O equívoco dos gabinetes distantes
Natal tem essa mania de ser palco e, muitas vezes, de ser o próprio drama, enquanto o resto do país insiste em olhar para as nossas dunas apenas como paisagem. Pesquisando para escrever um trabalho sobre os eventos de 1935 em Natal, reli, com o vagar que os dias atribulados exigem, a biografia de Luís Carlos Prestes escrita pelo professor Daniel Aarão Reis, um craque de nossa academia. O título é vistoso, Luís Carlos Prestes – um revolucionário entre dois mundos, mas, ao chegar às passagens que tocam o chão de nossa província, percebe-se que o autor, embora navegue com a destreza que lhe é peculiar por mares nacionais e internacionais, naufragou nas águas do Potengi.

O pecado de Aarão Reis não é a falta de escrita, que é excelente, mas a falta de “chão”. Ao tratar da revolta comunista de 1935, esquece (ou ignora) que o primeiro ato dessa tragédia brasileira não se deu nos salões do Rio de Janeiro, nem nas casernas de Pernambuco, mas aqui, no silêncio quebrado de Natal. E o erro, caro leitor, é de uma clareza solar: o autor parece não ter aberto um único livro sequer da bibliografia potiguar sobre o evento. É como querer descrever a missa sem ter entrado na catedral.
Falta ali, de forma gritante, a presença de Homero Costa. Não se pode falar de 35 sem passar pelas páginas de A Insurreição Comunista de 1935 – Natal, o primeiro ato da tragédia. Homero narra e disseca o movimento em solo potiguar com a precisão de um cirurgião. Ao ignorá-lo, o biógrafo de Prestes condena sua obra a um vazio documental que nem a melhor prosa consegue preencher. E a lista de ausências continua, como se o autor tivesse decidido que a história feita no Rio Grande do Norte não precisasse de testemunhas locais. Onde estão Edgar Barbosa e sua História de uma campanha? Onde está a memória viva de João Maria Furtado em Vertentes, ou o relato de João Medeiros Filho sobre aquelas 82 horas de subversão?
O resultado dessa distância de gabinete são erros que fariam corar os velhos cronistas do Instituto Histórico e Geográfico. Aarão Reis tropeça na gramática da nossa política doméstica. Chama os partidários do interventor Mário Câmara de camaristas, fiando-se apenas em documentos oficiais, como os do Departamento de Polícia Especial do Distrito Federal, elaborados nos gabinetes ou nos porões policiais do Rio de Janeiro, então capital da República. Aqui, nas terras de Poti, os seguidores de Mário Câmara eram chamados de maristas, conforme a bibliografia citada (e a não citada) nesta crônica sobre os acontecimentos políticos da década de 1930. Pode parecer um detalhe de som, mas na política, o nome é o DNA do poder.

E a confusão não para na nomenclatura das facções. O autor troca as bolas – e os nomes – com uma facilidade desconcertante. Na página 181, o governador Rafael Fernandes vira um tal de “Raul Fernandes”. Pior, em um lance de imaginação que desafia a cronologia e a geografia, coloca Dinarte Mariz no combate da Serra do Doutor. Dinarte, que viria a ser o senhor das vontades do estado, não estava naquele roteiro daquela forma. Errar o nome de um governante ou a posição de um líder em um combate não é apenas um lapso de revisão; é um sintoma de quem olha para o mapa potiguar como se fosse terra incógnita.

Mas o que mais ressoa como uma nota fora do tom é a afirmação, na página 179, de que não houve movimentos guerrilheiros no Brasil dos anos 1930. Se o professor tivesse estendido o braço e alcançado O Sindicato do Garrancho, da professora Brasília Carlos Ferreira, teria encontrado ali o desenho de uma resistência que não cabe em teses prontas. O Garrancho está lá, com sua força telúrica e sua organização própria, desmentindo a generalização apressada que costuma marcar os livros escritos com os olhos postos apenas no eixo Rio-São Paulo.
A história, como a boa crônica, exige o respeito ao detalhe. Quando se escreve sobre uma figura da estatura de Prestes, não se pode tratar o cenário de suas lutas como um detalhe periférico. Natal não foi um eco, foi a voz que começou o coro. Sem Homero Costa, sem Brasília Carlos Ferreira, sem o reconhecimento dos nossos maristas e o nome correto de Rafael Fernandes, a biografia de Prestes continua sendo um livro sobre um revolucionário entre dois mundos, mas um desses mundos, o nosso, ficou de fora da fotografia.
Fica o registro: Luís Carlos Prestes – um revolucionário entre dois mundos, é um livraço, mas pelos olhos de quem conhece a história que o vento das dunas não apaga, os erros de Daniel Aarão Reis, sem dúvida um de nossos maiores historiadores, são o preço que se paga pelo vício acadêmico de achar que o Brasil termina onde começa o horizonte do Planalto Central. Aqui, em 35, a tragédia teve nome, sobrenome e uma bibliografia que merecia, no mínimo, o respeito de uma consulta e a necessidade de um citação.