A República dos Herdeiros
Já vi famílias brigarem por fazenda, por apartamento de frente para o mar, por carros de luxo, por prédios de salas comerciais, por postos de gasolina etc. As mais ambiciosas rasgam o testamento por causa de uma coleção de porcelanas ou de um relógio suíço. Mas o Brasil é um país de imaginação exuberante. Aqui há famílias que disputam a herança de milhões de eleitores como quem discute a posse de uma cristaleira. A cena seria digna de gargalhadas, não fosse a comédia nacional carregada de tragicidade. Sim, meus caros leitores, o espólio em disputa é um movimento político que pretende voltar ao centro do poder.
Tivesse Shakespeare conhecido Brasília, provavelmente trocasse os castelos escoceses pelos gabinetes refrigerados do Planalto. Macbeth seria um deputado do baixo clero. Lear distribuiria ministérios aos filhos ingratos. E Hamlet perderia metade do monólogo tentando descobrir quem vazou o áudio para a imprensa. E Romeu, bem, Romeu mataria Julieta envenenada com café de quinta categoria, daqueles que os funcionários públicos tomam nas repartições nas quais trabalham.
O episódio recente da disputa entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro é interessante porque revela uma desavença doméstica, tal qual as brigas de famílias desde Caim e Abel., mas também porque a briga desmonta uma fantasia cuidadosamente construída durante anos, aquela que, durante muito tempo, foi vendida ao país como ideia de que existia ali um movimento moralizador, unido por princípios elevados e disposto a salvar a pátria dos pecados da velha política. Bastou uma crise sucessória para o verniz escorrer pelo ralo. Debaixo dele apareceu o que sempre esteve lá: disputa por comando, influência, protagonismo e controle da marca. É assim no bolsonarismo e no lulo-petismo, como era no varguismo, no lacerdismo, no adhemarismo, no carlismo, no aluizismo… Por uma razão simples: o bolsonarismo, com alguns dos citados, talvez seja menos uma corrente de pensamento do que uma franquia política. Possui nome registrado, identidade visual, linguagem própria e um público consumidor extraordinariamente fiel. Como toda franquia bem-sucedida, surge inevitavelmente a pergunta decisiva: quem será o próximo proprietário da bandeira?

Imagem feita com auxílio de IA
O curioso é que essa sucessão acontece antes mesmo da morte política definitiva do fundador. Jair Bolsonaro ainda respira eleitoralmente, mas seus herdeiros já medem a cortina da sala. Nada disso seria particularmente grave se o debate girasse em torno de projetos para o Brasil. Mas não gira. Em momento algum a discussão central parece ser crescimento econômico, produtividade, educação, segurança pública, reforma administrativa ou inserção internacional. O assunto é outro: quem fala em nome do mito.
Eis o vazio.
O bolsonarismo continua existindo porque o antipetismo continua vivo. Esse sentimento é real, profundo e compreensível para milhões de brasileiros e Bolsonaro soube transformá-lo numa poderosa máquina eleitoral. Foi competente nisso, é fato. Transformar um sentimento de rejeição em projeto nacional, porém, é atividade que em nada contribui para os interesses da sociedade. Sim, meus caros, ser contra Lula não constitui, por si só, um plano de governo. É apenas uma estratégia para chegar ao governo. Governar exige responder perguntas infinitamente mais difíceis do que escolher um inimigo. Por isso, o país marca passo e patina esperando que as pautas que o faça sair do atoleiro no qual se encontra. Espera hospitais que funcionem, escolas capazes de ensinar sem produzir analfabetos diplomados, estradas transitáveis, cidades menos violentas, um Estado menos caro e uma economia que permita ao cidadão enriquecer sem pedir licença ao cartório, ao sindicato, ao fiscal e ao despacho burocrático de algum iluminado que gasta o tempo batendo ponto e bebendo café. O problema é que esses temas possuem um defeito imperdoável: dão muito trabalho. Brigar pela herança rende muito mais audiência.
Talvez Michelle Bolsonaro tenha prestado, involuntariamente, um serviço público. Ao expor fissuras internas, ajudou muita gente a enxergar aquilo que a propaganda escondia. Movimentos verdadeiramente sólidos sobrevivem às divergências porque possuem instituições, programas, lideranças distribuídas e objetivos permanentes. Se tudo depende da família proprietária, não existe movimento. Existe patrimônio privado.
A política brasileira sofre há décadas (ou séculos?) dessa doença hereditária. Confunde partidos com sobrenomes, programas com biografias e lideranças com dinastias. O eleitor é convocado não para discutir ideias, mas para escolher qual ramo da família merece administrar a empresa. É uma ironia enorme, porque enquanto milhões de brasileiros discutem apaixonadamente qual Bolsonaro representa o verdadeiro bolsonarismo, o Brasil continua esperando alguém disposto a representar apenas o Brasil. Uma expectativa modesta, quase humilde. Nestes tempos de culto à personalidade, porém, pedir que um político coloque o interesse nacional acima do sobrenome parece tão revolucionário quanto exigir honestidade de um carteirista ou discrição de um pavão ou honestidade de quem se refestela em verbas, bolsas e diárias e emendas enquanto usa a máquina para punir não simpatizantes.
O Brasil não precisa de herdeiros brigando pela coroa, mas de governantes suficientemente adultos para esquecer o espelho e olhar, finalmente, pela janela.
Ocorrerá?
Suspeito que não.