Bordel
No litoral da América do Sul, onde a geografia se confunde com o erro, resistia um enclave francês — um acidente territorial com delírios de grandeza soberana. Chamava-se Bordeaux. Mas ali, o vinho era escasso, o queijo inexistia e a dignidade era um conceito arcaico, enterrado sob camadas de lama tropical.
Fundada no século XVII por um exilado que naufragara até no próprio nome, a cidade inchou como um nódulo purulento, alimentada por expatriados em frangalhos e foragidos de condenações medíocres. Os brasileiros da vizinhança, donos de um pragmatismo solar e impiedoso, batizaram o lugar pelo que ele exalava: Bordel. O apelido colou como piche. Para os locais, era Bordeaux; para o mundo e para a verdade, era Bordel — no nome, na arquitetura e, sobretudo, nos costumes.
Bordel ostentava duas bizarrias existenciais. A primeira era a divisão de bens e almas: as coisas — o colchão, o paralelepípedo, o crime e a honra — tinham nomes em português. Já as pessoas portavam nomes franceses imponentes, embora suas almas cheirassem a sardinha vencida e prevaricação. A segunda era o dialeto: um português pastoso, mastigado com “r”s e “s”s de um biquinho histérico, como se cada cidadão estivesse em eterno flerte com o próprio reflexo. Era o “carioquês de riviera”, a língua oficial da simulação.

Neste teatro de ruínas, reinava Honoré Sept. A alma de Honoré não valia o custo de uma porca espanada. Sua mesquinhez era, na verdade, uma economia radical de caráter: comprava ferragens de segunda mão para vendê-las como aço czarista. Exilado de si mesmo, Honoré acordava tarde, enfiava-se em um jeans amarrotado e numa camiseta Adidas de cores fúteis para, da varanda, desfiar seu rosário de honestidade fictícia. Enquanto o café esfriava, ele contabilizava as fraudes aplicadas em projetos acadêmicos e os diários de classe preenchidos com aulas que o tempo nunca viu acontecer.
Contudo, o cetro doméstico pertencia a Nain de Feuilleton — uma anã de voz esganiçada, punho de granito e nádegas ausentes. Nain era a matriarca de uma revolução particular. Fundara o movimento As Pequenas Furiosas, um coletivo anarcossindicalista cuja única doutrina sólida era o desprezo por homens com mais de um metro e sessenta ou qualquer vestígio de rigor moral. Honoré, por sua baixa estatura intelectual e ética, estava a salvo de seus ataques.
Entre queijos derretidos e vinhos de caixa, Nain e suas acólitas discutiam a queda do patriarcado e técnicas de pedagogia revolucionária, enquanto desenhavam foices em guardanapos produzidos pela esposa de Perruche Pulcherium — esta, proprietária de um centro comercial de aberrações.
Perruche, o “eterno palhaço institucional”, era o mestre das massas do subemprego. Consultor de relações públicas em um francês de posto de gasolina, ele redigia panfletos para políticos de dentes sebosos e produtores de higiene duvidosa. Perruche era a prova viva de que, em Bordel, o zero à esquerda não apenas soma, como lidera.
O triunvirato da vigarice se completava com Hors Route, o ex-diretor que convertera a preguiça em misticismo diplomático. Hors vendia a Escola Cívico-Poética dos Saberes Transversais, um vácuo pedagógico onde se ensinava absolutamente nada com uma profundidade de arrepiar. Juntos, no balcão de uma instituição de fomento — sob as bênçãos do misterioso Tartuffe —, decidiram fundar a Maison du Futur. Uma ONG fantasma onde alunos eram sombras, professores eram mitos e os boletins traziam apenas afagos: “Você é luz!”.
A ameaça ao esquema veio na forma de Tartuffe Rouge, um militante funcionalmente analfabeto com um diploma que mais parecia um cupom de pizzaria. Tartuffe era o fiscal da moralidade alheia, um sujeito que defendia ideologias sem jamais ter lido o manual de instruções. Quando invadiu a Maison du Futur, encontrou apenas cadeiras quebradas e uma cafeteira que gotejava boldo.
— É uma iniciativa… simbólica — balbuciou Tartuffe, tentando parecer intelectual enquanto segurava uma prancheta repleta de palavras vazias como “afeto” e “partilha”.
— A educação é o símbolo, mestre! Ensinamos o invisível! — disparou Hors, com a rapidez de um gatuno.
Confuso e covarde, Tartuffe carimbou a farsa. “Aprovado com ressalvas éticas”, escreveu, garantindo a continuidade do circo. Saiu dali cantarolando hinos que não compreendia, enquanto em Bordel, a vida seguia seu curso: Honoré fraudando o presente, Nain gritando com o futuro, e todos vivendo sob o letreiro luminoso da fachada:
“Aqui se estuda o amanhã… quando der.”