República do Compadrio

por Sérgio Trindade foi publicado em 06.mar.26

 

O escândalo que envolve o banqueiro e outras coisas Daniel Vorcaro caiu sobre Brasília como uma chuva ácida, corroendo reputações, arranhando biografias e deixadando no ar uma pergunta que a República brasileira nunca conseguiu responder sem gaguejar: quem manda em quem? O poder público controla os interesses privados ou os interesses privados controlam o poder público?

A perplexidade nacional costuma vir acompanhada de uma ingenuidade igualmente nacional. Como se estivéssemos diante de uma anomalia inédita. Como se a República brasileira tivesse sido fundada sobre mármore cívico e não sobre a argamassa um tanto pegajosa das conveniências – é isso que o escândalo master deixa nítido, pois o episódio apenas atualiza um velho capítulo do manual político nacional, a saber, o país continua funcionando dentro do padrão descrito por Raymundo Faoro em Os Donos do Poder: um Estado capturado por estamentos que se apropriam da máquina pública como quem administra um patrimônio familiar. A República brasileira, meus três ou quatro leitores, nunca foi inteiramente pública; sempre foi, em larga medida, privatizada.

Imagem feita com auxílio de IA

O escândalo atual chama atenção porque envolve cifras graúdas e personagens instalados nas alturas da República. Mas o seu mecanismo é de uma banalidade quase doméstica. Trata-se da velha troca de favores, da influência que se infiltra nas engrenagens institucionais, do acesso privilegiado que substitui o mérito ou a regra. Vi e vejo isso de perto, nos meus quase quarenta anos de serviço público estadual/federal.

O problema é que esse padrão não vive apenas nos salões refrigerados de Brasília. Ele se reproduz em escala menor, mas com idêntica lógica, nos porões e nos corredores do serviço público espalhado pelo país, confirmando que a corrupção brasileira tem algo de fractal: repete-se em todas as dimensões.

Quando um empresário poderoso tenta dobrar autoridades, não faz mais do que aplicar um método que, em miniatura, já está naturalizado nos andares de baixo. O servidor que arranja uma vantagem para um conhecido, o gestor que flexibiliza uma regra para um aliado (é o que mais ocorre e disso tratarei em texto posterior), o funcionário que abre uma exceção para um padrinho político; muitos participam, consciente ou inconscientemente, da mesma engrenagem cultural. Não se trata de um fenômeno episódico, mas de uma estrutura.

Foi precisamente isso que José Murilo de Carvalho tentou explicar ao estudar a formação do Estado brasileiro, em seus trabalhos sobre cidadania e instituições,  mostrando como Brasil construiu uma República antes de construir uma sociedade plenamente republicana, criando instituições modernas sem consolidar hábitos públicos igualmente modernos. Resultado: um sistema que funciona formalmente como uma democracia, mas culturalmente como uma rede de intermediações pessoais.

O cidadão comum acredita nas leis. O sistema real funciona nos bastidores. Daí, quando um escândalo explode, o país reage com indignação moral, que dura pouco. Em seguida, o escândalo é absorvido pela rotina política, como um corpo estranho que o organismo aprende a tolerar. É nesse ponto que o caso Vorcaro se torna revelador. Não porque seja único, mas porque é exemplar. Ele mostra o encontro de dois mundos que, no Brasil, nunca estiveram realmente separados: o do dinheiro privado e o da autoridade pública.

No discurso oficial, existe uma fronteira clara entre ambos. Na prática, essa fronteira costuma ser um biombo. O patrimonialismo descrito por Faoro continua operando, apenas com figurino atualizado. No século XIX, eram os grandes proprietários rurais que se confundiam com o Estado. Hoje, são empresários, operadores financeiros e grupos econômicos que transitam com desenvoltura entre gabinetes, tribunais e ministérios. Mudam os nomes. Permanece o método. E o método não sobrevive apenas porque há corruptores e, sim, porque há um ecossistema inteiro disposto a tolerá-lo.

O Brasil desenvolveu uma curiosa capacidade de conviver com duas narrativas simultâneas. Na superfície, proclamamos a santidade das instituições. Nos bastidores, aceitamos com naturalidade que essas mesmas instituições sejam permanentemente negociadas. A República brasileira é, em certo sentido, um teatro cívico. No palco, as regras.l; nos camarins, os arranjos. A duplicidade ajuda a explicar por que os grandes escândalos parecem sempre gigantescos e, ao mesmo tempo, familiares. Eles chocam pelo tamanho e não pela lógica, amplamente conhecida.

Quando um banqueiro tenta influenciar autoridades, ele apenas opera no nível mais sofisticado de uma cultura política disseminada. É o mesmo espírito que move o pequeno favor administrativo, o jeitinho institucionalizado, a regra que se curva diante da conveniência. Aquele jeitinho que faz sumir processos, que preseva a “lisura” de gente suja como pau de galinheiro, de faz sumir a conta-contas recursos públicos. Tudo sob o olhar cordato, quando não conivente, do gestor público.

A corrupção brasileira raramente começa no topo. Ela se espalha de baixo para cima e de cima para baixo, como um sistema circulatório. Por isso, o escândalo atual deveria servir menos para alimentar o espetáculo da indignação e mais para provocar uma reflexão incômoda. O problema não é apenas quem corrompe autoridades. É o ambiente que torna a corrupção uma estratégia racional.

Enquanto o Estado continuar sendo percebido como um território de acesso privilegiado — e não como um patrimônio impessoal — novos escândalos continuarão surgindo com a mesma previsibilidade das estações do ano.

A República brasileira foi proclamada há mais de um século, em muitos aspectos, porém, ainda funciona como uma velha casa patrimonial, na qual a distinção entre o público e o privado permanece turva.

Faoro percebeu isso olhando para o passado. José Murilo de Carvalho explicou isso examinando as instituições. O presente apenas confirma o diagnóstico.

Escândalos passam. Estruturas permanecem. E o Brasil continua tentando resolver, com discursos republicanos, um problema que é, antes de tudo, cultural. A cada nova crise, repetimos o ritual da surpresa, como se o país ainda não tivesse aprendido que, por aqui, a República frequentemente funciona como condomínio de espertalhões, e não como bem comum.

posts relacionados
Logo do blog 'a história em detalhes'
por Sérgio Trindade
logo da agencia web escolar