Quando o ladrão vira tese

por Sérgio Trindade foi publicado em 25.mar.26

Há uma cena brasileira que se repete com a disciplina de um ritual religioso e a inteligência de um tropeço: estoura um escândalo e antes mesmo de sabermos o nome do ladrão, já sabemos o partido que o absolverá. No caso do escândalo do Banco Master, não foi diferente. Mal se abriram as cortinas do problema e já se distribuíam culpas como se fossem santinhos eleitorais: uns enxergam a mão invisível da esquerda, outros juram ouvir o tilintar de moedas da direita. No fim, o cofre foi arrombado, mas o debate prefere discutir quem tem a melhor retórica para descrever o arrombamento.

Grande parte da sociedade brasileira não quer justiça, quer torcida.

E aqui começa a tragédia. Não a tragédia grandiosa dos gregos, com seus deuses e destinos inevitáveis e inexoráveis, mas a tragédia pindorâmica, com cheiro de café requentado e opinião pronta. A corrupção deixa de ser um fato moral para se tornar um instrumento retórico. O corrupto deixa de ser um sujeito concreto – com CPF, assinatura e dolo –, para virar uma peça no tabuleiro ideológico. Já não se pergunta “o que foi feito?”, mas “quem ganha com isso?”.

Ora, diria um velho moralista, isso não é investigação e, sim, superstição política.

Se recorrermos a Aristóteles, veremos que a ética não começa na ideologia, mas no caráter. Para ele, o vício e a virtude são hábitos, disposições da alma. O corrupto não é de direita nem de esquerda; ele é, antes de tudo, um homem viciado no ganho ilícito. Sua falha é moral antes de ser política. Transformar a corrupção em disputa ideológica é, portanto, um desvio da própria pergunta ética. É como se, diante de um assassinato, quiséssemos saber a filiação partidária da faca.

Mas o Brasil tem horror à simplicidade moral. O brasileiro sofisticou o erro. Prefere o labirinto ao caminho reto, o discurso ao fato. E assim, o debate sobre o Banco Master, que deveria girar em torno de práticas, responsabilidades e eventuais crimes, transforma-se numa espécie de Grenal moral. Cada lado constrói sua narrativa não para esclarecer, mas para absolver os seus e condenar os outros.

Aqui recorro a Immanuel Kant com sua carranca severa. Kant diria, com aquele rigor que faz tremer até funcionário público, que a moral não admite exceções convenientes. O imperativo categórico é claro: aja de tal forma que sua ação possa ser universalizada. Ora, se a corrupção é condenável – e é – então ela o é independentemente de quem a pratique. Não há versão “amiga” do ilícito. Não existe corrupção do bem. A tentativa de relativizar o erro com base na identidade política do agente é, para Kant, uma fraude moral.

Mas o brasileiro médio, esse personagem digno de crônica, não quer imperativos, quer álibis, pois ele precisa acreditar que o seu lado é menos corrupto, mais virtuoso, quase casto. A corrupção, quando aparece no próprio campo, é reinterpretada e vira exceção, caso isolado, armação. Quando aparece no campo adversário, transforma-se em prova definitiva da degeneração moral do outro. O mesmo ato recebe dois pesos, duas medidas e, se possível, duas narrativas contraditórias.

O problema é que a realidade não se curva à retórica. O dinheiro desviado não pergunta em quem você votou. O prejuízo não distingue ideologias. A fraude, se houve, é objetiva, e seus efeitos também.

Ao analisar o mal, Hannah Arendt percebeu que ele nem sempre vem travestido de monstros grandiosos. Muitas vezes, ele é banal. Ele se instala na incapacidade de pensar criticamente, na adesão automática a discursos prontos, na recusa em julgar por conta própria. O brasileiro que transforma corrupção em torcida não é apenas um enganado, ele participa, ainda que passivamente, da banalização do erro. E isso é devastador. Porque, no fundo, o que está em jogo não é apenas o caso do Banco Master. É a erosão da capacidade de julgamento moral da sociedade.

Quando tudo vira ideologia, nada mais é ética. Quando tudo é disputa narrativa, o fato desaparece. E, sem fato, não há justiça, há apenas versões concorrentes, cada qual mais conveniente para seu público. O resultado é um país em que o corrupto não teme a lei, mas o esquecimento. Ele sabe que, em pouco tempo, será absorvido pelo ruído ideológico. Será defendido por uns, atacado por outros e, no fim, diluído numa disputa sem fim. O escândalo vira espetáculo; o espetáculo, rotina.

Nelson Rodrigues disse que o brasileiro tem uma certa vocação para o autoengano. Eu diria mais: temos talento para transformar a imoralidade em argumento. E fazemos isso com uma naturalidade que beira o charme, embora a um preço bem alto.

Imagem feita com auxílio de IA

Enquanto discutimos se o ladrão é de direita ou de esquerda, bolsonarista ou lulista, ele continua sendo ladrão. Enquanto disputamos narrativas, os mecanismos que permitem a corrupção permanecem intactos. Enquanto transformamos a ética em torcida, renunciamos àquilo que nos permitiria, efetivamente, enfrentar o problema: o julgamento imparcial. O que deveríamos, para começar, fazer? Uma pergunta simples, quase infantil – e justamente por isso poderosa: houve corrupção?

Se a resposta for sim, todo o resto é distração. E talvez seja essa a maior miséria moral do debate brasileiro: a incapacidade de sustentar uma pergunta simples até o fim. Preferimos complicar, sofisticar, ideologizar. Preferimos tudo, menos encarar o fato nu e cru.

O Banco Master, meus três ou quatro leitores, é apenas mais um espelho. E, como todo espelho, não cria nada, apenas revela.

O problema é que nem sempre gostamos do que vemos.

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