Às margens do Açu: quando o Rubicão potiguar volta a cobrar seu preço
O Rio Grande do Norte sempre gostou de transformar a sua geografia em destino. Aqui, rios são cursos d’água e, sobretudo, sentenças históricas. O Açu, por exemplo, corre como linha invisível de poder, fronteira simbólica entre o Oeste que deseja mandar e o Leste que manda. Há décadas se repete, em tom de sabedoria entre irônica e amarga, o dito segundo o qual os Rosado não devem atravessar o Açu rumo a Natal. Não é um capricho folclórico, mas uma lei não escrita da política potiguar, dessas que não constam em código algum e funcionam melhor do que muitas.
Dois Rosado ousaram contrariar o dito. Dix-Sept Rosado atravessou o rio e venceu, mas foi tocaiado pela morte longe de casa, em Sergipe, como se o destino tivesse pressa em restabelecer a ordem natural das coisas. Rosalba Ciarlini também cruzou o Açu e chegou ao governo, mas ali sofreu uma morte política lenta, sem dramaticidade trágica, engolida pela ineficiência administrativa, pela perda de apoio e pelo isolamento progressivo; um tipo de morte que não rende missa, mas rende esquecimento. E o Açu segue tratado como Rubicão; quem o atravessa, de Mossoró para cá, é destruído.
Na Roma antiga, atravessar o Rubicão significava romper com a legalidade vigente e aceitar todas as consequências do gesto. Júlio César sabia disso quando pronunciou o célebre alea jacta est. Não havia meio-termo: ou Roma, ou o fim. O Açu, guardadas as devidas proporções, opera da mesma forma. Ele não separa apenas regiões; separa projetos, linhagens políticas, ressentimentos históricos e uma permanente desconfiança entre Mossoró e Natal. A travessia é sempre um ato de ousadia e, quase sempre, de punição.
É nesse contexto que surge Allyson Bezerra. Não é Rosado, o que já o livra de uma herança simbólica pesada. Encarna algo, porém, talvez ainda mais perigoso: o velho anseio de Mossoró de governar o Rio Grande do Norte, de deixar de ser apenas o segundo polo econômico e cultural para tornar-se centro decisório. Mossoró nunca se contentou com o papel de coadjuvante. Desde os tempos de resistência ao bando de Lampião, outro episódio transformado em mito fundador, a cidade se vê como exceção moral, administrativa e política dentro do estado.
Allyson é filho dessa narrativa. Jovem, hábil na comunicação, beneficiário do cansaço do eleitor com as oligarquias tradicionais (Alves, Maia e Rosado), ele construiu uma imagem de gestor eficiente, um quase tecnocrata, em contraste com a política velha, viciada, familista. Até aqui, vinha atravessando o Açu em marcha firme, com pesquisas generosas e o olhar curioso – e apreensivo – de Natal. Mas eis que entram em cena a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União, duas legiões modernas que não marcham com sandálias romanas, mas com mandados, relatórios e notas técnicas.
Não se trata ainda de condenação, nem de sentença definitiva. Mas, como na Roma republicana, a simples acusação já corrói reputações. A suspeita, na política, funciona como ferrugem: não derruba de imediato, mas enfraquece as estruturas por dentro. O episódio pode baquear a performance do jovem prefeito mossoroense nas pesquisas, principalmente entre os eleitores indecisos, que gostam de novidade, mas detestam risco.
O mesmo povo que aplaude o outsider é o primeiro a recuar quando o cheiro de escândalo começa a circular.

Imagem feita com auxílio de IA
Aqui, meus três ou quatro leitores, a história romana ajuda a iluminar a potiguar. César atravessou o Rubicão e venceu, mas abriu caminho para o fim da República. Outros tentaram gestos semelhantes e foram esmagados pelo Senado ou pelo acaso. Nem todo atravessador de rios termina em estátua. Muitos acabam em notas de rodapé. No Rio Grande do Norte, a travessia do Açu costuma cobrar preço alto, sobretudo de quem vem do Oeste com ares de salvador.
Natal, como Roma, não gosta de ser surpreendida. O centro do poder reage mal quando sente ameaça vinda das bordas. As elites natalenses, políticas e administrativas, historicamente veem Mossoró com uma mistura de inveja e desconfiança. Inveja pela vitalidade econômica; desconfiança pelo espírito autônomo, quase insolente. Um governador mossoroense nunca é apenas um governador; é sempre um corpo estranho no Palácio do governo.
O caso Allyson, portanto, não é apenas policial ou administrativo. É simbólico. É a velha luta entre centro e periferia, entre tradição e renovação, entre o medo de repetir Rosalba e a tentação de apostar num novo César. O Açu corre silencioso, porém atento. Ele já viu muitos discursos promissores se afogarem em suas margens imaginárias. Então, resta saber se Allyson Bezerra atravessou ou atravessará o Rubicão no momento certo, e com a força suficiente para suportar o que vem depois. Porque, como ensinou a história antiga e confirma a potiguar, atravessar o rio é fácil. Difícil é chegar vivo do outro lado.