Anatomia de uma Marcha: entre o artifício do palco e a liturgia do sacrifício
A política é uma espécie balcão de sombras no qual o real e o simulacro se confundem na mesa das vaidade. Ela nos oferece, agora neste início de 2026, um espetáculo singular – embora não exatamente original: Nikolas Ferreira, o jovem parlamentar (pensei em utilizar o termo tribuno, porém achei-o pesado para uma político recém saído dos cueiros) que carrega o peso de milhões de seguidores em suas costas, decidiu que Brasília não era longe o bastante de ser alcançada caminhando. Partiu de Paracatu, Minas Gerais, a pé, num gesto que evoca tanto o misticismo dos líderes religiosos populares quanto a precisão dos algoritmos de engajamento.
Como em toda crônica política que se preze, a marcha não foi lida com um único par de óculos. A província do pensamento dividiu-se, e o que se viu foi o embate entre a suspeição da forma e a exaltação da essência.
De um lado, a leitura é de uma acidez necessária e me lembra algumas imagens construídas por Georges Balandier no seu magistral O poder em cena. Observa-se o asfalto não como um caminho de redenção, mas como o tablado de um teatro digital. Para essa corrente, o esforço físico é um detalhe técnico, uma cenografia montada para preencher o vazio de uma entressafra de poder. A marcha seria, portanto, uma engrenagem de manutenção, logo o deputado não caminha para chegar a algum lugar, mas para não ser esquecido. Assim, por esta ótica, a poeira da estrada é um filtro de Instagram. A crítica é clara: a completa ausência de uma pauta que transcenda o próprio “eu” do caminhante, reduzindo-se a política ao espetáculo (sobre isso, vejam A sociedade do espetáculo, de Guy Debord), no qual o sacrifício mimetiza as lutas populares de outrora, mas sem o conteúdo programático que as justificava. Em suma, é o triunfo da estética sobre a ética da representação, servindo apenas para manter aquecida a chama de uma militância que se alimenta de símbolos, mesmo que estes sejam, no fundo, ocos de substância.
Do outro lado do balcão, a caminhada é vista como um batismo de realidade. Aqui, o ato de abandonar o conforto dos gabinetes para enfrentar as intempéries do acostamento é interpretado como uma ruptura com a tal velha política encastelada. Não seria, então, marketing e, sim, uma pedagogia do exemplo. A caminhada e o cansaço do parlamentar seriam duas pontes que o religam ao cidadão comum, aquele que sente o peso do asfalto diariamente.
Os defensores desta visão dizem que a marcha é um catalisador moral. Ao dormir em leitos improvisados e caminhar sob o sol inclemente, Nikolas estaria projetando a imagem do líder-servidor, aquele que está disposto ao sofrimento vicário em nome de uma causa maior. É a resistência física como metáfora da resistência política. O impacto não está no like, mas na percepção de que existe alguém, no topo do poder, que ainda sabe o que é o suor e a distância. É a autenticidade como ferramenta de mobilização, um combustível que a frieza dos discursos parlamentares jamais conseguiria produzir.
Ao tentar analisar o impacto da jornada, que se encerra hoje com movimentações em Brasília, para o futuro eleitoral de Nikolas Ferreira, entramos no terreno da ciência política pura, aquele no qual o Poder deixa de ser substantivo para virar verbo. O gesto de Nikolas, independentemente da sinceridade de seus calos, é um exercício de realpolitik moderna. Aqui vale lembrar Maquiavel, para quem o príncipe não bastava ser virtuoso; ele deve, acima de tudo, parecer virtuoso aos olhos do povo. A virtù de Nikolas nesta marcha reside na compreensão exata do que Max Weber chamava de liderança carismática. No sistema político brasileiro, as instituições sofrem de uma anemia de confiança, então o carisma, a qualidade extraordinária que separa o líder da massa, não se constrói apenas na tribuna, mas na vivência (real ou projetada) do comum.

Imagem feita com auxílio de IA
A marcha impacta as eleições de 2026 ao consolidar o que Guy Debord descreveu em sua obra acima mencionada: a imagem não é apenas um reflexo da realidade, mas a própria realidade que se impõe. Para o eleitorado jovem e digitalizado, a distinção entre o ser e o parecer é, diferentemente do que diziam os romanos e registrava Maquiavel, uma questão bizantina. O que importa é o fato de que Nikolas estava lá. Esse capital simbólico é ouro puro para uma disputa majoritária. Ao “sofrer” publicamente, Nikolas constrói um estoque de lealdade emocional que os adversários, presos à burocracia partidária e ao tempo de TV, terão dificuldade em combater.
Há, contudo, o risco da banalização do carisma, conforme alertava o próprio Weber. Se cada movimento político virar uma “peregrinação”, o efeito de novidade se esvai. Para 2026, não tenho dúvidas, Nikolas posicionou-se como o político que “anda com o povo” – literalmente. Ele escapa da armadilha de ser apenas um influencer para se tornar um símbolo de resistência física e ideológica.
Pensadores como Pierre Rosanvallon discutiram a “legitimidade de proximidade”. Nikolas entende que a representação política tradicional faliu. O eleitor não quer mais apenas um representante, mas um espelho. A marcha foi a construção desse espelho. Para quem o vê como ás do marketing, ele é uma ameaça à seriedade democrática. Para quem o vê como herói, ele é a esperança de uma política com alma.
Nikolas Ferreira não está, meus três ou quatro leitores, apenas acumulando votos; ele está criando um exército de fiéis, pois sabe que, no Brasil, o voto é, antes de tudo, um ato de fé. E para se ter fé, é preciso que haja um rito. A Marcha de Paracatu a Brasília foi o rito de passagem de um jovem deputado para um pretendente ao Olimpo do poder. Ninguém sabe qual é o destino final do parlamentar mineiro. Só o tempo dirá. Por ora, ele segue caminhando, ciente de que, na política, como na vida, quem não se faz notar, não existe. E Nikolas, entre o asfalto e a tela do celular, nunca existiu tanto.