Faltaram luzes
Deprimente – e a palavra ainda chega tímida – o que ocorreu ontem (sábado, 28/03) no IFRN Zona Norte. Deprimente no sentido mais rodrigueano possível: um espetáculo em que todos estão vestidos para a festa, mas alguém insiste em apagar a luz antes do brinde. E não foi metáfora. Cortaram a energia. Literalmente. E com isso, interrompeu-se um discurso e feriu-se o rito, rasgou-se a liturgia, sabotou-se o momento que pertence, por direito natural e suor acumulado, aos alunos.
Erro do reitor. Erro de quem decidiu que a melhor forma de protestar contra um desvio era produzir um desastre maior. Entre o excesso e o vandalismo simbólico, os formandos ficaram, no sentido elétrico e no simbólico, no escuro. A colação de grau, que deveria ser o instante em que a instituição se curva diante do esforço do aluno, transformou-se numa arena de vaidades, ressentimentos e gestos teatrais de gosto duvidoso.

Imagem feta com auxílio de IA
O professor José Arnóbio, atual reitor do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), não é um novato na arte peculiar de transformar solenidades em palanques. É um veterano. Desde os tempos em que dirigia o campus Natal Central, já ensaiava seus números. Havia sempre um bordão, quase litúrgico, mas de uma liturgia invertida, que abria suas falas: “Primeiramente, fora Temer”. Não era um desvio ocasional. Era método. Era estilo. Era, para usar uma palavra cara aos clássicos, hábito.
E é justamente aí que mora o problema: falta-lhe a noção do cargo que exerce. O poder, dizia José Sarney, aquela figura tantas vezes malhada pelos mesmos que hoje relativizam excessos no IFRN (e que viveu abraçando-se com Lula), exige liturgia. Não se trata de formalismo vazio, mas de respeito ao espaço público, à institucionalidade, ao papel que se ocupa. Há palavras que pertencem à rua, outras ao palanque, outras à sala de aula e há aquelas que devem ser ditas, com parcimônia, no recinto solene de uma formatura.
Os áulicos – aquela categoria eterna da vida pública brasileira, que atravessa impérios, repúblicas e repartições – certamente se apressarão em justificar o chefe. Dirão que é espontaneidade, coragem, compromisso político. Talvez até acreditem nisso. Ignoram – ou fingem ignorar – que a colação de grau não é propriedade privada de quem ocupa o cargo de reitor e, sim, um ato oficial de uma instituição federal de ensino, sustentada por recursos públicos, destinada a formar cidadãos e profissionais e não militantes de ocasião.
Mobilizemos Max Weber, não como ornamento intelectual, mas como bisturi. Em A ciência como vocação, o sociólogo alemão não está preocupado em ensinar ao professor como fazer política e, sim, como não a fazer no espaço errado. A sala de aula, para ele, não é palanque e o professor não é tribuno. A autoridade do docente não decorre de sua capacidade de arregimentar aplausos ou adesões, mas de sua disciplina intelectual, de sua honestidade metodológica, de sua capacidade de expor problemas sem sequestrar a consciência do aluno. E nesse ponto, Weber é quase cruel: o professor que usa sua posição para inculcar visões políticas, como se estivesse numa praça pública, comete uma espécie de fraude moral. Não porque lhe falte opinião, afinal todo homem tem, mas porque lhe falta contenção. A liberdade de cátedra, nesse sentido, não é licença para o proselitismo, mas responsabilidade ampliada. É o direito de ensinar sem censura, mas também o dever de não transformar o ensino em catecismo. E o que vale para a sala de aula vale, com ainda mais razão, para a solenidade institucional. Uma colação de grau não é extensão da tribuna universitária, nem muito menos comício disfarçado de protocolo. É rito e símbolo, pois é momento em que a instituição fala menos de si e mais daqueles que a atravessaram. Quando essa fronteira se dissolve, nasce o espetáculo que vimos. A solenidade deixa de ser um rito coletivo e se converte em palco de afirmação pessoal e, como todo palco mal utilizado, acaba gerando reação. A energia cortada não foi apenas um ato técnico ou um protesto improvisado. Foi o ápice de um ambiente contaminado, no qual cada gesto chama um gesto contrário, cada excesso convida outro ainda maior e assim vai. Mas que fique claro – e aqui é preciso dizer com todas as letras: quem desligou a energia errou grotescamente, porque não atingiu os alunos, e não o reitor. Não corrigiu um desvio; produziu outro. Não defendeu a instituição; aviltou-a.
