O vice que não quer a poltrona de governador (?)

por Sérgio Trindade foi publicado em 09.fev.26

A política do Rio Grande do Norte voltou a produzir uma daquelas situações que fariam a delícia de um cronista do Segundo Reinado e dariam dor de cabeça a qualquer cientista político compenetrado. O vice-governador Walter Alves anunciou, com a placidez de quem pede café amargo, que não pretende assumir o governo do estado caso a governadora Fátima Bezerra se afaste para disputar o Senado. A declaração, em aparência simples, abriu uma dessas rachaduras institucionais por onde escorrem ambições, medos, cálculos e contradições que o discurso público tenta esconder.

Em termos formais, tudo é cristalino. A Constituição manda, o vice assume, governa e, se quiser, disputa a reeleição com a vantagem da incumbência. É o bônus do cargo. O ocupante do Executivo controla agenda, orçamento, visibilidade e, sobretudo, o tempo, esse recurso escasso que decide eleições antes mesmo da campanha começar. Walter Alves, empossado governador, seria o candidato natural do sistema governista. Natural como a gravidade. Mas a política, como ensinou Maquiavel, raramente se comporta de modo natural quando o risco supera o ganho.

Walter não recusou o poder por ascetismo republicano. Recusou porque leu o ambiente. Governar um estado financeiramente exaurido, politicamente tensionado e sob a sombra de um projeto que não é o seu pode ser mais maldição do que privilégio. Há momentos em que dizer não ao poder é fundamental preservar a própria biografia, pontifica a boa ciência política. Nem todo trono é trono; alguns são cadeiras elétricas instaladas numa sala com ar-condicionado quebrado.

O gesto de Walter, entretanto, não encerra a questão. Ao contrário: inaugura um paradoxo. Porque, enquanto ele diz que não quer assumir, os bastidores começam a cochichar outro enredo. Caso Allyson Bezerra, hoje visto como o nome mais competitivo da oposição, desidrate sob o peso de denúncias e investigações da Controladoria Geral da União (CGU) e da Polícia Federal (PF), Walter passaria a ser cogitado como candidato ao governo. E aí a política faria uma incrível pirueta, transformando o vice do governo em candidato de oposição.

Seria Walter Alves, então, vice-governador alçado ao governo e candidato contra o sistema que o colocou lá? A pergunta não é absurda; tem um molho bem brasileiro. Nossa história política está repleta de personagens que atravessaram a ponte (sempre ela) no meio do rio e voltaram acenando para a outra margem. Michel Temer ensinou que vice não é coadjuvante; é espera organizada. José Sarney provou que herdeiros improváveis podem se tornar arquitetos do sistema. Antes deles, Floriano Peixoto e Nilo Peçanha saíram de coadjuvantes e atores principais. A política nacional é um curso intensivo sobre como o lugar ocupado hoje não define o papel desempenhado amanhã.

Do ponto de vista da teoria política clássica, o caso é instrutivo. Thomas Hobbes, um gigante da filosofia política, dizia que o poder não tolera o vácuo. Se o vice não assume, alguém ocupará o espaço, formal ou informalmente. E quando o espaço não é ocupado por decisão clara, vira território de disputa. O silêncio de Walter, nesse sentido, é eloquente: ele não fecha portas, apenas se recusa a atravessá-las agora.

O italiano Gramsci ajuda a entender a movimentação subterrânea. Estamos diante de uma crise de hegemonia em miniatura. O bloco governista, liderado pelo PT, sabe que a saída de Fátima abre um intervalo perigoso. Um governo-tampão pode virar governo de transição ou plataforma adversária. A oposição, por sua vez, observa a fragilidade de seus próprios nomes e começa a olhar para dentro do sistema em busca de alternativas. Quando faltam líderes externos, o sistema recicla os internos.

Walter Alves é, nesse contexto, um personagem ambíguo por excelência. Filho de uma tradição política enraizada na política do estado, herdeiro de um MDB acostumado a sobreviver a governos de todos os matizes, ele não carrega a marca ideológica do petismo nem a retórica agressiva da oposição bolsonarista. É um político de baixa voltagem discursiva e alta capacidade de adaptação. Pertence aquela espécie que Raymond Aron batizou de realistas moderados – os que não acreditam em fins absolutos, mas em meios eficazes.

A ironia é que o PT sempre tratou os Alves como parte do problema histórico do Rio Grande do Norte. O discurso contra as oligarquias familiares foi, durante décadas, uma de suas credenciais morais. Agora, vê-se diante da possibilidade de que um Alves se torne solução de emergência ou ameaça concreta. Pior, ao lado de um Maia, afinal José Agripino é um dos articuladores da proposta, cochicham personagens bem-informados. Nelson Rodrigues, se estivesse vivo, diria que a política é o lugar onde os pecados alheios envelhecem rápido e as virtudes próprias apodrecem em silêncio.

O episódio revela algo ainda mais incômodo, meus três ou quatro leitores, a fragilidade das fronteiras entre governo e oposição em sistemas de baixa institucionalização partidária. No Brasil, partidos funcionam mais como condomínios eleitorais do que como comunidades programáticas. Isso permite que atores mudem de posição sem mudar de discurso, ou mudem de discurso sem mudar de posição. O eleitor, confuso, tenta acompanhar o enredo enquanto o roteiro é reescrito nos bastidores.

Se Allyson Bezerra cair, a oposição precisará de um nome competitivo, conhecido, viável e com trânsito institucional. Walter reúne esses atributos. Não seria a primeira vez que um vice-governador se apresentaria como alternativa “responsável” ao próprio governo do qual fez parte. A retórica é conhecida: não negar o passado, mas reinterpretá-lo; não romper, mas corrigir; não destruir, mas reorganizar. É a política da vírgula, não do ponto final.

Imagem feita com auxílio de IA

O risco, evidentemente, é duplo. Para Walter, assumir o papel de candidato oposicionista pode significar carregar o ônus de dois mundos: a desconfiança do governo e a suspeita da oposição. Para o sistema governista, permitir que o vice vire adversário é admitir falha grave de cálculo político. Para a oposição, aceitar um candidato oriundo do governo é confessar escassez de quadros próprios.

No fim, a pergunta inicial permanece sem resposta porque ainda não chegou a hora da resposta. Walter Alves faz o que a política ensina aos prudentes desde Maquiavel: espera. Observa a fortuna girar. Mede o desgaste dos outros. Conta aliados silenciosos. A política não premia os apressados; premia os sobreviventes.

E assim o Rio Grande do Norte entra num daqueles momentos em que o poder parece suspenso no ar, como um copo prestes a cair da mesa. Todos olham. Ninguém se mexe. Mas alguém, inevitavelmente, vai estender a mão, nem que seja para fingir que não foi ele quem empurrou.

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