O milagre da multiplicação das escolas desnecessárias
Maria Salete era pedagoga por diploma, cearense por nascimento e paraibana por formação acadêmica. Mas, acima de tudo, Salete era uma sobrevivente linguística. Passara a vida inteira em pé de guerra com a gramática. Para Salete, a prosódia era uma convenção elitista e a ortoépia, uma frescura de quem não tinha mais o que fazer. Se o mundo falava em “golpe”, Salete, com a autoridade de quem já nasceu com o punho em riste, falava em “gópi”. E se a “pobreza” assolava o estado, ela combatia a “probreza” com o vigor de quem troca um plural por uma convicção.
Era chamada de “professora” por todos. O epíteto grudara nela como chiclete em sola de sapato. O fato de Salete nunca ter pisado em uma sala de aula – exceto, talvez, para conferir o brilho do encerado ou para votar em alguma eleição – era um detalhe meramente burocrático. No Brasil, você não precisa ensinar para ser professor, assim como não precisa entender de economia para ser ministro; basta que as pessoas tenham medo de perguntar o que você realmente faz.
Salete fez carreira no sindicato, onde descobriu que gritar é mais eficaz do que explicar. Depois, o Parlamento. E, finalmente, o Palácio do Governo. Foi ali, sentada na cadeira estofada de couro legítimo, que a lista de amigos de infância de Salete cresceu de forma geométrica. Surgiram primos de terceiro grau, ex-vizinhos de berço e, principalmente, os especialistas em educação.
O problema de Salete era a demografia. A demografia é uma coisa chata, cheia de números e tendências que não respeitam a vontade política. Enquanto a população envelhecia e as maternidades ficavam às moscas, Salete queria construir escolas.

Imagem feita com auxílio de IA
– Governadora – dizia o técnico, limpando o suor da testa –, o pessoal está morrendo na fila do hospital. Precisamos de leitos. A pirâmide demográfica virou. Não tem mais criança.
– Bobagem – respondia Salete, ajustando os óculos. – Se não tem criança, a gente fabrica. O que o povo precisa é de educação. Vamos abrir mais dez unidades da Escola da Salvação Nacional.
Os assessores educacionais informais e formais de Salete vibravam. Mais escolas, mais cargos, mais projetos… afinal esse pessoal não vive de salários e, sim, de diárias, de jetons, de passagens, de projetinhos e, portanto, bolsas, bolsonas, bolsinhas e bolsetas.
E abria. Salete tinha o toque de Midas ao contrário: onde o orçamento dizia “zero”, ela enxergava um “oito” deitado, o infinito. Multiplicava recursos que não existiam para construir prédios que não teriam alunos. Os chaleiras aplaudiam. Cada tijolo assentado em uma escola que seria fantasma era celebrado como um avanço civilizatório.
– A senhora é uma visionária – dizia um assessor que esperava uma boquinha na Secretaria de Obras. – Construir escolas para alunos que ainda não nasceram é o auge do planejamento preventivo – dizia outro que pretendia ser diretor-geral. – Que maravilha! A senhora enxerga longe – vibrava o recém-aposentado pronto para ser contratado pela Fundação de Amparo à Pesquisa Inexistente (FAPI).
Salete sorria. O estado ostentava orgulhosamente um dos piores índices de educação do país, mas as fachadas das escolas eram impecáveis. Eram templos ao vazio. Salas de aula onde o silêncio era a única disciplina ensinada.
O ápice dessa trajetória metafísica aconteceu na última terça-feira. A Escola da Salvação Nacional – aquela que tinha mais cargos comissionados do que estudantes – resolveu homenageá-la. O título era pomposo: Professora Emérita.
A cerimônia foi uma pérola do absurdo. Salete, no centro do palco, recebia a placa de prata. O diretor da escola, num discurso emocionado, destacou os “relevantes serviços prestados à educação”. Houve quem chorasse. Era uma cena emocionante: uma plateia de pessoas que fingiam educar homenageando uma mulher que fingia ter ensinado, num prédio que fingia ser uma escola.
No fundo do auditório, dois assessores cochichavam: – Mas ela já deu aula de quê, mesmo? – De sobrevivência, meu caro. De sobrevivência.
Salete aproximou-se do microfone. O silêncio foi absoluto. Os puxa-sacos prenderam a respiração. – Eu agradeço – disse ela, com a voz embargada. – É um orgulho ver que, apesar de toda a “probreza” de espírito dos nossos opositores, a educação venceu o “gópi” e aqui, querides amigues, não haverá espaço para o “oido”.
Foi aplaudida de pé por cinco minutos ininterruptos. No dia seguinte, o Diário Oficial publicou a abertura de mais três escolas. Os hospitais continuavam sem gaze, mas as futuras crianças, aquelas que a demografia insistia em não enviar ao mundo, já tinham onde não estudar.
O compositor Tom Jobim um dia disse que o Brasil não é para amadores. Salete, por outro lado, diria que o Brasil é uma grande sala de aula. O problema é que o sinal já bateu, o professor não veio e a gente continua aqui, esperando o recreio que nunca chega.