Cortez Pereira, o primeiro governador biônico
Havia algo de revelação tardia no gesto banal de folhear um livro de trás para frente. Como quem desconfia que, às vezes, o começo está no fim, e que a história, sobretudo a política, costuma se explicar melhor quando revisitamos seus bastidores. Foi assim, em dias recentes, ao reencontrar Como se fazia governador durante o Regime Militar, do jornalista João Batista Machado, que me detive justamente no capítulo dedicado à escolha de Cortez Pereira para o governo do Rio Grande do Norte. Não foi uma leitura neutra. Foi atravessada pela memória.

Imagem da Internet
Cortez Pereira não era, para mim, apenas personagem de livro ou verbete biográfico. Fora meu professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), ali pelos anos 1980, quando, já sexagenário, ministrou um seminário de duas semanas sobre a economia do semiárido nordestino. Aula que não cabia no quadro-negro nem no programa da disciplina. Terminava sempre alguns minutos depois do horário, quando ele, cercado por estudantes curiosos, conversava com naturalidade desconcertante sobre política, economia, Brasil e Nordeste. Falava com entusiasmo juvenil, como se tivesse ainda tudo por fazer – e talvez tivesse mesmo.
Com uma simpatia serena, educação quase antiga e uma fidalguia rara, Cortez Pereira parecia mais um jovem professor descobrindo o mundo do que um ex-governador que atravessara os labirintos do regime militar. As conversas invariavelmente desembocavam na política e, quase sempre, numa lista de livros que deveríamos ler para entender o país. Foi por indicação dele que comecei a comprar e a ler autores que me ajudariam a formar uma visão menos ingênua do Brasil. Essa memória pessoal, aliás, ajuda a compreender o homem público: Cortez nunca foi apenas um técnico nem apenas um político. Era um estudioso que acreditava, sinceramente, nas potencialidades pouco exploradas do Rio Grande do Norte, do Nordeste e do Brasil.
José Cortez Pereira de Araújo entrou para a história como o primeiro governador do Rio Grande do Norte escolhido indiretamente após o golpe de 1964, sucedendo Monsenhor Walfredo Gurgel, o último eleito pelo voto direto, em 1965, antes que o regime militar suspendesse as eleições diretas para governador. Sua trajetória institucional está bem registrada em verbetes oficiais, como o do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas (http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/jose-cortez-pereira-de-araujo) e também em registros de memória audiovisual (https://www.youtube.com/watch?v=Cguvdd3_ruQ).
O contexto da sua escolha ajuda a entender por que governar, naquele tempo, era mais um exercício de engenharia política do que de legitimidade democrática. Em 1966, após as vitórias de Israel Pinheiro, em Minas Gerais, e Negrão de Lima, na Guanabara – ambos eleitos pelo voto direto e apoiados por Juscelino Kubitschek, já cassado e perseguido por uma infinidade de IPMs –, o regime decidiu fechar de vez essa fresta de autonomia. As eleições diretas para governadores foram suspensas, e o poder passou a ser exercido por indicações cuidadosamente filtradas pelo Palácio do Planalto.
No Rio Grande do Norte, a tarefa coube à ARENA, partido de sustentação do governo Médici. A legenda era presidida no estado pelo empresário Reginaldo Teófilo, proprietário das Casas Régio, potência local no comércio de móveis e eletrodomésticos. Caberia à cúpula partidária organizar a lista de candidatos ao Palácio Potengi, que depois seria submetida à aprovação federal e, por fim, homologada formalmente pela Assembleia Legislativa, reduzida à condição de colégio eleitoral.
Três nomes compuseram a lista: Dix-Huit Rosado, Cortez Pereira e o general Dióscoro do Vale. Este último aparecia como um tertius, uma espécie de reserva estratégica. Suas chances cresciam apenas se houvesse impasse entre os dois civis, incapazes de unificar a classe política. Dióscoro tinha o apoio discreto do então governador Walfredo Gurgel, seu conterrâneo de Caicó, que preferia um militar sem base política própria a dois adversários ligados a grupos que lhe faziam oposição. Além disso, o general gozava da simpatia das principais lideranças militares, o que, naquele contexto, nunca era detalhe.
Dix-Huit Rosado surgia, inicialmente, como favorito. Apoiado pelo senador Dinarte Mariz, a mais poderosa liderança política do estado e figura prestigiada junto aos militares, Dix-Huit reunia a adesão dos principais líderes arenistas e tinha no currículo uma gestão elogiada à frente do Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário (INDA). Mas enfrentava resistência feroz da antiga ARENA Verde, facção vinculada ao grupo político de Aluízio Alves, cassado em 1969 e adversário histórico de Dinarte. A política potiguar, mesmo sob tutela autoritária, continuava marcada por disputas internas, ressentimentos e alianças circunstanciais.
Cortez Pereira, por sua vez, aparecia como uma alternativa tecnicamente sólida e politicamente palatável. Tinha experiência administrativa, comprovada quando dirigiu o Banco do Nordeste (BNB), e era reconhecido como estudioso dos problemas regionais. Contava com a simpatia de governadores nordestinos e de diversas lideranças nacionais, o que lhe conferia um perfil menos beligerante e mais conciliador, qualidade valiosa em tempos de exceção.
Como mandava a liturgia do regime, o governo federal enviou um emissário para medir a temperatura local e evitar fraturas no partido oficial. Coube ao deputado mineiro Rondon Pacheco, político formado na escola do silêncio estratégico, desembarcar em Natal no fim de fevereiro. Instalou-se discretamente no SESC, na Cidade Alta, onde passou a ouvir candidatos, aliados e adversários. Cada um, curiosamente, declinava da própria indicação e sugeria o nome dos outros, num jogo de falsa modéstia que escondia ambições bem reais.
O ponto de inflexão veio quando chegou às mãos de Rondon Pacheco um documento da Câmara Municipal de Natal, então presidida por Érico Hackradt, propondo formalmente o nome de Cortez Pereira. Pouco depois, Walfredo Gurgel, atendendo a um pedido do amigo Paulo Guerra, governador de Pernambuco, mudou de posição e passou a trabalhar pela sucessão de Cortez. Simultaneamente, a Tribuna do Norte, jornal da família Alves, iniciou uma ofensiva editorial contra a indicação de Dix-Huit. Os sinais eram claros: a ARENA Verde aderira a Cortez, praticamente selando seu destino.
Tudo parecia resolvido quando uma inconfidência quase comprometeu o desfecho. No aeroporto de Fortaleza, aguardando voo para Natal, Cortez foi efusivamente cumprimentado por Costa Cavalcanti, ministro do Interior, que, num abraço pouco discreto, anunciou que ele seria o futuro governador do Rio Grande do Norte. A frase correu os corredores do poder e estampou manchetes. O Palácio do Planalto tratou de desmentir a notícia, criando um constrangimento que atrasou a confirmação oficial.
O impasse foi contornado com demora, e o nome de Cortez Pereira figurou entre os últimos a ser anunciado pelo governo federal. Homologado pela Assembleia Legislativa em 3 de outubro de 1970, tomou posse em 15 de março de 1971. Governou até 15 de março de 1975. Sua gestão, como seu percurso, refletiu as ambiguidades de um tempo em que o poder se exercia entre a técnica e a tutela, entre o projeto e o limite imposto.
Para quem o conheceu na sala de aula, Cortez nunca foi apenas o governador indicado pelo regime. Foi, sobretudo, um homem que acreditava no conhecimento como ferramenta de transformação — ainda que soubesse, melhor do que ninguém, o quanto a política brasileira insiste em frustrar seus próprios talentos.