Seleçãozinha
O brasileiro, quando nasce, já sai da maternidade com duas certezas: vai morrer um dia e, antes disso, vai discutir futebol como se discutisse o destino da humanidade. Pois bem. Eis que olho para essa geração recente da seleção brasileira e sinto algo próximo de um velório, só que sem defunto oficial, porque o cadáver ainda corre em campo, tropeçando na própria bola.
Tudo pode mudar, dizem os otimistas profissionais. E dizem com aquele entusiasmo meio burocrático, como quem carimba esperança em papel timbrado. De fato, o futebol tem dessas traições deliciosas: o improvável acontece, o medíocre vira herói, o herói vira meme. Mas há limites até para a fé. Há quinze anos, o que vemos é uma sucessão de rapazes que entram em campo com a gravidade de funcionários públicos em fim de expediente.
Hoje foi contra a França. Perdemos de 2 a 1. Houve quem analisasse taticamente, quem apontasse desfalques, quem buscasse consolo nos números. Bobagem. O placar é um detalhe, quase uma vírgula. O essencial é o espetáculo de uma pobreza constrangedora. Não se trata de derrota — isso o futebol sempre permitiu —, mas de indigência técnica, que é coisa mais grave, quase moral.
Já tivemos treinadores sofríveis, é verdade. E, mesmo assim, éramos salvos por criaturas iluminadas que tratavam a bola como quem acaricia um segredo. O técnico era um detalhe; o craque, uma fatalidade. Hoje, inverteu-se: tenta-se importar a inteligência fora de campo, como mercadoria de luxo, para compensar a escassez de talento bruto. A cebefê, entidade máxima do nosso futebol — uma senhora de hábitos duvidosos — resolveu apostar num nome de prestígio internacional, como quem compra perfume caro para disfarçar um odor nauseabundo. Mas não há milagre. Nunca houve. Técnico nenhum, por mais genial, transforma perna de pau em artista. No máximo, organiza o desastre. Dá-lhe forma, método, disciplina. O que já é muito não o suficiente, porém, para enganar os olhos de quem viu o impossível acontecer com naturalidade.

Imagem feita com auxílio de IA
E o torcedor? Ah, o torcedor brasileiro é um personagem trágico. Ele sofre, esperneia, xinga, promete nunca mais assistir e, no jogo seguinte, lá está ele, diante da televisão, como um amante traído que insiste em acreditar na fidelidade da infiel. Há nisso uma grandeza patética, quase bonita.
O que nos resta, então? A pedagogia da surra. Aprender apanhando, como se cada derrota fosse uma aula prática de humildade. Talvez seja isso: estamos sendo educados pela dor, corrigidos a pauladas, como um aluno insolente que desaprendeu a lição básica, a de que futebol, antes de tudo, exige talento.
Oxalá eu esteja errado. E digo isso sem ironia, o que já é um escândalo. Porque, no fundo, todo brasileiro guarda um resto de esperança clandestina, uma crença meio envergonhada de que, de repente, num lance qualquer, tudo volte ao normal, isto é, ao extraordinário.