A gastronomia do improvável e o mistério do caldo infinito: o cururu de Rosanópolis
Rosanópolis está a 250km de Natal, capital do Rio Grande do Norte. Lá, o tempo não era contado em anos, mas em Rosas de Maio, Luares de Agosto e Vaquejadas. Nada, porém, superava os Carnavais, os quais tiveram, todos, alguma marca. Um em especial nunca foi esquecido: o do Sapo de Duas Arrobas. Foi o marco zero da nova cronologia momesca, quando o carnaval rosanopolense saiu do clube e ganhou as ruas.
Tudo começou na sede do bloco Cheios de Astúcia, que funcionava nos fundos da casa do Seu Dequinha, vereador bom de voto.
O organizador do bloco era Antônio Medeiros Segundo, a quem todos chamavam se Segundo. Os amigos, de Segundinho.
Segundinho acreditava piamente que o caminho para o coração do folião passava pelo estômago, preferencialmente via mocotó. Então, nada melhor do que empurrar caldo de mocotó em todos.
A logística da casa era comandada por Zinho e Chiquinho de Bastiana. Eles eram os alquimistas do caldeirão, jovens que trocaram o abadá pago pelo serviço braçal de vigiar a sopa enquanto o bloco se organizava para se derreter em suor e decibéis. E ambos sabiam o caminho para o milagre da multiplicação da caldo. E tome água… Por quatro dias, de sábado a terça.
O caldeirão – um monumento de ferro fundido posto sobre um fogão a lenha – era o centro gravitacional da concentração do bloco, momentos antes do deslocamento para Clube Municipal, onde era realizada a folia de momo. A regra de ouro de Zinho e Chiquinho era simples: o caldo nunca poderia acabar, embora a carne fosse finita.
– Chiquinho, a concha tá batendo no fundo e fazendo barulho de metal seco. O povo tá vindo aí com a fome de quem não come desde o Natal – alertou Zinho, limpando o suor da testa com o pano de prato mais sujo do hemisfério sul.
— Relaxa, Zinho. Segundinho disse que Carnaval é a festa da ilusão. Se a gente colocar água, vira caldo. Se colocar muita água, vira sopa. Se o povo tiver bebido como acho que bebeu o dia todo, vira banquete – respondeu Chiquinho, já empunhando a lata de margarina vazia.
A técnica era refinada: Chiquinho corria até a cisterna no quintal, mergulhava a lata adaptada com um cabo de madeira e trazia o líquido precioso para rebatizar o mocotó. Era a homeopatia carnavalesca: quanto menos substância original, mais potente parecia o efeito no folião embriagado.
Foi por volta das 8h da noite, quando a banda de metais começava tocar marchinhas, que o incidente ocorreu. Zinho despejou uma lata de água com o entusiasmo de um bombeiro e, por um milésimo de segundo, o destino se manifestou.
– Zinho… tu viu aquilo? – perguntou Chiquinho, estático, a concha parada no ar.
– Vi o quê, homi? – Zinho já estava ocupado atiçando a lenha.
– Passou um negócio escuro. Um vulto. Parecia uma bota de cano longo, mas tinha vida própria. Mergulhou direto no meio do mocotó e fez tchibum.
Zinho olhou para dentro da fumaça que subia do caldeirão. O vapor era denso como uma neblina londrina, só que com cheiro de gordura de porco e cominho.
– É o vapor, Chiquinho. Tu tá vendo miragem. Ou é a Pitu corroendo teus olhos. Não tem bota nenhuma que pula no caldo por vontade própria. Mexe isso aí que o bloco tá chegando e o pessoal está com os olhos saltados de fome.
– Mas Zinho, o vulto tinha… braços.
– Se tinha braços, agora tem tempero. Mexe!
Nesse momento, entrou na cozinha dona Arminda, a maior foliã de Rosanópolis – e beata de quatro costados. Ela só frequentava a casa do bloco para garantir que o pecado não passasse do ponto; estendeu sua tigela de louça com um olhar de desconfiança clínica.
