Bruno Tolentino e a arte de declarar guerra
“Folheando” a internet em busca de material para um trabalho que estou escrevendo, deparei-me com uma entrevista polêmica e demolidora do poeta e ensaísta Bruno Tolentino à revista Veja, de 20 de março de 1996, com o título Quero o país de volta. Quando a li, à época, confesso, dei pouca importância. Achei-a até engraçada. Depois que a reli, há pouco, fui em busca da poesia e da prosa de Bruno Tolentino, dos autores que leu e mais citou, o que me ajudou a fazer, de entrada, uma correção: não foi bem uma entrevista, mas uma declaração de guerra. Não se tratava, ali, de um homem que respondia perguntas e, sim, de um combatente que ocupou o espaço público para retomar território perdido. A cultura brasileira, aos olhos de Tolentino, era uma pátria invadida e a entrevista era o seu panfleto de reconquista.

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Nada ali foi improviso. O tom virulento, a recusa ao meio acadêmico, a artilharia pesada contra os irmãos Campos (Augusto e Haroldo) e contra a universidade brasileira não nasceram de um mau humor circunstancial, mas de uma formação intelectual profundamente marcada pela tradição europeia clássica, pela ideia de hierarquia estética e por um ressentimento quase trágico contra o que ele percebia como a vulgarização do espírito.
Tolentino falou como quem voltou do exílio, e, de fato, voltou. Trinta anos na Europa não o tornaram cosmopolita no sentido leve do termo, mas, segundo os seus críticos, um conservador quase reacionário do alto espírito, no sentido francês do século XIX. Sua matriz não era a vanguarda, mas o cânone. Não era o experimentalismo, mas a permanência. Não é a universidade, mas a biblioteca.
Quando atacou Augusto e Haroldo de Campos, não atacou apenas pessoas, mas um projeto estético. O concretismo, com sua ênfase na materialidade da palavra, na ruptura sintática e na importação seletiva das vanguardas europeias, representava para Tolentino a negação daquilo que ele mais prezava, a saber, a tradição lírica, o verso metrificado, a continuidade da língua como herança civilizatória. Sua crítica às traduções era filológica, mas sobretudo moral. Traduzir mal, para ele, era trair a civilização.
Essa postura tem raízes claras. Tolentino era filho intelectual de uma linhagem que passa por Dante, Baudelaire, Valéry, Eliot e Pound, mas por um Pound filtrado pelo arrependimento, não pelo delírio. Ele absorveu o rigor formal, a crença na elite espiritual, o desprezo pelo populismo cultural. Sua poesia e sua prosa ensaística obedeciam a uma ética da forma, afinal escrever bem, dizia à exaustão, não é opção, é dever.
A universidade brasileira surgia, então, como inimiga natural. Não porque ensinasse mal apenas, mas porque, afirmava e reafirmava, institucionalizou a mediocridade, substituindo o juízo estético pelo consenso corporativo. Quando ele afirma que só entraria numa universidade “disfarçado de cachorro”, não faz humor, pratica a velha sátira moral, herdeira de Swift e outros. A universidade, para ele, não era templo do saber, mas condomínio de vaidades.
Essa crítica ecoa outra influência fundamental, a tradição do ensaio francês antiacadêmico, de Montaigne, Julien Benda e outros. A Traição dos intelectuais, de Benda, paira sobre a entrevista inteira. Tolentino se vê como alguém que permaneceu fiel à inteligência enquanto os outros se venderam à ideologia, ao modismo ou à carreira.
Sua relação com a política é ambígua e, sintomaticamente, reveladora. Ao votar em Fernando Henrique Cardoso, Tolentino não votou em um programa, mas na promessa simbólica do intelectual no poder. O desencanto posterior não foi com o governo, mas com o gesto. Para Tolentino, FHC falhou por não representar a estatura cultural que deveria acompanhar o cargo. Era uma crítica aristocrática, quase monárquica, no sentido espiritual.
As brigas intelectuais de Tolentino, ali, não eram episódicas, mas estruturais. Ele precisava do inimigo porque sua identidade se construiria na oposição, dado ele se definir pelo conflito. Contra os concretistas, contra a USP, contra a crítica institucionalizada, contra o besteirol cultural. Não havia conciliação possível porque, em sua visão, o que estava em jogo não era opinião, mas verdade estética, postura que o isolava e o singularizava, porque, sejamos claros, Tolentino não desejava plateia ampla e, sim, um tribunal. Ele falava para a história, não para o presente. Sua entrevista foi escrita como quem lavra ata de acusação, certo de que será incompreendido agora, mas absolvido depois. No fundo, a entrevista revelou o Brasil e, mais ainda, o próprio Tolentino. Um homem formado na crença de que a cultura é um campo de batalha moral, de que escrever é um ato de responsabilidade civilizacional, de que o compromisso do intelectual não é com a inclusão, mas com a excelência.
Bruno Tolentino falou como quem perdeu o país, e exigia tê-lo de volta. Não para o povo, não para a universidade, não para o mercado. Para a língua, para o verso, para a ideia, cada vez mais rara, de que a inteligência não pede licença.
E é isso que torna sua entrevista incômoda, não porque esteja sempre certa, mas porque não aceita negociar o direito de estar errada. Como os grandes polemistas, Tolentino não quer consenso. Quer ruído, cicatriz e a cultura sangre – para ver se ainda está viva.