O santo da cadeia e o demônio da cela: a farsa moral da esquerda satisfeita

por Sérgio Trindade foi publicado em 02.jan.26

Caro Sérgio Trindade, li com atenção os seus dois textos – Lula e Bolsonaro na prisão: coragem, disciplina e covardia em duas quedas políticas (https://historianosdetalhes.com.br/brasil/lula-e-bolsonaro-na-prisao-coragem-disciplina-e-covardia-em-duas-quedas-politicas/) e Líderes que lideram e líderes que choram, publicado no Diário do RN  –  e, confesso, discordei de ambos, os quais, diga-se, diziam basicamente a mesma coisa.

Ora, meu caro, o Brasil é um país tão generoso que transforma presidiário em mártir e derrota em virtude. Basta vestir o figurino certo, repetir a ladainha adequada e, pronto, o condenado vira santo, o processo vira perseguição e a cadeia vira Via Crucis. Lula não foi preso, foi canonizado. Bolsonaro não foi processado, foi execrado. Eis o teatro moral da esquerda satisfeita, que adora um cárcere desde que seja cenográfico.

Imagem feita com auxílio de IA

Lula foi à prisão como quem vai a um comício. Muito bem. Mas desde quando teatralidade virou virtude cívica? Desde quando falar grosso diante da cela absolve décadas de promiscuidade entre partido, Estado e empreiteiras? O Brasil enlouqueceu a ponto de confundir resistência com encenação. O sujeito é condenado em duas instâncias, vai para a cadeia, e a intelligentsia bate palmas: “Que coragem!”. Coragem de quê? De enfrentar a Justiça com palanque montado?

O petismo transformou o cárcere em set de filmagem. A cela virou camarim, a militância virou claque e o discurso virou missa. Lula não estava preso, estava em cartaz. Era o Preso nº 1 em temporada limitada, com direito a entrevistas, cartas emocionadas e uma aura de injustiçado que faria inveja a qualquer personagem de Dostoiévski. A diferença é que Dostoiévski sofreu de verdade.

E José Dirceu? Ah, José Dirceu, o São Sebastião do Mensalão e da Lava Jato. Um homem condenado a penas bíblicas que nunca chorou em público. Bravo! Mas não chorou porque sempre soube que o partido o trataria como herói, jamais como traidor. No PT, o silêncio não é virtude moral, é cláusula contratual. Chorar é para os fracos; resistir é para os quadros orgânicos.

Agora comparem com Bolsonaro, dizem eles (e você, fazendo coro), babando veneno. Bolsonaro fraquejou, Bolsonaro chorou, Bolsonaro alegou remédios. Pois é. Bolsonaro teve o pecado capital de ser humano fora de hora. Não entendeu que, no Brasil, só a esquerda pode sofrer com dignidade estética. À direita, só se permite a humilhação completa.

Bolsonaro não teve sindicato, não teve partido disciplinado, não teve claque profissional. Teve seguidores desorganizados, aliados medíocres e um Estado que resolveu mostrar serviço. Quando caiu, caiu sozinho, exatamente como caem os hereges. A esquerda chama isso de fraqueza. Eu chamo de abandono.

O 8 de janeiro virou o Apocalipse segundo São Alexandre. Um bando de idiotas úteis quebrou prédios e entregou de bandeja a cabeça do líder. Bolsonaro pagou o preço do amadorismo dos seus. Lula pagou o preço – depois anulado – de um sistema corrupto que fingia normalidade. A esquerda chama isso de diferença moral. Eu chamo de sorte histórica.

E essa história de que os bolsonaristas choraram? Ora, choraram porque não tinham script. Não houve manual de resistência, não houve célula partidária dizendo “aguenta firme”. Houve pânico. E o pânico, meu caro, é o estado natural de quem nunca fez carreira dentro de um partido leninista. Lula não chorou porque sabia que sairia maior. Bolsonaro chorou – ou pareceu chorar – porque sabia que poderia sair menor. Um tinha o STF como horizonte futuro. O outro tinha o esquecimento.

A esquerda adora dizer que Lula saiu da prisão presidente. Verdade. Mas esquece de dizer que saiu porque o vento mudou, porque o sistema recalculou rota, porque o Brasil precisava de um adulto na sala após o pandemônio. Foi coragem, mas acima de tudo foi conjuntura. A História também tem seus caprichos.

Já Bolsonaro virou réu. Sim. Mas virou réu sem rede, sem aparato, sem imprensa amiga e sem narrativa indulgente. Tudo nele vira prova. Tudo nos outros vira contexto.

O petismo ama dizer que “a forma de cair importa”. Importa mesmo. Mas importa sobretudo quem escreve o roteiro. Lula caiu com roteiristas experientes. Bolsonaro caiu improvisando.

O que incomoda a esquerda não é a covardia alheia. É o fato de que Bolsonaro não jogou o jogo certo, não pediu bênção à academia, não seduziu editorias, não vestiu o figurino do preso elegante. Preferiu ser tosco até o fim. Pagou por isso.

O Brasil não é um tribunal moral. É um palco. Lula entendeu isso. Bolsonaro não. Um fez da cadeia um altar. O outro fez do processo um vexame. Mas não confundam estética com ética. No dia em que este país parar de transformar prisão em medalha e sofrimento em marketing, talvez comece a levar a Justiça a sério. Até lá, continuaremos canonizando uns e demonizando outros, sempre com a consciência tranquila e a hipocrisia bem passada.

Não sejamos unânimes, pois a unanimidade, disse Nélson Rodrigues, é burra. Especialmente quando aplaude o santo da cela e cospe no demônio do cárcere.

 

Astério de Natuba

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