O candidato de ontem e o cadáver de amanhã
Nélson Rodrigues dizia que todo político finge que é santo, mas não resiste a uma espiada pelo buraco da fechadura do poder.
Pensei nisso enquanto aguardava consulta médica e vi notícia sobre a mais nova candidatura presidencial, das brumas do planalto Central: Ronaldo Caiado. Logo comecei a rascunhar no bloco de notas as ideias que iam surgindo. Ao final da espera, estava com o texto quase todo pronto.
Caiado ostenta o título de direitista como quem exibe uma cicatriz de duelo no rosto. Diz que o é desde os anos 1980, época em que ser de direita era, para a nossa “intelectualidade” de botequim, uma obscenidade maior do que adultério no confessionário.
Enquanto a multidão se acotovelava na sombra do muro de Berlim, Caiado já mastigava o seu conservadorismo com o rigor de um coronel que não admite sapatos sujos na varanda.
Dizem as más línguas — essas hienas que povoam as redações e os salões acarpetados — que ele será apenas uma “linha auxiliar”, uma espécie de dama de companhia para o bolsonarismo moribundo. Ora, na política, como nas tragédias de subúrbio, ninguém quer ser o padrinho do casamento; todos querem é a noiva, mesmo que ela venha com o dote em promissórias furadas.
Olhemos para o herdeiro, o tal 01. Flávio Bolsonaro carrega consigo o peso de um sobrenome que é, ao mesmo tempo, um pedestal e uma lápide. Mas há o “telhado de vidro”. Ah, o vidro! Essa substância frágil que a imprensa adora apedrejar com o prazer sádico de uma criança que arranca as asas de uma mosca. Se os “podres” forem sacudidos sob a luz do sol, a candidatura do jovem senador não terá a consistência do mármore e, sim, a do Cebion, aquele comprimido efervescente que, jogado num copo d’água, chiado e borbulha freneticamente, formando uma água alaranjada, insossa e sem destino.
É nesse vácuo, nesse silêncio que se segue ao espirro da dissolução, que Caiado pretende cravar a sua bota de montaria.
Mas não se enganem, meus três ou quatro leitores. O PSD, um aglomerado de interesses que mudam de cor conforme a luz do meio-dia, baila com qualquer um.
Caiado sonha com a titularidade, com os louros da vitória, com o desfile em carro aberto sob o olhar de adoração das viúvas do regime. No entanto, o perigo não vem do inimigo declarado, mas do beijo do aliado.
O risco é a “cristianização”. Ser deixado no altar, sozinho, enquanto o partido foge pela janela dos fundos para se deitar com o primeiro que prometer um ministério ou uma diretoria de estatal.

Imagem feita com auxílio de IA
Na política brasileira, o “eu te amo” vale menos que um bilhete de loteria que já passou da data do sorteio. Caiado que se cuide: entre o palácio e o abismo, o tapete é sempre puxado por quem segura o seu braço.