O baile das urnas e o teorema do bolso
Escrevo estas linhas já sob o sol natalense, aquele que doura as dunas e não perdoa o juízo de quem se mete a profeta nas terras de D. Felipe Camarão, o índio Poti, e quando o país já sente os efeitos das injunções do presidente Donald Trump no Oriente Médio.
Andei lendo e ouvindo as análises de Alberto Carlos Almeida e, calmamente, puxei uma cadeira para sentar e sorver com mais acurácia o que diz o mestre.
No Beco da Lama, centro histórico de Natal, onde as verdades costumam ser servidas com uma dose de cachaça, a política não é ciência exata, é destino. Almeida, porém, com seu faro de perdigueiro para os números, ensina que há um método nessa loucura. E o que ele diz a ciência política contemporânea assina embaixo: o eleitor não vota com o fígado, nem com o coração, mas com o que resta no bolso. É o pragmatismo da sobrevivência. Se o feijão e o arroz pesam e a carne some do prato, o presidente de plantão vira vidraça estilhaçada. É a lógica de que a aprovação do governo é o único oráculo confiável.
Se Lula flutua ali na casa dos 50%, a reeleição é um jogo de paciência; se cai abaixo disso, o abismo abre a boca.
Vamos ampliar o horizonte.
Se Almeida nos dá a régua, politicólogos como Glauco Peres e Felipe Nunes nos dão o compasso. O Brasil de 2026 não é apenas uma disputa de nomes e, sim, um teste de maturidade democrática, como bem pontuam os analistas mais recentes. A política deixou de ser um debate de ideias para virar um campeonato de performances e alguma elementos precisar ser levados em consideração:
1) Há fadiga do centro e as pesquisas mostram isso. Onde antes havia o equilíbrio, hoje há um vácuo que a direita e a esquerda tentam preencher com gritos mais altos e radicalização dos discurso.
2) O fiel da balança (a rejeição) é mais do que o quem eu amo; o que decide é o quem eu suporto menos. Dados recentes da Quaest e do Datafolha indicam que tanto Lula quanto os herdeiros do bolsonarismo (seja Tarcísio ou um Bolsonaro por procuração) carregam pedras pesadas na mochila, a saber, uma rejeição que supera 40%. Configura-se, então, a eleição do descarte.
3) A algoritimização do voto e, aí, cientistas políticos falam em Big Data e Microtargeting. Não se fala mais para o povo, fala-se para o nicho. O candidato de 2026 precisa viralizar para existir. Se não está no Reels ou no TikTok, ele é um fantasma que não assombra nem as urnas. É praticamente carta fora do baralho.
Almeida sempre bate na tecla de que o Brasil é um país conservador que gosta de um Estado que lhe dê a mão. É a contradição que nos define. Queremos o mercado livre, mas não renunciamos ao auxílio. Por isso, a direita que cresce – e que nomes como Tarcísio de Freitas ou Ratinho Junior ou Zema tentam moldar – é uma direita que tenta ser gerencial, menos barulhenta e mais entregadora de asfalto. É o bolsonarismo de banho tomado, tentando capturar o eleitor moderado que cansou da guerra de memes, mas ainda teme a volta de certas cores.
Lula, por sua vez, joga o jogo da memória, tentando convencer o brasileiro de que o passado era mais doce. A memória, no entanto, meus três ou quatro leitores, é trapaceira e, como exprime filosofia de boteco, “saudade não enche barriga de quem tem pressa”.
Vamos, para evitar qualquer deturpação, deitar os números na mesa. A tese central de Alberto Carlos Almeida, em obras como A Mão e a Luva e O Voto do Brasileiro, é que o eleitor não é um bicho esquisito, mas um animal pragmático que lê o país pelo bolso. “Quem não tem o que comer, não tem tempo para ideologia”, reza a boa cartilha pragmática. Para Almeida, o controle da inflação é o sol em torno do qual orbitam os planetas da aprovação. Se o custo de vida sobe, a popularidade desce pela rampa em velocidade de cruzeiro.

