Brasil: tragédia em tom burlesco
João Souza Slavo Dudek, homem atarracado, gordo e de cabeça imensa e fala de padre em missa campal, ergueu-se de sua poltrona de couro preto como se fosse um suserano de província decadente. Filho de cabo da Polícia Militar e neto de esbirro polícia política da Sérvia, sua mãe era uma dona de casa que nunca imaginou gerar um Hércules jurídico.
E Slavo Dudek, advogado por cinco anos e juiz aprovado em concurso público, parecia acreditar que o Brasil inteiro girava ao redor de seu crânio avantajado e de sua barriga tão suprema. No Supremo Tribunal Federal, onde chegou depois de uma campanha política ardida, reinava como uma mistura de Luís XIV de paróquia e um Conselheiro Acácio e estava convencido de que a Constituição lhe servia de oráculo, muito embora a consultasse com a mesma atenção que se dá a bula de remédio.
Um dia, inspirado por não se sabe se o Espírito Santo ou o demônio do improviso, Slavo Dudek levantou sua caneta como se fosse cetro e proclamou que leis estrangeiras não tinham efeito no Brasil. Seria o óbvio se o mundo não fosse o que é. Slavo Dudek, porém, quis fazer a sua versão da Independência, mas sem cavalo, sem espada e sem bravura – um Ipiranga de segunda mão, mais próximo da ópera bufa do que da epopeia. Era como se D. Pedro tivesse gritado Independência ou Morte e, adiante, tropeçado num penico.
Os assessores, pobres almas franzinas, olhavam-no como quem observa um equilibrista bêbado numa corda bamba, sem saber se aplaudiam ou chamavam o SAMU.
A Bolsa de Valores, essa senhora que tenta parecer jovem em vestido de debutante, caiu em desmaio histérico assim que ouviu o veredito. A queda foi tão aparatosa que parecia cena de Molière: uma madame tropeçando na cauda do próprio vestido e arrastando junto seus filhos banqueiros, que choravam como herdeiros diante do inventário vazio.
O Itaú, com ar shakesperiano, anunciava perdas como se recitasse Hamlet: “Ser ou não ser bilionário, eis a questão”. O BTG urrava como vilão de ópera barata, o Banco do Brasil se encolhia como criança flagrada roubando goiabada, e o Bradesco, tímido, confessava: “Perdi menos, mas perdi com estilo”. Era uma coreografia de falências, um balé de prejuízos, tudo em ré maior e planilha de Excel.

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Slavo Dudek, ao receber a notícia, fez cara de monge em retiro espiritual: não arrependido, mas quase encantado com o poder de sua própria canetada. Descobrira em si um dom até então oculto, o de transformar a economia nacional em vaso sanitário público. Os banqueiros ligavam, arfando como asmáticos sem bombinha, dizendo que o dólar subira e que não conseguiam respirar. Ele, com a placidez de quem recomenda chazinho de boldo, dizia: “Respirem fundo, vai passar”.
Enquanto isso, em Washington, burocratas entediados riam como vilões de desenho animado: “Os brasileiros, esses gênios tropicais, conseguiram reinventar a burrice em escala industrial”.
E então, como num milagre grotesco, ressurgia um herói do passado: o Estudante Lendário, aquele que, numa noite de glória, evacuara no tapete de uma Reitoria que ficava onde Judas perdeu as botas. Entrevistado, confessava sentir-se superado. O gesto que antes era arte underground, performance digna de vanguarda parisiense, agora se tornara política de Estado. “A minha foi uma cagada artesanal”, dizia ele, melancólico. “A de Dudek é cagada institucional, carimbada, publicada no Diário Oficial. Digo isso como poesia. Até rima tem”.
Dizia o analista político, de forma sardônica, meio Luís Fernando Veríssimo de ressaca, meio Molière de terno de linho: “O Brasil é uma civilização que ergueu não catedrais, mas privadas entupidas. A Europa produziu Dante, os Estados Unidos produziram Lincoln, e nós produzimos cagadas – sempre grandiosas, sempre monumentais, sempre com cheiro de eternidade”.
No ato final, Slavo Dudek, orgulhoso de sua obra, ajeitou a toga como ator de teatro amador e declarou, olhando para a plateia invisível: “Não fiz cagada. Fiz história.”
E a plateia, entre gargalhadas e lamentos, sentiu o cheiro. A cortina caiu. O público tossiu. O odor, esse sim, permaneceu. Como todo legado nacional.
Por Astério de Natuba