto, no âmbito do Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal (Conif), a suspensão ou a simplificação desses encontros em nome da economia de guerra que ele prega para os alunos. Se eu estiver equivocado, deixo o espaço à disposição para que alguém diga o contrário.

 

3.3 – A seletividade dos cortes

Por que os cortes nunca começam por cima? A resposta reside na manutenção do poder interno. Cortar o “piquenique” da REDITEC ou extinguir funções comissionadas ociosas significaria atacar a própria base de apoio político da gestão. É politicamente mais barato cortar o funcionário terceirizado da limpeza, que não tem voz nos conselhos superiores, ou o auxílio-transporte do aluno, que é visto como um “dado estatístico” de evasão.

A gestão do IFRN pratica uma forma de estelionato retórico: condena o “neoliberalismo” de Brasília enquanto aplica, internamente, um ajuste fiscal seletivo que preserva as benesses da burocracia. Festejos natalinos em hotéis de serra, financiados indiretamente por verbas institucionais ou diárias, convivem com a ameaça de falta de reagentes nos laboratórios de química e falta de pincéis decentes para que os professores possam lecionar.

 

4 – Conclusão

O orçamento do IFRN não é apenas pequeno; ele é mal distribuído por opção política. Se o Reitor e sua equipe tivessem a coerência da militância que professam, o primeiro item a ser sacrificado em 2026 não seria a luz da sala de aula, mas o cartões de embarque e a gratificação da função que só existe para carimbar processos de si mesma. Enquanto a cúpula do IFRN não abrir mão de suas próprias “joias da coroa”, o discurso de defesa dos pobres continuará sendo apenas uma peça de marketing para encobrir a manutenção de privilégios.

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