O Sistema: a nossa jabuticaba política (1)
Sentei-me, durante o Carnaval, para escrever um texto curto (uma lauda e meia, ou 800 palavras), mas as ideias vieram com força e, quando percebi, tinha quase oito laudas em mãos. Na quarta de cinzas, logo cedinho, dividi o material em três partes. Soltá-lo-ei aos pedaços.
Lulistas e bolsonaristas amigos meus ficarão chateados com o conjunto. É da vida. Como disse certa vez o filósofo contemporâneo Vicente Matheus: “Quem sai na chuva é para se queimar”.
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O Sistema é a maior ficção da política brazuca, com a vantagem de que não precisa de roteirista, pois cada um inventa o seu. O fragmento que circula nos bastidores da República é cirúrgico. Lula, que passou as últimas décadas distribuindo as cartas da mesa, agora quer posar de quem nunca entrou no cassino. Vai investir no discurso de candidato contra o “sistema”, esse nome fantasia que os populistas, à esquerda e à direita, usam para batizar o que não conseguem dobrar.
Para o populista, o Sistema é uma espécie de Projac das elites. Uma cenografia montada por forças ocultas – ora o mercado, ora o estamento – para impedir que o povo alcance o paraíso. Na verdade, o Sistema é o outro. É quem impõe limites, quem cobra a fatura e quem, por dever de ofício, tem a petulância de dizer “não” ao soberano. E, aí, entra o álibi da pureza
O populismo não é uma ideologia, é um método de captura. Jan-Werner Müller, em sua anatomia do tema, explica que o populista reivindica o monopólio moral da representação. “Só eu e minha grei somos puros, o resto é podridão”, diz a cartilha de qualquer populista. Quando o líder afirma que a política apodreceu, ele não está fazendo uma crítica sociológica ao clientelismo que ele mesmo operou, está preparando o terreno para a demolição das instituições que o fiscalizam.
Se a política está podre, o Parlamento é um balcão, o Judiciário é um partido e a imprensa é uma fábrica de crises. Sobra apenas o Líder e sua grei, castos e imaculados, em contato direto com a alma da nação. É o triunfo da vontade geral de Rousseau, ideal para quem acredita que a democracia é um cheque em branco assinado na urna, e não um conjunto de regras de convivência chatas e necessárias.
O Sistema, portanto, é a institucionalidade. São os freios e contrapesos que irritam quem tem pressa de mandar e alergia de ser controlado. Vilfredo Pareto, o pai da teoria das elites, soltaria um riso curto. Para ele, a história é um “cemitério de aristocracias”. O populista é apenas a ponta de uma elite ascendente que, para derrubar a elite encastelada, convence a plateia de que está lutando contra a própria ideia de elite. No dia seguinte à posse, o populista vira o Sistema, mas continua gritando contra ela para manter a militância aquecida.
A ironia é que a direita e a esquerda autoritárias leem o mesmo manual, trocando apenas os vilões no rodapé. Para esta, o Sistema é o capital financeiro e a mídia golpista; líder é um pai dos pobres injustiçado por uma conspiração de terno e gravata. Par’aquela, o Sistema é o globalismo e as cortes superiores; o líder é o herói da liberdade perseguido por uma conspiração de toga, de milionários, etc.
Em ambos os casos, o objetivo é a deslegitimação do contraditório. Pierre Rosanvallon chama isso de contrademocracia. Quando o governante se coloca como o único intérprete legítimo do povo, qualquer oposição vira traição. O “conluio de forças” mencionado no fragmento é o álibi perfeito para o fracasso. Se a inflação sobe ou o PIB não anda, a culpa nunca é da gestão, mas do Sistema que sabotou o projeto de “fazer o país feliz”. O poder, aí, é sempre casto.
O perigo reside justamente na palavra “casto”, afinal, a busca pela pureza absoluta, na política, é o antepasto do autoritarismo. Hannah Arendt já ensinava que a política é o reino da pluralidade, do cinzento e do acordo possível. Logo – a conclusão é minha – a quando alguém se propõe a ser o detergente que vai limpar o Sistema, geralmente acaba jogando fora a democracia junto com a água suja.

Imagem feita com auxílio de IA
Lula e sua grei, ao investirem nesse figurino, não estão inovando. Estão apenas reciclando o velho populismo latino-americano que prefere o confronto ao contrato. A política não apodreceu; ela apenas se tornou complexa demais para quem só sabe falar em slogans. O Sistema, com todos os seus vícios, é o que nos separa da barbárie do salvador da pátria de plantão. No fim das contas, o populista que ataca o Sistema é como o sujeito que quebra o termômetro porque não gosta da febre. A febre continua lá, mas agora estamos no escuro.
Sejamos didáticos:
1) Lula quer ser opor ao Sistema. É o mesmo que o dono do cassino reclamar que o jogo é viciado. Não esqueçamos: Lula está no centro da política brasileira há quase cinco décadas: Há quase duas dentro do Palácio do Planalto (12 como presidente e seis com uma presidente por ele escolhida). Ele deu as cartas nas últimas décadas, mas agora quer convencer a freguesia de que acabou de chegar ao salão.
2) No Planalto, dizem que é “estratégia de comunicação”. Na vida real, porém, é a velha tática de criar um monstro debaixo da cama para esconder que o governo perdeu a chave da porta.
3) O populismo é uma doença da democracia, contudo ele só prospera quando as instituições estão anêmicas. Se o Sistema fosse um pouco mais eficiente na entrega e menos nababesco nos privilégios, o discurso do “nós contra eles” perderia o oxigênio.
4) É necessário que alguém avise ao pessoal da grei casta que, na política, quem se diz muito puro geralmente está escondendo a sujeira debaixo de um tapete bem grande. O problema do tapete é que, cedo ou tarde, alguém tropeça nele, e…