O navio dos tolos e a fábrica de analfabetos: a tragédia da educação brasílica
O Brasil é um vasto laboratório de experiências malogradas e seguindo a opção de forma literal decidiu que ensinar a ler é uma atividade secundária, um detalhe técnico aborrecido que empalidece diante da urgência de “transformar o mundo” antes mesmo de decifrar o alfabeto.
Enquanto nações sérias se debruçam sobre a ciência para entender como os neurônios se conectam e formam o milagre da leitura, nestes tristes trópicos preferimos o conforto das nuvens ideológicas, nas quais a realidade é uma intrusa indesejada e os dados estatísticos são tratados como heresias contra a pedagogia do oprimido.
Vamos dar nome aos bois, ou melhor, aos profetas desse deserto intelectual.
A educação brasileira não é vítima de um acidente e, sim, resultado de uma convergência deliberada e funesta. De um lado, o messianismo de Paulo Freire, que elevou a alfabetização à categoria de “ato político”, como se um menino de sete anos precisasse de um manifesto partidário antes de aprender que o som da letra B com A resulta em BA. Do outro, o socioconstrutivismo de Piaget e Vygotsky, mal compreendido e pior aplicado, que transformou o professor em um “mediador” decorativo e o aluno em um náufrago abandonado à própria sorte na construção de um sentido que ele ainda não tem ferramentas para erguer.
O que essas correntes têm em comum?
Um desprezo aristocrático pela técnica. Sob o pretexto de priorizar o “contexto social” e a “função social da escrita”, a pedagogia dominante no Brasil decidiu que a instrução explícita é mecanicista, bancária ou, o pecado capital dos nossos tempos, conservadora. O foco deslocou-se da instrução direta para a experiência, como se a fluência na leitura pudesse ser contraída por osmose ou por um diálogo místico com o meio ambiente.
O resultado dessa pajelança pedagógica está escarrado nos dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb): cerca de metade das crianças brasileiras, ao final do 2º ano, não está plenamente alfabetizada. É um massacre (https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/avaliacao-e-exames-educacionais/saeb/resultados). É o extermínio do futuro de milhões de jovens em nome de uma pureza teórica que nunca entregou efetivamente o que prometeu. Vivemos há décadas sob o mesmo regime de diretrizes curriculares e formações docentes que moldam a mente de quem deveria ensinar, mas o que entregamos são legiões de analfabetos funcionais capazes de repetir slogans, mas incapazes de compreender um editorial de jornal.
Sempre li sobre o assunto, mas de uns tempos para cá resolvi ir um pouco mais a fundo para conseguir entender razoavelmente sobre e o que constato é estarrecedor. Enquanto nossos teóricos se perdem em divagações sobre “palavras geradoras” e a “leitura do mundo antes da leitura da palavra”, uma frase de efeito que, na prática, serve apenas para camuflar a incapacidade de ensinar a ler a palavra de fato, a ciência avançou sem pedir licença aos comissários do povo educacional.
O National Reading Panel, já no ano 2000, após analisar centenas de estudos experimentais, foi taxativo: a instrução fônica sistemática é o que melhora a precisão e a fluência (chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://www.nichd.nih.gov/sites/default/files/publications/pubs/nrp/Documents/report.pdf). Não é uma opinião; é uma conclusão baseada em metanálises que os nossos conselhos de educação insistem em ignorar.
O neurocientista Stanislas Dehaene, neurocientista cognitivo francês, referência mundial no estudo dos mecanismos cerebrais da leitura, cálculo e consciência, professor do Collège de France e diretor de uma renomada unidade de Neuroimagiologia Cognitiva, tornou-se famoso por suas pesquisas sobre a reciclagem neuronal na alfabetização, defendendo o ensino fônico, é hoje um dos maiores especialistas do mundo no funcionamento do cérebro humano. Ele demonstrou por meio de neuroimagens o óbvio ululante que a nossa pedagogia crítica tenta esconder: o cérebro consolida a leitura quando aprende explicitamente a mapear letras em sons. Sem esse ensino direto, sistemático e rigoroso, não há automatização. Ensinar de maneira explícita não é ser mecanicista; é ser honesto com a biologia do aluno. É dar a ele a chave da autonomia intelectual. Sem o domínio do código, a tal leitura do mundo é apenas um palpite influenciado por quem grita mais alto.
Pois bem, enquanto o Brasil insiste em patinar no lodo do atraso, países que decidiram levar a educação a sério fizeram mudanças estruturais. O Reino Unido tornou a política nacional de ensino fônico obrigatória. A Austrália revisou seus currículos com base na ciência da leitura e hoje preconiza o ensino explícito e sistemático da língua. Nos Estados Unidos, diversos estados aprovaram legislações que blindam a sala de aula contra as modas pedagógicas sem evidências, garantindo o direito da criança de aprender a ler pelo método que comprovadamente funciona. Por aqui, qualquer tentativa de introduzir a ciência no debate é recebida com o ranger de dentes dos guardiões da ortodoxia freiriana. Para essa turma, a evidência cognitiva é um “posicionamento político” de direita. E, aí, meus três ou quatro leitores, dá-se o triunfo da ideologia sobre a inteligência e fica mantido o modelo segundo o qual as crianças devem ser mantidas na escuridão do analfabetismo para que não seja admitido que os manuais sagrados estão obsoletos.

Imagem feita com auxílio de IA.
A situação é substantiva porque lida com o destino da nação, mas é corrosiva porque a estrutura que deveria proteger o conhecimento foi sequestrada por uma fábrica de ideologias. O que se vê nas faculdades de educação é a reprodução infinita de documentos orientadores que repetem os mesmos erros de trinta anos atrás, como se a repetição do mantra pudesse alterar a realidade dos rankings internacionais, nos quais o Brasil amarga as últimas posições. É a vitória no Brasil, para citar a ironia de Mário Henrique Simonsen, Brasil, da “ciência regida pela contraindução”.
A escola que “usa Paulo Freire” não precisa ostentar o retrato do patrono na parede, pois ele está presente na matriz teórica que despreza o treino, na formação docente que substitui a didática pela militância e na concepção de alfabetização que vê na técnica um inimigo da liberdade. É a autonomia de não saber ler.
Está claro: forma como baseamos o ensino da leitura e da escrita no país não está funcionando. É uma erro acadêmico que cobra seu preço em vidas desperdiçadas e produtividade estagnada. A ciência da leitura não é de esquerda nem de direita; ela pertence ao campo da verdade factual. Continuar ignorando as evidências em nome de um romantismo pedagógico falido é mais do que um erro: é um crime de lesa-pátria cometido contra as gerações que ainda nem aprenderam a escrever o próprio nome.