Silêncio em serviço
Há filmes que contam uma história. Outros contam duas: a que está na tela e a que o espectador precisa inventar para preencher os vazios. O agente secreto pertence com alguma convicção à segunda categoria, o que, por si só, não é um defeito. O problema é quando o espectador trabalha mais do que o roteirista.
A premissa é conhecida: espionagem, segredos, gente que fala pouco e olha muito. Em tese, um terreno fértil. Na prática, o filme parece confiar demais no silêncio como se ele fosse automaticamente profundidade. Há longas pausas, olhares carregados, diálogos econômicos, tudo muito elegante, até o momento em que se percebe que a economia virou inadimplência.
O protagonista, um sujeito treinado para não demonstrar nada, cumpre seu papel com disciplina. Tão bem, aliás, que em certos momentos fica a dúvida se ele está interpretando um agente secreto ou apenas esperando o ônibus. A contenção, que poderia sugerir complexidade, acaba funcionando como uma espécie de anestesia narrativa. O personagem não se revela e, ao mesmo tempo, esconde-se ou simplesmente não existe e/ou não acontece.

Imagem feita com auxílio de IA
O enredo avança como quem pisa em ovos, o que, novamente, poderia ser virtude. Suspense é isso: administrar informação. O filme parece, entretanto, administrar a falta dela. Há reviravoltas que chegam com atraso, como convidados que aparecem depois do parabéns, e outras que passam tão discretamente que o espectador só percebe quando já foram embora. A sensação é de que há sempre algo importante prestes a acontecer. Esse “prestes” dura quase o filme inteiro até que, em algum momento, entra em cena a conspiração maior, aquela que justifica tudo: perseguições, encontros em lugares pouco iluminados, trocas de olhares que pedem legenda. Só que essa engrenagem maior nunca ganha corpo suficiente para sustentar o peso que lhe atribuem. Fica a impressão de que todos estão muito preocupados com algo que o filme ainda não teve tempo (ou seria disposição?) de explicar. E há, ainda, um certo apreço por explicações tardias. Personagens surgem com informações decisivas, como quem lembra, no fim da reunião, de um detalhe essencial. O roteiro, então, tenta costurar o que ficou solto, mas a linha já não encontra todos os furos. O resultado é um remendo visível, que resolve a trama, mas não convence totalmente.
Visualmente, o filme é correto. Enquadramentos bem pensados, iluminação que sugere mistério, uma trilha que sabe quando entrar e quando sair. Tudo funciona, e talvez esse seja o ponto: funciona demais, no sentido de cumprir tabela. Falta aquele momento em que a forma surpreende, em que a cena faz algo que não estava no manual.
Curiosamente, o filme parece ter medo de seu próprio tema. Espionagem implica risco, ambiguidade, escolhas difíceis. Aqui, as escolhas existem, mas raramente pesam. As consequências chegam amortecidas, como se o roteiro preferisse não se comprometer demais com elas. Ninguém sai exatamente transformado, e isso, num filme sobre identidades ocultas, soa como uma oportunidade não aproveitada.
O agente secreto, que assisti duas vezes (uma quase um mês antes do Oscar e outra ontem) deixou-me, meus três ou quatro leitores, uma impressão curiosa, a de que poderia ser mais do que é. Tem os elementos, tem a atmosfera, tem até momentos em que tudo parece se alinhar. Mas falta decisão, falta aquela escolha de ir até o fim numa ideia, de assumir um caminho e bancar suas implicações. Por isso – e falo por mim, sem querer que minhas impressões correspondam às de quem está me lendo agora –, o espectador sai com a sensação de ter assistido a um ensaio bem-comportado de um filme que, em outra circunstância, talvez tivesse algo mais a dizer. Não é pouco, mas também não é exatamente o que se espera de uma história que gira em torno de segredos, afinal, meus caros, segredo bom é aquele que, quando revelado, faz sentido. Aqui, ele apenas aparece.

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Quanto à atuação de Wagner Moura, prefiro o de Tropa de Elite e o de Narcos.