Num país minimamente civilizado, a discordância se exerce pela palavra, pela crítica, pela recusa, nunca pela sabotagem de um rito que pertence, antes de tudo, aos formandos e às suas famílias. E aqui faço uma digressão – necessária, urgente, pedagógica – sobre a democracia liberal, um modelo imperfeito, tantas vezes vilipendiado por ignorância ou má-fé, e que se sustenta numa ideia simples e poderosa, a saber, a de que a liberdade individual inclui o direito de dizer o que desagrada, de ouvir o que incomoda, de tolerar o que se rejeita. Não há liberdade apenas para os aplausos; ela existe, principalmente, para o incomodar. O seu preço não é o conforto, mas a convivência com o desconforto. Defender a liberdade implica suportar discursos que nos irritam, que nos parecem deslocados, até mesmo inadequados. Cortar a energia de uma solenidade porque se discorda de uma fala é, no fundo, uma confissão de incapacidade de conviver com a divergência. É a vitória do impulso sobre o princípio.
Tenho vinte anos de casa. Vinte anos de IFRN. E não é de hoje que observo – ora com ironia, ora com desalento – a transformação de formaturas em arenas de politicagem miúda, de chaleirismo desavergonhado, de discursos que se pretendem históricos, mas que não resistiriam a uma semana de esquecimento. Desde 2021, não vou a uma única colação de grau. Recuso convites com a disciplina de um monge. Fui com frequência até 2019, é verdade. Depois, percebi que há espaços aparentemente muito menos nobres e essencialmente mais dignos.
E, caríssimos, não me venham com a cantilena gasta e puída de que a educação técnica e tecnológica no Brasil nasceu ou renasceu sob Luiz Inácio Lula da Silva. Isso não é apenas um exagero, é uma falsificação histórica. O que hoje conhecemos como rede federal tem raízes que remontam a um mestiço, Nilo Peçanha, presidente que sucedeu a Afonso Pena e que ainda no início do século XX, criou as escolas de aprendizes artífices. Um gesto que, à época, tinha tanto de política pública quanto de visão civilizatória.
No Rio Grande do Norte, essa história também tem nomes que não cabem na narrativa oficial ou que dela foram silenciados, quando convenientemente expulsos. Luís Carlos Abbot Galvão é um desses. Figura decisiva, mas raramente lembrada, exceto pelos mais antigos. Como tantas outras, soterradas pela memória seletiva das instituições, que preferem os heróis do presente às bases do passado.
É possível dizer, com justiça, que os governos recentes de Lula e de Dilma ampliaram a rede criando novos campi. Isso é fato e é mérito. Mas expansão não é sinônimo de origem, nem de monopólio histórico. E aqui é necessário pontuar algo que raramente aparece nos discursos oficiais, mas que pulsa no cotidiano silencioso dos campi: o orçamento. Muitos campi do IFRN operam com recursos minguados, comprimidos, insuficientes para as demandas mais básicas. Laboratórios que envelhecem sem reposição, manutenção adiada, projetos reduzidos à sobrevivência. Parte desse estrangulamento, e isso precisa ser dito sem rodeios, decorre da concentração de recursos na reitoria. O orçamento global é descentralizado apenas parcialmente, enquanto parcelas significativas permanecem sob gestão central, destinadas a custeio administrativo, contratos amplos, estruturas que nem sempre dialogam com as necessidades concretas de cada campus, situação que cria, na prática, uma assimetria: unidades que estão na ponta, lidando diretamente com alunos, professores e infraestrutura, acabam disputando migalhas, enquanto a cúpula administra o grosso dos recursos. É uma espécie de federalismo interno às avessas, centralizador, opaco, pouco sensível às especificidades locais e que distribui nacos de verba para parceiros próximos. O reitor poderia tratar disso nas reuniões dos campi e nas solenidade de formatura. Não o faz porque a situação criaria embaraços para ele e para os seus.
O resultado da equação toda aparece em cenas como a de ontem. Não como causa direta, mas como pano de fundo. Instituições tensionadas, orçamentos apertados, ambientes politizados ao extremo, tudo isso compondo um caldo no qual o erro deixa de ser exceção e passa a ser quase inevitável. Por isso, meus três ou quatro leitores, aquilo que ocorreu ontem no IFRN Zona Norte foi um incidente, mas mais do que isso, foi um retrato incômodo, exagerado, quase grotesco, como convém às melhores tragédias brasílicas. De um lado, um reitor que parece confundir tribuna institucional com palanque; de outro, uma reação que, ao tentar corrigir o excesso, mergulha no absurdo. No meio de tudo isso, os alunos, sempre eles. Os únicos que não erraram e que pagaram o pato. Os únicos que, vestidos para a festa, terminaram a noite no escuro, literal e simbolicamente.