Oligarquias para sempre

por Sérgio Trindade foi publicado em 12.fev.26

Não existe política sem oligarquia. Essa constatação, que deveria ser ensinada nos primeiros dias de qualquer curso de ciência política, antes mesmo de se falar em democracia, participação ou virtude cívica, continua sendo tratada, no debate público, como heresia ou cinismo. A boa ciência política, contudo, não se deixa enganar por slogans de palanque nem por liturgias partidárias. Há mais de um século ela resolveu o assunto com uma frieza que chega a constranger os moralistas.

Gaetano Mosca explicou, com clareza quase ofensiva, que toda sociedade é governada por uma minoria organizada. Não importa se o regime se proclama monárquico, republicano, liberal ou socialista, sempre há uma classe dirigente, coesa, disciplinada e consciente de seus interesses, governando uma maioria dispersa, fragmentada e politicamente intermitente. Vilfredo Pareto foi ainda mais cruel ao afirmar que as elites não desaparecem, apenas circulam. Mudam os homens, mudam os discursos, mudam as roupas, o mecanismo do poder, entretanto, permanece. Leões dão lugar a raposas; a força cede espaço à astúcia; o porrete é substituído pela retórica. Robert Michels, observando partidos social-democratas e sindicatos operários europeus, fechou o cerco teórico com sua famosa lei de ferro da oligarquia. Para ele, toda organização que cresce, inclusive aquelas criadas para combater as elites, termina dominada por poucos. A lógica é simples e devastadora: quem controla a informação, o tempo, a máquina e os recursos, acaba controlando o partido. A democracia interna vira ritual; a direção vira profissão.

Não há nada de novo nisso, exceto o espanto fingido quando essa lógica se confirma no mundo real.

Historicamente, o problema não é a existência das oligarquias – isso é inevitável –, mas a hipocrisia de negá-las enquanto se usufrui de seus benefícios. Desde a Roma republicana, quando famílias patrícias revezavam o poder sob o disfarce de magistraturas eletivas, até os partidos de massa do século XX, o jogo foi sempre o mesmo: a política se organiza em torno de minorias dirigentes que sabem o que querem, conhecem os atalhos institucionais e dominam os ritos do mando.

O Brasil nasceu oligárquico e nunca se curou disso. Do Império à Primeira República, das oligarquias cafeeiras ao varguismo, do regime militar à redemocratização, o país apenas trocou as elites de roupa. Sérgio Buarque de Holanda notara e descrevera o nosso personalismo que dissolve instituições e fortalece chefias. Raymundo Faoro mostrou como o estamento burocrático se perpetua, independentemente do regime. Nada disso impediu que, a cada nova geração, surgisse alguém prometendo “romper com tudo isso”.

O Partido dos Trabalhadores (PT) nasceu sob essa promessa. Diferente das agremiações tradicionais, apresentou-se como partido de base, de militância ativa, de ética superior, de ruptura com o mando oligárquico. Por um tempo, pareceu mesmo um corpo estranho no sistema. Mas o sistema, como sempre, mostrou-se mais paciente do que os seus críticos. Incorporou o PT, moldou-o, ensinou-lhe os custos da governabilidade, e, pouco a pouco, o partido aprendeu a linguagem do poder real.

No plano nacional, a trajetória é conhecida. O PT que denunciava alianças espúrias tornou-se mestre na arte da composição ampla. O partido que falava em democracia interna consolidou lideranças incontestáveis. O PT que acusava as elites econômicas passou a negociar com elas. Nada disso, registre-se, é exceção brasileira; é apenas a confirmação empírica da teoria das elites.

No Rio Grande do Norte, esse processo assume contornos quase didáticos.

Durante anos, o PT potiguar teve dois nomes centrais: Fátima Bezerra e Fernando Mineiro. Não eram apenas lideranças eleitorais; tornaram-se eixos estruturantes do partido. A vida interna da legenda passou a girar em torno de suas candidaturas, seus projetos, suas estratégias. O partido trabalhava, em grande medida, para elegê-los e, ao fazê-lo, consolidou máquinas internas destinadas a garantir sua supremacia.

Imagem feita com auxílio de IA

Fátima e Mineiro são, cada um a seu modo, chefes de oligarquias partidárias. Isso não é um juízo moral e, sim, uma descrição sociológica. Eles concentram capital político, histórico militante, acesso a recursos, controle de narrativas e influência decisiva sobre as decisões internas. A militância participa, opina, vota, mas dentro de um cardápio previamente definido. A democracia interna existe, mas com cercas.

Aqui, a ironia se impõe: o partido que se construiu como antítese das oligarquias familiares acabou produzindo suas próprias oligarquias funcionais. Não há sobrenome hereditário, é verdade, mas há capital simbólico acumulado, redes de lealdade, controle de espaços e sucessões cuidadosamente administradas. Pareto sorriria discretamente.

A história mundial ensina que isso não é desvio, é regra. Os partidos comunistas do Leste Europeu, que prometiam a ditadura do proletariado, produziram nomenklaturas quase aristocráticas. Os partidos social-democratas europeus, nascidos das lutas operárias, consolidaram burocracias internas quase inexpugnáveis. Mesmo os movimentos ditos horizontais, ao crescerem, criam lideranças informais que passam a mandar sem precisar dizer que mandam.

No Rio Grande do Norte, a peculiaridade está na convivência –  ora tensa, ora conveniente – entre as oligarquias tradicionais e as oligarquias partidárias de novo tipo. O PT denunciou durante anos os Alves, os Maia, os Rosados, os Faria. Mas, quando a matemática eleitoral apertou, aprendeu a conversar com eles. Em alguns momentos, abraçou-os sem cerimônia. A crítica moral cedeu espaço à engenharia eleitoral.

Aqui entra um ponto central da ética política. Quem faz política, ensinou um mestre da análise, precisa lidar com o trágico. A ética da convicção, sozinha, é estéril; a ética da responsabilidade, isolada, é cínica. O problema do PT potiguar não foi escolher a responsabilidade, foi manter o discurso da convicção enquanto praticava a lógica da acomodação. Isso produz um descompasso corrosivo entre palavra e prática.

A militância ouve que as oligarquias são o mal absoluto; o governo negocia com elas. O discurso fala em ruptura; a prática administra continuidades. O resultado é uma pedagogia involuntária do desencanto: aprende-se, na prática, que a política real é menos épica e mais prosaica do que se prometeu.

A teoria das elites não condena isso, apenas explica. O erro está em negar o óbvio. O PT potiguar não é uma exceção virtuosa num mar de vícios, é apenas parte do mesmo ecossistema político, com suas hierarquias, disputas internas e jogos de poder. Fingir o contrário é insistir numa fábula que já não convence nem os próprios atores.

A política potiguar, meus três ou quatro leitores, segue fiel às lições clássicas. As elites circulam, adaptam-se, reciclam-se. Algumas vêm de sobrenomes antigos; outras, de trajetórias militantes. Umas mandam pelo sangue; outras, pelo partido. Todas, anotem isso aí, mandam. Reconhecer isso não é capitular moralmente e, sim, começar a pensar com alguma honestidade. O resto – o discurso da pureza, da exceção, da superioridade ética – pertence mais à liturgia do que à realidade. E a realidade, como sempre, acaba impondo-se e cobrando a conta.

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