O microfone como picadeiro e o verbo como escudo
Natal, de sol causticante e brisa que mal disfarça o mormaço político, assistiu, na última sexta-feira (13), a um espetáculo que, embora travestido de jornalismo, pertence mais à cronologia das patologias sociais do que à história da comunicação. A passagem de Guilherme Boulos pelas ondas do rádio potiguar não foi apenas uma entrevista e, sim, o sintoma exposto de uma cidade que, em muitos microfones, trocou a hermenêutica pela heresia, e o argumento pela militância comunicativa.
Assisti à entrevista no carro, em trânsito, e, num primeiro momento, dei razão à bancada; depois, vendo com calma, em casa, e colhendo informações sobre o motivo da presença de Boulos na rádio, mudei de posição.
Antes de prosseguir, adianto: não tenho qualquer simpatia política por Guilherme Boulos, muito pelo contrário. Acho-o um político pouco estudioso (como a maior parte de nossos dirigentes), despreparado e que se exprime por meio de clichês e chavões.
Dito isso, sigamos.
O rádio é uma espécie de confessionário da multidão. Mas o que se ouviu na 98 FM não foi a busca pela verdade, mas o exercício do extermínio retórico. De um lado, jornalistas que confundem a verve crítica com a agressividade inquisitorial; do outro, um político que, ao aceitar o convite para a lama, termina por borrar a própria estampa de ministro (o que, num país como o Brasil, não quer dizer muito).
No plano do conteúdo, o que se viu foi a falência da apuração em nome da narrativa. A teoria da comunicação nos ensina que o fato é sagrado, enquanto a opinião é livre. Não se deve utilizar liberdade como salvo-conduto para o assassinato dos fatos. Ora, mencionar o caso das joias de Bolsonaro ou a situação de Jaques Wagner com a imprecisão de quem lê manchetes de WhatsApp é um erro técnico grave. Quando um jornalista diz o que a Procuradoria-Geral da República ainda processa, ou ignora que o inquérito das joias transita por labirintos de lavagem e evasão, ele não está informando, está operando como um gatekeeper invertido. Em vez de filtrar o ruído para entregar a notícia, ele amplifica o ruído para esconder a ausência de pauta. Há, aí, erro de substância.
Ao substituir o anúncio das ações ministeriais (foi para isso que Guilherme Boulos foi convidado) pelo embate sobre processos alheios, o rádio de Natal presta um desserviço ao ouvinte que, no final das contas, é quem paga a conta do atraso. A razão da presença de Boulos (a gestão pública, o investimento, o tijolo e o cal) foi soterrada, meus três ou quatro leitores, pelo entulho de uma pauta nacionalizada que pouco resolve o buraco na rua ou a falta de leito no hospital.
É na forma, porém, que o desastre se completa. Já ouvi de estudiosos do tema que o ambiente das rádios locais se tornou um ecossistema de hostilidade normalizada. Onde deveria haver o debate, há o grito. Onde deveria haver o respeito à alteridade, há o apelido pejorativo. Fátima Bezerra, Isolda Dantas, Natália Bonavides, Antenor Roberto e outros tornaram-se alvos preferenciais de um estilo deboche político que se disfarça de contundência.
Boulos, por sua vez, não estava ou não saiu inocente na parada, pois caiu na armadilha do espelhamento. A teoria da Ação e Reação na comunicação política sugere que, ao ser atacado em decibéis elevados, o político que reage na mesma frequência termina por validar o agressor. O ministro adotou uma linguagem belicosa que, embora compreensível do ponto de vista humano, é um erro estratégico de quem ocupa a cadeira do Poder Executivo. Ao vaselinizar em perguntas difíceis ou reagir com a mesma bile dos seus interlocutores, ele perde a chance de exercer a pedagogia do poder. O homem de Estado (Boulos estava ali como ministro, não devemos esquecer) deve ser o senhor do tempo e do tom; ao deixar que o radialista dite o ritmo da briga, o ministro torna-se apenas mais um brigão de esquina.
O apoio seletivo de figuras políticas locais aos jornalistas envolvidos na peleja revela a manutenção de um padrão de confronto que beneficia o status quo da província. É o corporativismo de viés, no qual a ética jornalística é sacrificada no altar da conveniência ideológica. Se o jornalista agride o inimigo, ele é herói; se o jornalista é questionado sobre sua precisão técnica, ele é vítima de censura. Essa inversão de valores é o que o grande Jürgen Habermas (falecido ontem) chamaria de “colonização do mundo da vida” pela lógica do poder cego.
A autocrítica, mercadoria tão rara nas nossas prateleiras, faz-se urgente. O que está se estabelecendo nas nossas rádios não é jornalismo de opinião e, sim, entretenimento de combate. O risco que corremos é o de transformar o debate público em um eterno ringue, no qual o vencedor não é quem tem as melhores ideias e os melhores argumentos, mas quem tem o pulmão mais forte e a maior e a melhor capacidade de brigar aos gritos.

Imagem feita com auxílio de IA
O episódio Boulos deixará marcas. Não pela força das ideias trocadas, pois estas foram escassas, mas pela confirmação de que estamos diante de um jornalismo de trincheira. O erro dos jornalistas foi a perda da objetividade em favor do espetáculo; o erro de Boulos foi a perda da serenidade em favor da sobrevivência dialética.
Há uma lição a tirar daí: a comunicação social, quando despojada de sua responsabilidade, torna-se apenas uma arma de baixa calibração. A cidade de Natal, com sua tradição de grandes tribunos e jornalistas de texto fino como Vicente Serejo, Cassiano Arruda e Woden Madruga (para citar três dos maiores que acompanhei), merece mais do que o rádio-show da ofensa gratuita e gritada.
É preciso e até urgente retornar à substância. É preciso entender que o microfone é uma extensão da cidadania, e não um porrete. Enquanto a forma for o soco e o conteúdo for a meia-verdade, continuaremos a gritar muito e dizer muito pouco.
Que a autocrítica não seja apenas um exercício retórico, mas uma necessidade de sobrevivência para o que ainda resta de jornalismo sério por aqui.