A direita brasileira em três atos: razão, fúria e o preço do poder

por Sérgio Trindade foi publicado em 02.fev.26

A direita brasileira vive hoje uma fratura eleitoral ou circunstancial e, também, de natureza ideológica, moral e histórica. Ela se divide, grosso modo, em três campos: a direita democrática, a direita autoritária e uma direita fisiológica, essa última sempre disposta a mudar de lado conforme a inclinação do vento e a espessura do orçamento. Essa divisão não nasceu, como devem saber meus três ou quatro leitores, ontem; ela apenas se tornou mais visível num país que voltou a politizar tudo – da taxa de juros à arrumação da cozinha.

A chamada direita democrática é herdeira imperfeita de uma tradição liberal brasileira que nunca foi hegemônica – e que, vez por outra, flertou com caminhos autoritários. É uma direita que acredita no Estado de Direito, nas regras do jogo, na previsibilidade institucional e, principalmente, numa agenda econômica racional, ancorada em responsabilidade fiscal, reformas estruturais e integração ao mercado global. Seu problema histórico é simples e antigo: ela fala a língua da razão num país que vota movido pela emoção.

A direita autoritária se move por outro eixo. Sua pauta é quase nada econômica. O seu caminho é a agenda cultural, moral e identitária. Ela desconfia das instituições, hostiliza a imprensa, flerta com soluções de força e trata os adversários políticos como inimigos existenciais. A economia é, para ela, acessória, quando não irrelevante. O que importa é a guerra simbólica: costumes, valores, ressentimentos e a permanente fabricação de inimigos internos. É uma direita que se alimenta do conflito e se esvazia quando a normalidade institucional volta a respirar.

Entre essas duas, viceja a direita fisiológica, batizada genericamente de centrão – nome impreciso, mas funcional. Esse bloco não tem ideologia, tem tabela de preços. Seu norte é o acesso a cargos, verbas, emendas, diretorias e fundos. É uma administradora de oportunidades. Como bem observam cientistas políticos como Bolívar Lamounier, Sérgio Abranches e outros, trata-se de um fenômeno estrutural do presidencialismo de coalizão brasileiro: quem controla a máquina controla o centrão. E quem controla o centrão governa, ainda que mal.

Por isso, essa direita fisiológica oscila sem constrangimento. Pode se dizer conservadora de manhã, governista à tarde e progressista à noite, se isso garantir a sobrevivência política. Não é incoerência, é método. E é exatamente por isso que ela se acomoda no colo da esquerda quando esta ocupa o Planalto. O lulismo, mestre na arte da cooptação, sempre soube irrigar esse campo com recursos abundantes, anestesiando qualquer veleidade moral.

A tensão real, contudo, não se dá entre a direita democrática e o centrão, os quais se toleram por pragmatismo, mas entre a direita democrática e a direita autoritária. São projetos distintos de país, ainda que embalados sob o mesmo rótulo eleitoral.

A direita democrática olha para o déficit fiscal, para a produtividade estagnada, para a falência do modelo previdenciário, para a baixa qualidade do gasto público. Ela lê Edmar Bacha, Pérsio Arida, Armínio Fraga. Sabe que o Brasil não cresce porque não investe direito, não educa bem, não poupa e não confia em si mesmo. Seu drama é que esse discurso, correto e tecnicamente consistente, não inflama multidões.

A direita autoritária, ao contrário, inflama. Oferece narrativas simples para problemas complexos. Identifica culpados claros: a imprensa, a universidade, o STF, os globalistas, os artistas, os professores. Seu vocabulário é emocional, quase religioso. Como observa, Marcos Nobre, trata-se de uma política de permanente estado de exceção simbólica, na qual a democracia é tolerada apenas enquanto serve ao projeto de poder.

Imagem feita com auxílio de IA

É nesse contexto que surgem figuras como Tarcísio de Freitas, Romeu Zema e Ratinho Júnior. Governadores bem avaliados, com agendas administrativas claras, foco em gestão, infraestrutura, equilíbrio fiscal e atração de investimentos. São políticos que falam em concessões, parcerias público-privadas, reformas administrativas. Em suma: gestores.

E é justamente aí que começa a resistência de parte da direita. Para o campo autoritário, essa agenda lembra perigosamente o PSDB, o grande pecado original. O tucanato, com todos os seus erros e limitações, representou no Brasil uma tentativa de modernização institucional, estabilização econômica e inserção responsável no mundo. Foi derrotado menos por seus equívocos e mais por sua incapacidade de disputar o imaginário popular.

Na lógica da direita autoritária, qualquer discurso moderado, técnico ou institucional “favorece o Lula”. E favorece mesmo, mas não da forma como eles imaginam. Favorece porque Lula prospera no caos. Ele se fortalece quando a oposição se radicaliza, quando flerta com o golpismo, quando transforma a política em guerra santa. Lula é um animal político forjado no conflito, mas que governa melhor quando o adversário perde o juízo.

A direita autoritária não percebe, ou finge não perceber, que seu maximalismo moral empurra o eleitor médio, cansado e pragmático, de volta para o colo do lulismo. O brasileiro comum não quer revolução cultural permanente; quer emprego, renda, previsibilidade e um mínimo de paz institucional. Quando a direita grita demais, Lula sussurra e vence.

A tragédia da direita democrática é estar certa no diagnóstico e errada na pedagogia. Falta-lhe narrativa. Falta-lhe emoção. Falta-lhe compreender que política não é apenas planilha de Excel, mas também símbolo, linguagem e pertencimento. José Murilo de Carvalho já alertava: no Brasil, a cidadania sempre foi concedida de cima para baixo; por isso, o eleitor desconfia de projetos excessivamente racionais.

Enquanto isso, o centrão segue fiel a si mesmo, pronto para servir a quem pagar melhor. Não é vilão e nem herói, é sintoma. Sintoma de um sistema político que transforma orçamento em moeda e neutraliza qualquer projeto de longo prazo.

O impasse está posto. Se a direita democrática não aprender a disputar corações sem renunciar à razão, continuará refém de um campo autoritário que a sabota por dentro. E se a direita autoritária insistir em confundir política com cruzada moral, continuará sendo o melhor cabo eleitoral que Lula poderia desejar.

É certo que a direita brasileira ainda não resolveu seu dilema fundamental: quer governar o país ou apenas vencer a guerra cultural? Enquanto não responder a isso, seguirá dividida – e o poder, como sempre, meus poucos leitores, ficará com quem souber explorar melhor suas fissuras.

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