– Esse caldo tá muito ralo, Zinho. Tô achando que vocês estão economizando no joelho do bicho – reclamou a foliã-beata, cheirando o ar.
– É uma receita nova, dona Arminda – improvisou Chiquinho. – É o caldo Sinfonia do Quintal. Tem um toque de ervas silvestres e… minerais da terra.
A beata deu a primeira colherada. O sapo, lá no fundo, já estava em processo de cozimento acelerado, liberando colágeno e segredos ancestrais.
– Tá diferente… – disse ela, semicerrando os olhos. – Tem um gosto terroso. Meio rústico. Parece que o boi andou muito perto do brejo antes de morrer.
– É o frescor da natureza, dona! – celebrou Zinho, enquanto dona Arminda se afastava, bebendo o caldo com uma satisfação perturbadora.
Duas horas depois, o nível do líquido baixou o suficiente para que a física retomasse seu lugar de direito. Zinho sentiu a concha travar. Não era o fundo da panela. Era algo macio, porém resistente. Algo que pesava uns bons dois quilos.
– Chiquinho, me ajuda aqui. Acho que o mocotó inchou – disse Zinho, fazendo força.
Quando a concha emergiu, o silêncio caiu sobre o quintal como uma cortina de chumbo. Lá estava ele, o sapo cururu. Estava estatelado sobre a concha, inchado, com a pele brilhando devido à gordura e um olhar que, mesmo na morte, parecia julgar toda a humanidade.
– O vulto… – sussurrou Chiquinho, com os olhos como pires. – Ele não tinha braços, Zinho. Tinha patas.
– Meu Deus! – Zinho olhou para a fila de foliões que ainda aguardava. — Ele tá cozido, Chiquinho. Ele tá… integrado ao sistema.
— O que a gente faz? Se o Seu Dequinha descobre que a gente serviu Caldo de Cururu na casa dele e pro eleitorado dele, a gente não ganha nem cargo de gari no próximo mandato!

Imagem feita com auxílio de IA
Zinho, com a frieza de um cirurgião de guerra, olhou para os lados. Ninguém via. Com um movimento rápido, ele arremessou o sapo por cima do muro, direto no matagal do terreno vizinho.
– Que sapo? – perguntou Zinho, voltando a mexer o que restava.
– Mas o povo tomou o caldo dele a noite inteira!
– Pois tome mais um pouco e fique quieto. O sapo morreu por uma causa nobre. Ele deu corpo ao caldo. Foi o sacrifício que Rosanópolis precisava para o Carnaval não parar.
Na quarta-feira de cinzas, Rosanópolis estava em coma profundo. No entanto, na Farmácia do Seu Severino, a fila era para elogiar o caldo de Segundo e de Seu Dequinha.
– Nunca vi um mocotó tão revigorante – dizia um folião ainda com glitter na barba. – Eu estava com uma gripe que não passava, tomei dois copos daquele caldo e agora sinto que posso saltar distâncias enormes!
Dona Arminda, na missa, comentou com o padre:
– Aquele caldo tinha algo de milagroso. Uma textura… anfíbia.
Zinho e Chiquinho, sentados no banco da praça, observavam o caldeirão sendo lavado nos fundos da casa.
– Sabe de uma coisa, Zinho? – perguntou Chiquinho. – No ano que vem, a gente devia buscar água na cisterna com mais cuidado.
– Nada disso – respondeu Zinho, fechando os olhos para cochilar. – No ano que vem, se o caldo ralar, a gente já sabe qual é o ingrediente secreto. O povo gosta é de sustança, não importa de onde ela pule.
E assim, o Cheios de Astúcia entrou para a história, provando que em Rosanópolis o Carnaval é a única época do ano na qual a diferença entre um banquete e um desastre é apenas o tempo de cozimento.