O beijo do abismo
Parcela considerável, vá lá, da esquerda brasileira identificou um abismo e vai em direção a ele.
Ao abraçar-se com Alexandre de Moraes, não apenas ignora a liturgia do cargo, como se desmoraliza na praça. É uma defesa bruta, cega e, acima de tudo, desprovida de inteligência política. Se o negacionismo científico de outrora era o alvo da crítica, o negacionismo dos fatos jurídicos tornou-se, agora, o método da militância.
Há um empilhamento de fatos que dispensaria adjetivos. A montanha de evidências é tão alta que, se retirássemos uma pedra do topo, a estrutura continuaria a assombrar quem ainda preserva a visão. O problema da esquerda não é a falta de informação, mas o excesso de conveniência. Onde antes se lia a Constituição, hoje se lê o prontuário da sobrevivência imediata.
A estratégia atual, se é que se pode chamar de estratégia o que mais parece um espasmo, apoia-se em um único pilar: o ataque à jornalista Malu Gaspar.
Para a seita, Malu mentiu, é lavajatista ou operadora de uma agenda oculta. É um argumento frágil, que não resiste a cinco minutos de conversa fora das bolhas de rede social. Quando o argumento morre, nasce o ad hominem. É uma tática moralmente duvidosa e politicamente suicida.
O ataque brutal à credibilidade de uma jornalista para blindar um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) produz um efeito colateral que os estrategistas do Planalto parecem não computar. Ao tentar assassinar a reputação de quem dá a notícia, a esquerda mimetiza o bolsonarismo que jurou e jura combater. O figurino é o mesmo, mudando-se apenas a cor da gravata. O flagrante é de uma feiura intelectual constrangedora.

Imagem feita com auxílio de IA
Há, ainda, um agravante para o próprio Alexandre de Moraes. Ao ser defendido com tamanho ímpeto e virulência por um lado só, o ministro deixa de parecer um magistrado técnico para se tornar, aos olhos do público, comissário de um partido e seus satélites. A defesa apaixonada da esquerda é o beijo da morte na imagem de imparcialidade que o STF deveria, ao menos, fingir que preserva. Se o ministro é “deles”, então a justiça tem lado. E se a justiça tem lado, ela deixa de ser justiça para virar acerto de contas.
A tentativa de trucidar jornalistas é um jogo perigoso. Primeiro, porque estabelece a equivalência moral entre os extremos no método do cancelamento. Segundo, porque ignora o básico do corporativismo profissional, a saber, jornalistas costumam ser solidários quando um dos seus é colocado no paredão das milícias digitais.
O que se vê é uma estupidez contraproducente. Alegar que tal investida não é tática, mas uma defesa da verdade, é apenas adicionar uma camada de ridículo ao desastre. Não existe um único aspecto favorável nessa campanha. A esquerda, que outrora se pretendia a guardiã das liberdades, hoje se contenta em ser claque de togados, enquanto tenta quebrar a caneta de quem ousa descrever o que vê.
No fim do dia, o saldo é o vazio. Ganha-se o aplauso dos convertidos e perde-se o respeito da história. Para quem já viu o filme da política brasileira em diversas reprises, o final é conhecido: o excesso de proteção costuma ser o primeiro passo para o abandono.