Manual prático do pensamento crítico autorizado: o caso Tassos Lycurgo
Minha primeira lembrança do professor Tassos Lycurgo é dos bancos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Ali, no Setor II, pagamos uma ou duas disciplinas. Éramos, então, alunos do curso de Filosofia. Depois nossos caminhos se cruzaram quando ele, professor do Departamento de Artes (UFRN), foi convidado pelo professor de Filosofia Luiz Roberto, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), para participar de um debate com o também professor da UFRN Alípio de Sousa Filho, uma de minhas referências intelectuais. O debate era um dos cinco do projeto de extensão Debate em Cena, coordenado por Luiz Roberto.
Antes de prosseguir, um pequeno detalhamento sobre o Debate em Cena.
O Debate em Cena teve duas versões, 2016 e 2017. Ambas seguindo o mesmo fio, a saber, trazer personalidades e pensadores do mundo político, cultural e acadêmico do estado para debater temas polêmicos. A ideia era demonstrar como seria possível debater e discutir sem ser desrespeitoso, sem agredir o interlocutor – e nisso o projeto atingiu plenamente o objetivo.
O Debate em Cena foi um dos responsáveis por Luiz, eu e outros colegas que dele participávamos cairmos em desgraça na casa de educação (adoro este termo que diz muito sobre o que é educação neste país desgraçado pelos seus próprios dirigentes, incluindo burocratas e formuladores de gabinete) na qual trabalhávamos e trabalhamos.
Tratarei disso em texto posterior. No momento, o meu interesse é escrever sobre a polêmica envolvendo o professor Tassos Lycurgo.
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A universidade sempre foi um lugar estranho, dizia-me Orlando Pinto de Miranda, professor da Universidade de São Paulo (USP) e meu orientador de mestrado. E é mesmo. Estranho no melhor e no pior sentido. Um território que nasceu do conflito, da disputa de ideias, da tensão permanente entre fé e razão, entre tradição e ruptura, mas que, curiosamente, em certos momentos da história, passa a se comportar como se tivesse descoberto a verdade final, e, a partir daí, qualquer divergência vira heresia. É nesse clima, mais próximo de um tribunal moral do que de uma ágora, que se insere a polêmica envolvendo o professor Tassos Lycurgo, da UFRN.
O caso, em si, não tem nada de novo. Muda-se o nome, o departamento, o objeto do escândalo, mas o método é sempre o mesmo: pinça-se uma frase, arranca-se do contexto, viraliza-se o recorte e constrói-se um personagem. O professor deixa de ser alguém com trajetória acadêmica, textos, aulas e argumentos e passa a ser apenas um rótulo ambulante: um “reacionário”, um “fundamentalista”, um “perigoso”. A partir daí, o debate morre antes de nascer.
O que chama atenção, no episódio Tassos Lycurgo, não é a existência de discordâncias, afinal estas são naturais e desejáveis, mas a rapidez com que a divergência intelectual é convertida em campanha de cancelamento. Não se discute se os argumentos são bons ou ruins; discute-se se ele deveria ou não ter o direito de formulá-los em sala de aula. É aí que o problema deixa de ser pessoal e passa a ser institucional.
Há um esquecimento conveniente, nesses tempos em que precisamos reaprender que a grama é verde e que dois mais dois ainda são quatro: a universidade ocidental nasceu, em larga medida, sob o abrigo do cristianismo. Bolonha, Paris, Oxford, Salamanca, etc surgiram em ambientes profundamente marcados pela fé cristã. Não como espaços de catequese, mas como lugares onde o debate era permitido exatamente porque havia uma convicção de que a verdade não teme o confronto. Isaac Newton, para citar um nome que constrange os simplificadores profissionais, escreveu mais sobre teologia do que sobre física. Nem por isso deixou de ser Newton.
Isso não significa, evidentemente, que argumentos religiosos estejam acima da crítica. Ao contrário. Significa apenas que eles não podem ser interditados de antemão, como se fossem uma contaminação a ser extirpada do ambiente universitário. Defender o direito de um professor cristão expor seus argumentos não é impor a fé a ninguém e, sim, preservar a regra do jogo que permite que todas as posições, inclusive e principalmente, as contrárias, existam.
