O PT contra as oligarquias – desde que sentadas à mesa
Há um traço invariável na política potiguar – e talvez na política universal – que a esquerda local insiste em fingir que não enxerga: ninguém governa o mundo real sem tocar nas oligarquias. O PT do Rio Grande do Norte, porém, não apenas toca nelas; senta-se no colo, pede café, chama de “companheiro” e depois jura, com a mão trêmula sobre a Constituição ou a Bíblia (ou ambas), que tudo não passou de um mal-entendido histórico.
É aqui que entra a farsa. E como toda boa farsa brasileira, ela enverga as vestes da virtude.
O PT potiguar sempre falou das oligarquias como quem fala do pecado original, como algo herdado, sujo, a ser extirpado em nome de uma redenção futura. O problema é quando a eleição aperta, o discurso evapora, a moral entra em recesso e a oligarquia vira “força democrática com a qual é preciso dialogar”. Não há nada, meus três ou quatro leitores, mais flexível que a ética quando ela precisa caber numa coligação.
A boa ciência política, que não se deixa enganar por slogans de palanque, já resolveu esse assunto há bem mais de um século. Gaetano Mosca explicou, com frieza quase indecente, que toda sociedade é governada por uma minoria organizada; Vilfredo Pareto foi ainda mais direto e cruel ao apontar que as elites não desaparecem, apenas se renovam, trocando os leões por raposas e discursos por astúcia. Robert Michels, com sua famosa lei de ferro da oligarquia, decretou a sentença final, a saber, toda organização que cresce, incluindo aí os partidos operários, termina dominada por poucos (vou tratar disso no artigo seguinte).
Nada disso é mistério. Mistério é o PT fingir surpresa toda vez que se vê refletido no espelho daquilo que sempre denunciou.
No Rio Grande do Norte, o roteiro é conhecido. O PT chega brandindo a bandeira da “ruptura com as oligarquias”, denunciando clãs familiares, sobrenomes hereditários, mandonismos arcaicos. A plateia aplaude, os militantes se inflamam, os discursos ganham um tom quase escatológico: expulsaremos os vendilhões do templo! Mas basta a urna se aproximar para que o vendilhão ganhe status de aliado estratégico.
Foi assim com Wilma de Faria, do mesmo clã do ex-governador Juvenal Lamartine, o último da República Velha, e ex-mulher de Lavoisier Maia, último do ciclo biônico do período autoritário de 1964. Foi assim com Garibaldi e Henrique Alves, sobrinho e filho, respectivamente, de Aluízio Alves, fundador da oligarquia Alves. Foi assim com Robinson, filho de Osmundo Faria, apadrinhado pelo general Dale Coutinho para assumir a governança estadual, em 1974, até ser atropelado por Golbery do Couto e Silva e Tarcísio, o primeiro dos “três volumes” dos Maia. Foi assim com os Rosados, grupo familiar que mandou e desmandou em Mossoró por sete décadas. O partido que prometia demolir a casa grande acabou pedindo um quarto com vista para um belíssimo pomar.
Nelson Rodrigues diria que essa esquerda sofre de um problema grave: não resiste a um tapete vermelho. E o tapete vermelho, no Rio Grande do Norte, quase sempre leva a um sobrenome antigo. O PT entra dizendo que vai mudar a história e sai escrevendo um capítulo adicional da mesma genealogia política.
Há algo de profundamente trágico – e cômico – nessa postura. Trágico porque revela a falência do discurso moral absoluto. Cômico porque o partido continua falando como se fosse um intruso no sistema, quando já é parte orgânica dele. O PT governa, indica, negocia, barganha, compõe, e ainda assim posa de vítima das circunstâncias, como se fosse forçado, sob tortura, a aliar-se a quem ontem chamava de inimigo histórico.
A ética filosófica ajuda a entender esse contorcionismo. O problema do PT potiguar é querer praticar andar ao mesmo tempo no fio das duas éticas weberianas – e acabar traindo ambas. Fala como quem age por convicção, mas governa como quem só conhece a responsabilidade de se manter no poder. O resultado é uma esquizofrenia discursiva. De um lado, a retórica da pureza. Do outro, a prática do arranjo. O militante é alimentado com sermões sobre a maldade oligárquica; o gabinete, com acordos feitos à meia-luz. É a política como teatro moral: o público vê a peça; os bastidores contam outra história. E não se diga, meus três ou quatro leitores, que isso é exclusividade do PT. Não é. Mas há uma diferença essencial: poucos partidos fizeram da crítica às oligarquias um eixo identitário tão central. Quando um partido constrói sua identidade sobre a superioridade moral, cada concessão vira uma confissão involuntária.
O PT potiguar não apenas se aliou às oligarquias; legitimou-as com o selo da virtude histórica. O velho cacique, antes símbolo do atraso, passa a ser tratado como “liderança popular”. O herdeiro político vira “quadro experiente”. O sobrenome, antes maldito, ganha verniz republicano. E a alquimia que transforma chumbo oligárquico em ouro progressista. Pareto aplaudiria de pé. Eis a circulação das elites em seu estado mais puro: mudam-se os discursos, preservam-se os mecanismos. O poder continua concentrado, os pactos continuam fechados, as decisões continuam longe da plateia que acredita estar participando da história.
O PT usa as oligarquias e é por elas usado. O sobrenome tradicional entra na aliança para se reciclar; o partido entra para ganhar votos imediatos. No fim, sobrevivem a saúde do clã e o projeto de poder petista.

Imagem feita com auxílio de IA
Uma vez mais recorro a Nelson Rodrigues: o PT potiguar sofre da síndrome da “virgem de bordel” – frequenta o ambiente, usufrui dos serviços, mas insiste em jurar pureza. Nada mais antipático e mais inverossímil.
A tragédia final é que, ao repetir esse ciclo, o partido corrói sua própria base moral. Cada nova aliança exige uma explicação mais rebuscada, uma nota mais longa, um malabarismo retórico mais humilhante. O militante aprende, a duras penas, que a oligarquia é um mal absoluto… exceto quando é nossa.
E assim segue o Rio Grande do Norte assistindo à reinvenção permanente das velhas elites, agora ungidas por discursos pretensamente progressistas. A oligarquia muda de roupa, aprende novas palavras, frequenta novos rituais – e continua mandando.
No fim das contas, a teoria das elites vence de goleada.
A política não acaba com as oligarquias, apenas as renomeia. O PT, que prometeu ser o coveiro desse sistema, acabou virando seu assessor. E o eleitor, personagem secundário, continua acreditando que desta vez é diferente, confirmando um dito preciso: “O brasileiro tem uma vocação incurável para ser enganado por quem fala bonito”. No Rio Grande do Norte, então, o vício atinge o paroxismo, especialmente quando quem fala bonito jura que odeia oligarquias, enquanto assina acordos com elas em qualquer convescote mais próximo do poder.