O trunfo e a traição do Real: a moeda que deu o poder e cobrou a fatura
Desde 2003, quando Lula subiu a rampa do Palácio do Planalto e, poucos dias depois, gritou que recebera do seu antecessor uma herança maldita, venho lendo (lendo, não estudando), com certa atenção, o cenário de três governos que guardam, entre si, no terreno econômico, algumas semelhanças: Campos Sales, Castello Branco e Fernando Henrique Cardoso.
Escrevi, semana passada, sobre Campos Sales e Castello Branco (https://historianosdetalhes.com.br/historia-do-brasil/os-homens-que-fecharam-a-torneira-e-viraram-viloes/). Hoje, discorro um pouco sobre o nascimento e a execução do Plano Real.
A política corre no fio da navalha e isso o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, intelectual acadêmico e estudioso do fenômeno, descobriu no exercício do poder, pois a estabilidade da economia, que foi o seu pedestal, tornou-se também o seu limite diante da história.
O Plano Real não nasceu de um espasmo, mas de um parto fórceps de paciência política. Fernando Henrique Cardoso, ao assumir, em 1993, o Ministério da Fazenda, não levou consigo apenas um diploma de Sociologia, a experiência acadêmica e a vivência, por mais de uma década, no Senado, mas a compreensão de que a inflação era, acima de tudo, um conflito distributivo. Como bem aponta Gustavo Franco em seu denso A Moeda e a Lei, o Brasil vivia uma hiperinflação inercial, com o passado devorando, por meio e através da indexação, o futuro.

Imagem feita com auxílio de IA
Além da escolha da equipe, FHC exerceu o papel de “escudo político”. Antes do plano, ele articulou o PAI (Programa de Ação Imediata), um rosário de medidas administrativas e econômicas, com foco no equilíbrio fiscal e na redução de gastos, lançado ainda em 1993, no governo de Itamar Franco. Em Saga Brasileira, lançado em 2011, Miriam Leitão descreve como FHC foi o fiador que impediu que as loucuras de planos anteriores, como confiscos e congelamentos, contaminassem a nova tentativa. Durante a implementação da URV (Unidade Real de Valor), ele foi o pedagogo da nação, explicando que o valor não vinha da canetada, mas da confiança. Após o lançamento da moeda, manteve a coesão da equipe econômica contra as pressões desenvolvimentistas do Congresso, garantindo que o Real não fosse apenas mais um “verão” passageiro.
A complexidade do Real residiu na sua transição em três atos: o ajuste fiscal prévio, a criação de uma moeda de conta (URV) e, finalmente, a moeda física. Foi uma “engenharia da transparência”. Edmar Bacha, um dos artífices do Plano Real, disse em artigo que a URV foi o mecanismo que permitiu a sincronização de preços sem o trauma do congelamento, que invariavelmente gerava desabastecimento (https://oglobo.globo.com/economia/edmar-bacha-licoes-do-cruzado-13057076).
Para o brasileiro comum, o Real foi a carta de alforria do supermercado. A inflação, o mais regressivo dos impostos, castigava quem não tinha conta bancária para se proteger no overnight. Com a estabilidade, o ganho real apareceu. O consumo de proteínas subiu e o horizonte de planejamento do cidadão comum saltou de 24 horas para meses. Foi o fim da maquininha de remarcar preços, um símbolo da humilhação cotidiana da classe média para baixo.
A política, a arte do possível, rendeu-se aos números. Em 1994, FHC começou atrás de Lula nas pesquisas. Bem atrás, Contudo, como demonstra Guilherme O’Donnell em suas análises sobre a democracia brasileira, a estabilidade econômica é o maior legitimador político em países saídos de crises agudas (https://www.scielo.br/j/rbcpol/a/STMQwPsTQ6C5WJvTK4JxFPp/?format=html&lang=pt). A queda da inflação de níveis estratosféricos para níveis civilizados foi um choque de realidade, garantindo a eleição de FHC no primeiro turno de 1994, ancorado na esperança. Reelegeu-se em 1998 ancorado no medo. Em A era FHC: um balanço, livro organizado por Rubens Figueiredo e Bolívar Lamounier, é exposto que a manutenção do câmbio sobrevalorizado em 1998, embora perigosa para as contas externas, garantiu a sensação de continuidade necessária para derrotar a oposição. O eleitor votou na segurança, pois receava a volta do dragão inflacionário.
Há um paralelo evidente, se o assunto for economia, quando olhamos para a espinha dorsal da ortodoxia dos anos Campos Salves, Castello Branco e FHC.
Em Formação Econômica do Brasil, Celso Furtado descreve o saneamento de Murtinho como um esforço brutal para, por meio do Funding Loan, recuperar o crédito externo. FHC fez o mesmo ao renegociar a dívida externa via Plano Brady.
O Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG), como detalha Thomas Skidmore em Brasil: de Getúlio a Castelo, instituiu a correção monetária e reformas institucionais que criaram o Banco Central.
A semelhança reside na prioridade da estabilidade sobre o crescimento. Os três períodos buscaram “arrumar a casa” fiscal e monetária, acreditando que o desenvolvimento só é sólido sobre uma moeda forte. FHC, contudo, teve o mérito de fazê-lo sob o rito democrático, enquanto Sales usou a política dos governadores e Castello os Atos Institucionais.
A perda de popularidade de FHC no segundo mandato não foi por erro de diagnóstico inicial, mas por esgotamento do modelo. Em Brasil, um destino entreposto, o economista Reinaldo Gonçalves aponta que a insistência na âncora cambial gerou déficits comerciais insustentáveis. Em 1999, o Real foi desvalorizado forçadamente e o “feitiço virou contra o feiticeiro”, com os juros indo às alturas para conter a fuga de capitais.
O golpe final veio com a crise energética de 2001, o apagão. Um governo que se orgulhava da eficiência técnica e da modernização foi atropelado pela falta de investimento em infraestrutura básica. O desemprego, que em 1998 batia recordes, somado à estagnação do PIB, fez com que o Real deixasse de ser o “milagre” de FHC para se tornar uma obrigação do Estado. O povo já não agradecia mais pela moeda estável; agora, ele cobrava o emprego que o Real não conseguia mais gerar.