Max Weber, em suas conferências clássicas Ciência como vocação e Política como vocação, foi de uma clareza desconcertante sobre esse ponto. O papel do professor não é formar discípulos ideológicos nem conduzir almas, mas de apresentar problemas, métodos, argumentos e deixar que o aluno, como adulto responsável, tire suas próprias conclusões. A sala de aula não é palanque, mas também não é espaço esterilizado de convicções pessoais. O que se exige do docente não é neutralidade moral absoluta, algo impossível, mas honestidade intelectual e clareza sobre onde termina a ciência e começa o valor.
Curiosamente, Weber escrevia isso para criticar tanto professores que transformavam a universidade em púlpito político quanto aqueles que fingiam uma neutralidade inexistente. Hoje, porém, a crítica parece ter sido esquecida por um lado apenas. Normalizou-se o uso do espaço acadêmico público, sustentado pelo dinheiro de todos, para militância ideológica explícita, intervenções identitárias e experimentações pedagógicas de consequências duvidosas. Tudo isso é frequentemente celebrado como “engajamento”. Já quando um professor sustenta posições conservadoras, cristãs ou simplesmente dissidentes do consenso dominante, o tom muda: vira “ameaça”, “violência simbólica”, “risco institucional”.
Tassos Lycurgo, goste-se ou não de suas ideias, não está sendo acusado de incitar ódio, de perseguir alunos ou de cometer ilegalidades. Seu “crime” é sustentar, nos campos biológico, filosófico e acadêmico, uma visão de mundo que não se alinha ao progressismo hegemônico nas universidades brasileiras. E isso, hoje, parece suficiente para despertar fúria.
É preciso dizer, também, que a defesa da liberdade de cátedra não exige transformar o professor em santo. Tassos não é um gênio incompreendido nem um oráculo infalível. Usa, sim, recursos retóricos discutíveis; recorre, por vezes, a sofismas; simplifica debates complexos para atingir o grande público, algo que ele faz com habilidade desde meados da primeira década deste século, quando poucos acadêmicos se aventuravam na internet. Nada disso o torna um mentiroso compulsório ou um charlatão. Torna-o um intelectual com virtudes e defeitos, como todos os outros.

Imagem feita com auxílio de IA
Aliás, muitas das críticas que hoje causam escândalo já estavam formuladas décadas atrás por autores variados, inclusive fora do campo conservador. O que mudou não foi a qualidade do argumento, mas o clima político. O Estado foi sendo moldado por racionalidades militantes, e o debate público empobreceu. Discutir com militante virou exercício inútil, pois não há escuta, apenas reação. Serve mais para gerar curtidas do que para produzir compreensão.
Transformar divergência intelectual em perseguição ideológica não fortalece minorias, não amplia direitos e não constrói ciência. Apenas substitui o diálogo pelo constrangimento público. E isso, ironicamente, em nome da diversidade.
A democracia, convém lembrar, não exige unanimidade. Exige convivência com o dissenso. Silenciar professores hoje é abrir precedente para silenciar qualquer cidadão amanhã. A liberdade não pode e não deve ser negociada; o debate a protege, inclusive quando incomoda.
Há quem diga que Tassos deveria “aproveitar o termômetro” e ir embora do país, caso a coisa azede. Não seria difícil. Ele parece não depender do salário da UFRN para sobreviver e tem portas abertas fora do Brasil, inclusive nos Estados Unidos. Mas esse raciocínio revela algo ainda mais grave, a saber, a naturalização da expulsão simbólica dos indesejáveis. Se você não se encaixa, vá embora. A universidade perde, o país perde, e a bolha ideológica se preserva intacta, burra, ignorante e ainda mais intransigente e repressora. Essa patota pretensamente virtuosa mata o espirito que alega cultivar.
O caso Tassos Lycurgo diz menos sobre ele e mais sobre o estado atual da universidade brasileira. Uma instituição que deveria ser o último reduto da discussão livre parece, cada vez mais, temer o próprio princípio que a fundou. E quando a universidade passa a ter medo das ideias, já não é mais universidade, é apenas um espaço burocrático com diploma no final.
Defender o direito de Tassos falar não é concordar com ele. É algo bem mais simples e, paradoxalmente, muito mais difícil de fazer: defender a universidade contra ela mesma.