Collor e Allyson – do clip de 1989 ao algoritmo de 2026: o marketing do Instante
O poder é objeto de desejo que não admite o vácuo e costuma se vestir com as roupas da tecnologia de cada época para parecer inabalável. Quem observa a desenvoltura do prefeito de Mossoró e governadorável Allyson Bezerra nas telas de cristal líquido dos celulares, percorrendo o Rio Grande do Norte como quem domina cada pixel da imagem, não pode deixar de sentir um déjà-vu. Há uma linha invisível, porém sólida, que liga o prefeito de Mossoró ao Fernando Collor de Mello que, em 1989, hipnotizou o Brasil por meio da lente de uma câmera de televisão.
Se Collor foi o filho dileto da era do videoclipe, Allyson é um dos herdeiros da era do algoritmo. As ferramentas mudaram, mas a gramática da sedução política permanece intacta: a fragmentação da mensagem, o ritmo frenético e a construção de uma persona que parece estar em todos os lugares ao mesmo tempo, sem nunca perder o fôlego ou o penteado.

Imagem feita com auxílio de IA
Em 1989, Collor e seu mentor Daniel Tourinho compreenderam que a política tradicional, engessada em comícios de praça e discursos lidos, estava quase morta. O Caçador de Marajás introduziu a estética da ação. Ele não apenas falava; ele corria, saltava de paraquedas, pilotava caças e usava camisetas que eram manchetes ambulantes. Era a política transformada em entretenimento, feita para os segundos contados do Jornal Nacional, líder absoluta de audiência da Rede Globo de Televisão.
Allyson Bezerra, nestas andanças do 2025 que se encerrou, faz o mesmo com o Reels e o TikTok, transpondo a liturgia do cargo para o plano da intimidade digital. O chapéu de couro, que outrora seria apenas um adereço regionalista, torna-se um ícone visual no mar de informações da rede. Enquanto os políticos tradicionais ainda lutam com a sintaxe das redes sociais, Allyson domina a semântica. Ele entrega o “recorte” perfeito, a frase de efeito que cabe na legenda e o carisma que sobrevive ao scroll infinito do polegar do eleitor.
A grande semelhança estratégica reside no drible às mediações. Collor usou a televisão para falar por cima da cabeça dos partidos e da imprensa escrita, estabelecendo uma conexão quase mística com os descalços e descamisados. Ele era o justiceiro solitário. Allyson usa a onipresença digital para criar uma narrativa na qual ele é, simultaneamente, o gestor eficiente e o vizinho de porta.
A “lábia” que os une não é apenas verbal; é visual. Em 1989, eram os cortes rápidos das edições de TV que davam a Collor a aura de um herói de ação. Hoje, são os filtros e a edição ágil que conferem a Allyson a imagem de um líder hiperativo, que governa Mossoró enquanto “coloniza” o resto do estado via telas. O potiguar que o cita espontaneamente como favorito ao governo não o conhece, muitas vezes, pelo aperto de mão físico, mas pela convivência diária na palma da mão.
Contudo, a história guarda um aviso nas entrelinhas. O marketing que eleva é o mesmo que, no primeiro sinal de crise, distorce. Collor descobriu, da maneira mais dura, que a imagem sem sustentação política nos bastidores é um castelo de cartas. O digital aceita tudo, mas a realidade fiscal do Rio Grande do Norte e a complexidade da Assembleia Legislativa são territórios que o algoritmo ainda não mapeou.
Ao caminhar para 2026, Allyson Bezerra carrega a mesma confiança inabalável de Collor ao subir a rampa do Planalto. Ambos acreditaram que a comunicação direta com a massa era um escudo eterno contra as intempéries do poder real. A crônica política nos ensina que o brilho da tela fascina, mas é no silêncio das instituições que o destino dos governantes é, de fato, selado.
Resta-nos observar se o fenômeno mossoroense terá a habilidade de converter seguidores em aliados e likes em governabilidade, afinal , a imagem é, no tabuleiro da história, apenas o lance de abertura; o xeque-mate exige a paciência dos velhos mestres que, ao contrário de Narciso, não se perdem no reflexo da própria tela.