A sucessão de Tarcísio Maia

por Sérgio Trindade foi publicado em 02.ago.20

Quando 1978 começou a se anunciar como ano decisivo, Tarcísio Maia já enxergava o calendário político com a lupa de quem governa sob vigilância permanente. Entrava no penúltimo ano de mandato. Era o último completo, já que deixaria o Palácio Potengi em março de 1979 e sabia que, naquele contexto de abertura lenta, gradual e cuidadosamente vigiada, surpresas não eram apenas possíveis, mas prováveis. O MDB avançava. Vencera as eleições legislativas de 1974, tivera desempenho surpreendente nas municipais de 1976 e ampliava sua influência, sobretudo nas capitais. O regime ainda mandava, mas já não reinava com a tranquilidade de antes.

Para evitar sustos, Tarcísio começou cedo a articular a própria sucessão. Não se tratava apenas de escolher um nome, mas de preservar um equilíbrio frágil entre o Palácio do Planalto, a ARENA local, as lideranças regionais e, não menos importante, as animosidades históricas que sempre atravessaram a política potiguar.

A pressão veio rápido. Os membros da bancada arenista na Câmara dos Deputados (Antônio Florêncio, Ulisses Potiguar, Vingt Rosado e Wanderley Mariz) e no Senado (Dinarte Mariz e Jessé Freire) passaram a cobrar do governador a indicação do futuro chefe do Executivo estadual. Dinarte, como de costume, jogou pesado. Mais uma vez, apostou suas fichas no nome do mossoroense Dix-Huit Rosado, figura recorrente nas listas e recorrente também nas frustrações.

Tarcísio reagiu. Não aceitava imposições, nem mesmo vindas de Dinarte Mariz, a quem devia, em parte, a própria ascensão. Refutou como pôde a pressão da bancada arenista e, como já ocorrera nas sucessões anteriores, o impasse desembocou na solução clássica do regime: a elaboração de uma lista sêxtupla, que deveria ser apreciada e aprovada pelos deputados governistas da Assembleia Legislativa. A democracia era um ritual; a decisão, um arranjo.

Em meados de fevereiro, a política potiguar se reuniu sob um mesmo teto. Na casa do governador, na avenida Hermes da Fonseca, no Tirol, desfilaram lideranças de várias correntes. Até mesmo o ex-governador Aluízio Alves, cassado em 1969 pelo regime, esteve presente. Não era casual. Segundo João Batista Machado, que estudou minuciosamente os bastidores dessas escolhas, Aluízio foi sempre ouvido, mesmo quando oficialmente silenciado. Na política brasileira, especialmente sob a ditadura, ouvir não significava concordar; ignorar era, porém, sempre um risco.

Dessa reunião saiu a lista dos postulantes: Antônio Florêncio, Dix-Huit Rosado, Genibaldo Barros, Jessé Freire, Lavoisier Maia e Ulisses Potiguar. Desde logo, três despontaram como favoritos: Dix-Huit, Jessé e Lavoisier. Cada um carregava consigo um tipo distinto de força e de fragilidade.

Dix-Huit Rosado era o candidato de Dinarte Mariz. Experiente, conhecido, insistente. Jessé Freire, empresário influente e poderoso presidente da Confederação Nacional do Comércio, contava com o apoio decisivo do empresariado local. Lavoisier Maia, primo do governador, surgia como o preferido do Palácio Potengi, ainda que carregasse o peso da pouca experiência política.

Como nas ocasiões anteriores – com Rondon Pacheco, em 1970, e Petrônio Portela, em 1974 –, o governo federal enviou um emissário para sondar o terreno e aparar arestas. Desta vez, a missão coube ao deputado federal Francelino Pereira, presidente nacional da ARENA. Chegou a Natal em março e encontrou o caminho praticamente pavimentado: a lista sêxtupla já estava montada e aprovada por quase todas as forças políticas do estado.

Francelino reuniu-se com as principais lideranças, ouviu o que precisava ouvir e retornou a Brasília com a lista no bolso. No Palácio do Planalto, como tudo indicava, a peneira foi aplicada. Dos seis nomes, restaram três: Dix-Huit Rosado, Jessé Freire e Lavoisier Maia.

Lavoisier Maia


Nesse trio, Lavoisier era, paradoxalmente, o mais frágil e o mais protegido. Apesar do apoio explícito do primo governador, tinha pouca vivência política. Sua principal credencial administrativa fora a passagem pela Secretaria de Saúde, onde conquistara o apoio de muitos prefeitos. Sabia, contudo, que sua indicação dependia quase exclusivamente da capacidade de Tarcísio Maia de influenciar a escolha. Tinha consciência de que, se percebesse chances mínimas, deveria recuar e disputar uma vaga na Câmara dos Deputados.

Conta-se que, numa conversa franca, quase jocosa, Tarcísio lhe teria dito, em tom de brincadeira que escondia verdades duras:

– Lavô, você pode não ser o escolhido porque é feio, não é um nome nacional e não sabe falar. Mas vamos tentar.

A frase, meio piada, meio diagnóstico, revelava a crueza do processo. Lavoisier entendeu o recado. Passou a se movimentar discretamente entre os prefeitos que o apoiavam, garantindo terreno para uma eventual candidatura a deputado federal. Enquanto isso, o jogo mudava.

As chances de Dix-Huit começaram a minguar. Duas vezes rejeitado, em 1970 e 1974, carregava o peso da insistência. Em contrapartida, o nome de Jessé Freire crescia. Tornou-se quase um consenso entre as forças políticas do estado. Mesmo o MDB, que obviamente não votaria nele, dava sinais de que não criaria embaraços. Jessé parecia reunir aquilo que o regime buscava naquele momento: estabilidade, trânsito econômico e ausência de conflitos ostensivos.

Tudo caminhava serenamente para sua escolha quando o imponderável, sempre ele, voltou a interferir. O Palácio do Planalto, não se sabe exatamente por quem, mas presume-se por instância poderosa, impôs uma exigência peculiar: o futuro governador deveria ter uma esposa para exercer o papel de primeira-dama. Um detalhe aparentemente banal, mas decisivo naquele caso, porquanto Jessé ser casado com dona Elza, mas viver maritalmente com dona Ivanise, mãe de seus filhos Jessé Filho e Fernando. Ao ser comunicado por Francelino Pereira da exigência, reagiu com dignidade rara nos bastidores do poder. Comunicou que renunciava à indicação. Não aceitaria virar as costas para a família que constituíra.

– Prefiro manter-me senador e ficar em paz com minha consciência, ao lado da minha família – teria dito.

A frase selou seu destino e abriu o caminho para Lavoisier Maia.

A partir daí, o jogo acelerou. Com o apoio firme do primo Tarcísio e do ministro-chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, Lavoisier disparou nas apostas. A candidatura de Dix-Huit, mais uma vez, patinava. O regime, cansado de impasses, inclinou-se para a solução mais controlável e, na tarde de 14 de maio de 1978, Lavoisier Maia Sobrinho foi informado oficialmente de que seria o governador do Rio Grande do Norte para o mandato de 1979 a 1983.

Não foi uma escolha por aclamação, tampouco por entusiasmo. Foi, como tantas outras naquele período, o resultado de um jogo de forças em que sobrevivia não o mais votado, já que voto não havia, mas o mais ajustado às circunstâncias.

Assim se fechava, entre pressões, listas, vetos, exigências morais improvisadas e decisões tomadas longe do povo, mas sempre em nome dele, mais um ciclo do poder biônico no Rio Grande do Norte.

 

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