Imagem feita com auxílio de IA
Abaixo, apresento o comparativo fundamentado nos dados históricos que Almeida utiliza para sustentar que a mão (o eleitor) sempre busca a luva (o candidato) que melhor lhe serve no presente econômico.
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Período/ Presidente |
Indicador Chave – Luva |
Média de Aprovação – Encaixe |
Resultado Político / Tese de Almeida |
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Itamar Franco – 1994 |
Queda da inflação (30% p.m. para 5% p.m. com o Real) | De baixa para alta (~80%) |
A Grande Virada: O desejo de mudança virou continuidade. Elegeu FHC no 1º turno. |
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FHC 1995-98 |
Estabilidade monetária e consumo represado | Alta (50-60%) |
Reeleição Garantida: O eleitor premiou a estabilidade, apesar do desemprego crescente no fim do mandato. |
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FHC – 1999-2002 |
Crises externas, apagão e desvalorização do Real | Baixa (<25%) |
Mudança Mandatória: Com a economia estagnada, o eleitor buscou o oposto (Lula). |
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Lula – 2003-10 |
Alta das commodities, PIB médio de 4% e queda da desigualdade | Recorde (>80%) |
A Glória: O aumento do poder de compra no NE criou o “Lulismo”. Elegeu Dilma, a desconhecida. |
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Dilma – 2011-2014 |
Pleno emprego no início; inflação de alimentos no final | Queda acentuada (de 63% para 30%) | O Encaixe Apertado: Reeleição difícil. Almeida aponta a inflação de alimentos como o início do fim. |
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Bolsonaro – 2019-22 |
Inflação pós-pandemia e auxílios emergenciais | Oscilante (~35-40%) | Rejeição Crônica: Segundo Almeida, o baixo crescimento real impediu a virada contra Lula. |
Se Almeida foca no voto econômico, os politicólogos contemporâneos como Felipe Nunes (IPESPE/Quaest) trazem um elemento novo: o voto de identidade. Hoje, mesmo com a economia razoável, a aprovação de Lula encontra um teto de vidro, pelos elementos que exponho a seguir:
1) A bolha identitária: a ciência política atual observa que a economia ainda é o motor, mas o chassi é o valor moral. O eleitor pode estar com o bolso cheio, mas se sente culturalmente ameaçado.
2) O teorema da rejeição: Almeida sustenta que a rejeição é “emoção negativa consolidada”. Se um governante não entrega bem-estar (PIB/Inflação), a rejeição vira cimento. Em 2026, o desafio de Lula é furar o teto da aprovação de 50%, algo que Almeida diz ser impossível sem um crescimento chinês ou uma queda drástica nos preços de gôndola.
Na crônica das ruas, o resumo é simples: o brasileiro aceita quase tudo, menos o prato vazio e o dinheiro que vira fumaça antes do terço final do mês. Se a economia não conversar com a mesa, o destino das eleições 2026 estará provavelmente escrito nas etiquetas do supermercado.
Vejam, para ilustrar, o vídeo no qual Alberto Carlos Almeida detalha como a inflação e o desemprego moldaram os resultados das eleições brasileiras desde o Plano Real, servindo de base para a tabela comparativa acima (https://youtu.be/pYLXtLSMnWo .
A crônica das urnas dirá que 2026 será uma eleição decidida nos detalhes, no “centímetro da margem de erro”. Se a economia der um refresco e o prato do brasileiro estiver cheio, o incumbente tem o trunfo. Se a inflação morder o calcanhar, a oposição terá o palanque. No fim das contas, a análise de Alberto Carlos Almeida continua sendo a âncora: olhe para a aprovação do governo. Ela é a única bússola que não entorta no meio da tempestade.
Aqui na Lagoa Nova de Natal, sigo observando.
A política é como o mar de Natal: às vezes calmo, às vezes traiçoeiro, mas sempre governado por forças que os homens fingem entender.