Quando a virtude é apenas calhordice
No Brasil isso tem sido regra calhorda posando com vestes de virtuoso.

Imagem feita com auxílio de IA
No momento, grande parte da esquerda brasileira resolveu vestir a toga como se fosse batina e saiu a rezar missas em defesa de ministros do Supremo Tribunal Federal. Não é defesa jurídica; é devoção. E, como toda devoção cega, dispensa fatos, despreza nuances e abomina dúvidas. O resultado é uma tragédia de província com figurino de Brasília.
Defender Alexandre de Moraes e Dias Toffoli tornou-se, para parcelas ruidosas da esquerda, um ato de fé. Não se argumenta; professa-se. E quando a fé encontra a realidade empilhada – fatos sobre fatos, documentos sobre documentos –, o fiel escolhe o milagre: nega-se o mundo. Swift já advertia, em sua Modesta Proposta, que a razão, quando expulsa pela porta, volta pela janela vestida de monstruosidade. Aqui, ela nem volta. A esquerda preferiu o negacionismo ético e mesmo jurídico ao antigo negacionismo científico que tanto criticou. Mudou-se o objeto; preservou-se o método.
Há tantos elementos acumulados que, mesmo retirando um, dois ou três, o restante continua a assustar qualquer cidadão com a visão preservada. A montanha é alta demais para ser varrida com um tuíte indignado. Mas a estratégia, se assim se pode chamar o espasmo, é singela como catecismo infantil: Malu Gaspar mentiu. Pronto. Fecha-se o processo, arquiva-se a realidade e condena-se a jornalista. Se não funciona, acrescenta-se o adjetivo: lavajatista. Persistindo a recalcitrância do mundo, revela-se a última carta do baralho moral: “agenda oculta pró-golpista”.
É o velho truque que Machado de Assis diagnosticou com precisão clínica: quando falta argumento, sobra intenção atribuída. O problema é que, fora da seita, essa tática dura o tempo de um cafezinho morno. Dez minutos de conversa honesta e ela evapora. Como a acusação não se sustenta, então o ataque pessoal entra em campo como substituto da razão. Voltaire, se vivo fosse, pediria direitos autorais.
O que espanta não é a violência retórica, afinal esta sempre existiu, mas a amnésia seletiva. A esquerda que denunciava, com razão, o assassinato de reputações promovido pelo bolsonarismo agora ensaia a mesma coreografia. O figurino é idêntico; muda-se apenas a cor da gravata. É uma feiura intelectual de causar vergonha alheia: condena-se no adversário o pecado que se pratica com gosto.
E o estrago não para aí. Ao tentar destruir a credibilidade de Malu Gaspar para blindar um ministro do STF, a esquerda consegue o prodígio de prejudicar a si mesma e ao defendido. Para a esquerda, fica o registro histórico da incoerência. Para Alexandre de Moraes, o efeito é ainda mais tóxico: a defesa apaixonada o transforma, aos olhos do público, de magistrado técnico em comissário de partido. O beijo da claque é o beijo da morte da imparcialidade. Se ele é “nosso”, a justiça deixa de ser cega e passa a usar broche.
A liturgia do cargo, que deveria ser preservada como último verniz civil para evitar a barbárie, vai sendo dissolvida no ácido da militância. A toga, nesse teatro, vira fantasia de carnaval. E carnaval, ensinou-nos Bakhtin, suspende hierarquias, o que é ótimo para a praça e péssimo para o tribunal.
Há, ainda, um erro tático primário, digno de manual de autoajuda política escrito às pressas: atacar jornalistas é sempre má ideia. Primeiro, porque estabelece uma equivalência moral entre extremos que se juravam inconciliáveis. No método do cancelamento, o sinal de igual une esquerda (ou seria extrema-esquerda?) e extrema-direita com um laço bem dado. Segundo, porque ignora o básico do corporativismo: jornalistas podem brigar entre si à mesa do bar, mas fecham fileiras quando um deles é colocado no paredão. A esquerda parece ter esquecido essa aula elementar de sociologia das profissões.
Alegar que tudo isso não é tática, mas “defesa da verdade”, é adicionar uma camada extra de ridículo ao desastre. A verdade não precisa de milícia digital; precisa de fatos. Quando se substitui o fato pela adjetivação, confessa-se a derrota intelectual, conforme explicitou Lima Barreto, que conhecia o Brasil como poucos; é um patriotismo de conveniência, no qual defende-se o que convém hoje para lamentar amanhã.
O saldo é, vamos e venhamos, melancólico. Ganha-se o aplauso dos convertidos, esse público cativo que confunde lealdade com cegueira, e perde-se o respeito de quem ainda acredita que instituições não são clubes de torcida. A esquerda, que um dia se apresentou como guardiã das liberdades, contenta-se agora em ser claque de togados, enquanto tenta quebrar a caneta de quem ousa descrever o que vê.
No fim, resta o vazio. A história, essa senhora irônica, costuma cobrar juros altos de quem troca princípios por conveniência. Como em toda reprise da política brasileira, o excesso de proteção antecede o abandono. E quando o abandono vem, vem sem nota de rodapé. Nelson, do fundo da plateia, levantaria a sobrancelha e sentenciaria: o abismo foi identificado — e, com passo firme, escolheu-se caminhar até ele.
Astério de Natuba (Sociólogo conservador)