Quando a virtude é apenas calhordice

por Sérgio Trindade foi publicado em 03.fev.26

No Brasil isso tem sido regra calhorda posando com vestes de virtuoso.

Imagem feita com auxílio de IA

No momento, grande parte da esquerda brasileira resolveu vestir a toga como se fosse batina e saiu a rezar missas em defesa de ministros do Supremo Tribunal Federal. Não é defesa jurídica; é devoção. E, como toda devoção cega, dispensa fatos, despreza nuances e abomina dúvidas. O resultado é uma tragédia de província com figurino de Brasília.

Defender Alexandre de Moraes e Dias Toffoli tornou-se, para parcelas ruidosas da esquerda, um ato de fé. Não se argumenta; professa-se. E quando a fé encontra a realidade empilhada – fatos sobre fatos, documentos sobre documentos –, o fiel escolhe o milagre: nega-se o mundo. Swift já advertia, em sua Modesta Proposta, que a razão, quando expulsa pela porta, volta pela janela vestida de monstruosidade. Aqui, ela nem volta. A esquerda preferiu o negacionismo ético e mesmo jurídico ao antigo negacionismo científico que tanto criticou. Mudou-se o objeto; preservou-se o método.

Há tantos elementos acumulados que, mesmo retirando um, dois ou três, o restante continua a assustar qualquer cidadão com a visão preservada. A montanha é alta demais para ser varrida com um tuíte indignado. Mas a estratégia, se assim se pode chamar o espasmo, é singela como catecismo infantil: Malu Gaspar mentiu. Pronto. Fecha-se o processo, arquiva-se a realidade e condena-se a jornalista. Se não funciona, acrescenta-se o adjetivo: lavajatista. Persistindo a recalcitrância do mundo, revela-se a última carta do baralho moral: “agenda oculta pró-golpista”.

É o velho truque que Machado de Assis diagnosticou com precisão clínica: quando falta argumento, sobra intenção atribuída. O problema é que, fora da seita, essa tática dura o tempo de um cafezinho morno. Dez minutos de conversa honesta e ela evapora. Como a  acusação não se sustenta, então o ataque pessoal entra em campo como substituto da razão. Voltaire, se vivo fosse, pediria direitos autorais.

O que espanta não é a violência retórica, afinal esta sempre existiu, mas a amnésia seletiva. A esquerda que denunciava, com razão, o assassinato de reputações promovido pelo bolsonarismo agora ensaia a mesma coreografia. O figurino é idêntico; muda-se apenas a cor da gravata. É uma feiura intelectual de causar vergonha alheia: condena-se no adversário o pecado que se pratica com gosto.

E o estrago não para aí. Ao tentar destruir a credibilidade de Malu Gaspar para blindar um ministro do STF, a esquerda consegue o prodígio de prejudicar a si mesma e ao defendido. Para a esquerda, fica o registro histórico da incoerência. Para Alexandre de Moraes, o efeito é ainda mais tóxico: a defesa apaixonada o transforma, aos olhos do público, de magistrado técnico em comissário de partido. O beijo da claque é o beijo da morte da imparcialidade. Se ele é “nosso”, a justiça deixa de ser cega e passa a usar broche.

A liturgia do cargo, que deveria ser preservada como último verniz civil para evitar a barbárie, vai sendo dissolvida no ácido da militância. A toga, nesse teatro, vira fantasia de carnaval. E carnaval, ensinou-nos Bakhtin, suspende hierarquias, o que é ótimo para a praça e péssimo para o tribunal.

Há, ainda, um erro tático primário, digno de manual de autoajuda política escrito às pressas: atacar jornalistas é sempre má ideia. Primeiro, porque estabelece uma equivalência moral entre extremos que se juravam inconciliáveis. No método do cancelamento, o sinal de igual une esquerda (ou seria extrema-esquerda?) e extrema-direita com um laço bem dado. Segundo, porque ignora o básico do corporativismo: jornalistas podem brigar entre si à mesa do bar, mas fecham fileiras quando um deles é colocado no paredão. A esquerda parece ter esquecido essa aula elementar de sociologia das profissões.

Alegar que tudo isso não é tática, mas “defesa da verdade”, é adicionar uma camada extra de ridículo ao desastre. A verdade não precisa de milícia digital; precisa de fatos. Quando se substitui o fato pela adjetivação, confessa-se a derrota intelectual, conforme explicitou Lima Barreto, que conhecia o Brasil como poucos; é um patriotismo de conveniência, no qual defende-se o que convém hoje para lamentar amanhã.

O saldo é, vamos e venhamos, melancólico. Ganha-se o aplauso dos convertidos, esse público cativo que confunde lealdade com cegueira, e perde-se o respeito de quem ainda acredita que instituições não são clubes de torcida. A esquerda, que um dia se apresentou como guardiã das liberdades, contenta-se agora em ser claque de togados, enquanto tenta quebrar a caneta de quem ousa descrever o que vê.

No fim, resta o vazio. A história, essa senhora irônica, costuma cobrar juros altos de quem troca princípios por conveniência. Como em toda reprise da política brasileira, o excesso de proteção antecede o abandono. E quando o abandono vem, vem sem nota de rodapé. Nelson, do fundo da plateia, levantaria a sobrancelha e sentenciaria: o abismo foi identificado — e, com passo firme, escolheu-se caminhar até ele.

 

Astério de Natuba (Sociólogo conservador)

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