O milagre da multiplicação das escolas desnecessárias (2)

por Sérgio Trindade foi publicado em 17.fev.26

Dilermando Passos Dias foi nomeado, em 1980, por um Reitor chamado Demóstenes de Souza Leão. Só o nome já inspirava respeito: Demóstenes não parecia alguém que nomeia pessoas; parecia alguém que distribuía destinos. Ele era o Reitor da Universidade Federal do Rio das Mortes (UFRM), instituição que, apesar do nome fúnebre, estava bem viva, pelo menos administrativamente.

Coube a Dilermando Dias dirigir o Sistema de Teleducação do Rio das Mortes, o SITEEDURM, sigla que já nascia com vocação para o esquecimento. Tratava-se de uma parceria moderna, ousada e otimista entre a Universidade e a Secretaria Estadual de Educação, com teleaulas transmitidas pela TV Universitária., então dando os seus primeiros passos. Era a época em que se acreditava que uma câmera, um professor e um quadro-negro poderiam salvar o país. Ou, pelo menos, alfabetizá-lo até o intervalo.

O SITEEDURM funcionava com aquela fé laica que só projetos públicos recém-criados possuem. Tudo parecia possível, ninguém sabia exatamente como, mas havia café, reuniões intermináveis e uma convicção geral de que ali estava sendo escrita a História – ainda que ninguém soubesse qual.

Foi então que, numa manhã de março, apresentou-se a pedagoga Maria Salete.

Ela chegou munida de um documento oficial que a colocava “à disposição do Sistema”. Essa expressão sempre pareceu ambígua. À disposição de quem? Do Sistema? Ou contra ele? No serviço público, “estar à disposição” é uma espécie de estado quântico: a pessoa está e não está, trabalha e não trabalha, responde e não responde.

Salete estava em estágio probatório na Secretaria Estadual de Educação. O que significa que o Estado ainda estava decidindo se ela merecia continuar sendo Estado. Ela entrou na sala de Dilermando com a segurança de quem não pede licença porque já se sente dona da casa, e talvez fosse, de fato, dona de alguma coisa que ninguém ainda sabia o que era.

Em menos de uma semana, ficou claro que Salete não estava ali para aprender, colaborar ou fazer qualquer coisa de valor. Ela estava ali para acontecer.

Nada funcionava direito quando Salete estava por perto. Se a gravação atrasava, era porque o método era burguês. Se a câmera falhava, era sabotagem ideológica. Se o café esfriava, era descaso com o trabalhador da educação. Tudo era estrutural, histórico e, de preferência, culpa de alguém ausente.

A coordenadora pedagógica do SITEEDURM, uma mulher experiente, serena e que já sobrevivera a três reformas educacionais, começou a apresentar sintomas estranhos: suspiros longos, olhar perdido e uma tendência a repetir “não é possível” em voz baixa. Um mês depois, ela entrou na sala de Dilermando e fez algo raro no serviço público: implorou.

– Tire essa mulher daqui – disse, com a dignidade de quem se rende.

O paciente diretor chamou Salete para uma conversa. Disse, com a delicadeza possível, que talvez o Sistema não fosse o melhor lugar para ela naquele momento e explicou calmamente que a devolveria à Secretaria, onde poderia desenvolver plenamente suas competências, seja lá quais fossem.

Foi então que Salete, pela primeira vez, pareceu preocupada.

Pediu para não ser devolvida e disse que ela mesma pediria o desligamento. Havia naquela fala uma urgência que não combinava com o discurso combativo habitual. Dilermando concordou. No serviço público, quando alguém quer sair, é educado não atrapalhar.

Ela saiu. E Dilermando respirou.

Pouco tempo depois, todos souberam que Maria Salete fora imediatamente colocada à disposição da Associação dos Professores do Rio das Mortes. Aqui é preciso fazer um parêntese histórico: associações de professores eram entidades pacatas, dedicadas a atas, cafés mornos e assembleias com quórum incerto. Um habitat natural para quem gosta de falar muito e decidir pouco.

Mas Maria Salete não era dessas.

Em pouco tempo, a Associação já não era mais a mesma. Ganhou megafone, ganhou palavra de ordem, ganhou inimigos. Transformou-se em sindicato, que é quando uma associação aprende a gritar com método. Salete descobrira seu ecossistema. Ali, a pedagogia finalmente encontrava seu público: não alunos, mas plateias.

Imagem feita com auxílio de IA

O resto da história é conhecido. A ascensão política veio como consequência lógica. Quem domina assembleias domina palanques. Quem domina palanques aprende rapidamente a dominar verbas, cargos e discursos inflamados com começo, meio e fim, ainda que sem conteúdo.

Maria Salete passou a ser chamada de “professora”, título que nunca mais a abandonaria. Não importava se dera aula ou não; no Brasil, o importante não é o verbo, mas o substantivo. Professor é quem fala em nome da educação, mesmo que nunca tenha corrigido uma prova na vida.

O país seguiu seu curso. O Sistema de Teleducação envelheceu, as câmeras ficaram obsoletas, os projetos viraram relatórios e os relatórios viraram arquivos mortos, coerentes com o nome da Universidade. Já Maria Salete prosperou, pois encontrou algo raro: um lugar onde sua vocação não era problema, mas solução.

Hoje, olhando para trás, é possível perceber que aquele mês de 1980 foi menos um acidente e mais um ensaio geral. Salete apenas testara o palco errado. Quando encontrou o certo, brilhou, para tristeza de uma estado inteiro.

Assim é o Brasil, velho de lutas. Nem sempre perdidas. Às vezes apenas vencidas pelas pessoas erradas, do jeito certo, na hora exata. E todos seguimos assistindo, agora não mais pela TV Universitária, mas ao vivo, sem intervalo e sem possibilidade de mudar de canal.

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