Os labirintos do poder: a trajetória política de Henrique Eduardo Alves
O texto que segue é uma ampliação de outro (O fio comprido de Henrique), publicado no Diário do RN, dia 17/03 (terça-feira).
Escrevi o texto para o matutino de Túlio Lemos depois de assistir, dias antes, à entrevista de Henrique Eduardo Alves na 98 FM. Essas entrevistas de rádio, feitas entre o cheiro de café e a pressa da pauta, têm uma virtude rara: devolvem a política à escala humana. Sem o verniz da televisão, sem a solenidade do plenário, resta o personagem e sua memória. E a memória de Henrique é comprida. Por isso o título que dei ao texto acima citado.
Na política do Rio Grande do Norte, poucos personagens carregam uma biografia tão extensa quanto a de Henrique Eduardo Alves. Sua história se confunde com a do velho Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido que nasceu como oposição consentida à ditadura e acabou se transformando num amplo condomínio de sobreviventes políticos – uma legenda que atravessou regimes, presidentes e crises com a mesma habilidade de um vaqueiro que conhece cada vereda da caatinga.
Henrique chegou à política ainda rapaz, quando o regime autoritário nascido em 1964 cassou, no início de 1969, os direitos políticos de seu pai, Aluízio Alves (e de seus tios Agnelo e Garibaldi). Aluízio virtual candidato a governador em 1970, se o pleito fosse direto. A sua cassação foi mais que um ato administrativo do regime; foi uma tentativa deliberada de silenciar uma linhagem política que incomodava. E, aí, a geração seguinte foi obrigada a entrar em campo antes do tempo. Henrique e Garibaldi Filho foram candidatos, respectivamente, à deputação federal e estadual.
A política tem dessas ironias quase literárias: quando o poder fecha uma porta, abre uma vocação. Assim, aos 22 anos, Henrique ingressou no MDB e se elegeu deputado federal e começou uma carreira que mais parece uma maratona parlamentar. Vieram onze mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados, algo que diz muito sobre a persistência de um homem e, também, sobre a lógica da política brasileira, na qual a sobrevivência institucional é quase uma forma de sabedoria.
Durante os anos duros da ditadura, Henrique não foi um tribuno incendiário. Não fazia discursos violentos e virulentos nem se entregava à retórica heroica que a posteridade costuma premiar. Sua atuação era mais discreta, mais pragmática, típica da ala moderada do MDB. Enquanto alguns denunciavam o regime nas tribunas, Henrique cultivava a política da articulação. Mantinha viva, no interior do estado, a chama do aluizismo, corrente política que combinava carisma popular, comunicação moderna e uma habilidade incomum para construir alianças. Quando a reforma partidária de 1979 dissolveu o MDB e permitiu a criação de novos partidos, Henrique seguiu para o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), herdeiro direto da velha oposição. Era o partido que se tornaria o eixo da transição democrática brasileira.
Na primeira metade dos anos 1980, o país assistiu a um dos momentos mais vibrantes de sua história política: a campanha das Diretas Já. Praças cheias, bandeiras agitadas e uma população que começava a reaprender o gesto de pedir voto direto. Derrotada a Emenda Dante de Oliveira, Henrique esteve ao lado do pai na articulação da aliança que levou ao poder a Aliança Democrática, chapa formada por Tancredo Neves e José Sarney. Era o início da Nova República e, também, de uma nova etapa em sua carreira.
Nos anos seguintes, Henrique se especializou em um tipo de política que raramente aparece nas fotografias oficiais: a política da engenharia parlamentar. Foi deputado constituinte na Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988, trabalhando sobretudo em temas ligados à administração pública e à comunicação. Depois disso consolidou sua reputação dentro da Câmara. Não era um deputado de frases memoráveis, mas de regimentos decorados. Conhecia os meandros do funcionamento legislativo com a precisão de um relojoeiro. Sabia quando acelerar uma votação, quando adiar uma crise e quando montar uma maioria. A ciência política contemporânea descreve esse tipo de personagem com certo respeito analítico.
Para o cientista político Sérgio Abranches, o Brasil vive sob o chamado presidencialismo de coalizão, um sistema no qual o presidente governa apenas se for capaz de construir amplas alianças no Congresso. Nesse modelo, figuras como Henrique são essenciais. Outros estudiosos, como Fernando Limongi e Argelina Figueiredo, demonstraram que o Congresso brasileiro funciona menos como um campo de caos e mais como uma máquina institucional complexa, na qual líderes partidários e operadores parlamentares desempenham papel decisivo na organização das maiorias. Henrique era exatamente esse tipo de operador.
Durante os governos de Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, tornou-se um dos nomes mais influentes do PMDB na Câmara. Não era um líder de massas, mas um especialista em bastidores, aquilo que o cientista político Barry Ames chamaria de empreendedor legislativo, alguém capaz de transformar regras institucionais em poder político.
Esse longo aprendizado levou Henrique ao ápice de sua carreira em 2013, quando foi eleito presidente da Câmara dos Deputados do Brasil.
O momento era dramático, pois o país vivia a ebulição das Manifestações de Junho de 2013. Milhões de brasileiros ocupavam as ruas pedindo reformas, criticando partidos e cobrando mudanças institucionais. O Congresso, subitamente acuado, tentou responder com uma agenda de reformas políticas que jamais se concretizou plenamente. Henrique presidia a Câmara naquele ambiente turbulento, quando cada votação parecia uma tentativa de reconciliar o sistema político com uma sociedade desconfiada.
Mas a política, como a literatura, raramente oferece finais lineares.
No Rio Grande do Norte, Henrique tentou converter sua longa carreira legislativa em poder executivo. Disputou a prefeitura de Natal em 1988 e novamente em 1992, sem sucesso. Em 2014 concorreu ao governo do estado. Perdeu. Derrotas que mostraram um fenômeno curioso: o capital político acumulado no Congresso nem sempre se traduz em força eleitoral local. O sistema partidário brasileiro, como analisa Scott Mainwaring, é altamente fragmentado e marcado por bases eleitorais muito personalizadas. Henrique tinha poder em Brasília. No estado, enfrentava uma arena mais competitiva e mais dispersa. Apesar disso, durante décadas foi o rosto do MDB no Rio Grande do Norte. Mantinha uma rede política que atravessava prefeitos, vereadores e lideranças regionais. Às vezes em aliança com outras oligarquias; às vezes em confronto direto com elas.
Essa convivência entre famílias políticas não é exceção no Brasil. É regra. O próprio MDB sempre foi um partido peculiar: menos uma organização ideológica e mais uma federação de lideranças regionais. Sobreviveu justamente por sua capacidade de abrigar diferenças e negociar interesses.
A fase final da trajetória de Henrique coincidiu com uma das maiores crises da democracia brasileira, quando o governo de Dilma Rousseff entrou em colapso político e o PMDB decidiu abandonar a base governista. Henrique foi um dos defensores desse movimento, que culminaria no impeachment de 2016. Era o velho partido exercendo sua habilidade histórica de reposicionamento.
Henrique assumiu o Ministério do Turismo no governo de Michel Temer. Era o símbolo da presença constante do MDB no coração do poder brasileiro.
Mas a política também cobra seus preços.
Henrique enfrentou investigações e acusações no contexto das grandes operações anticorrupção da década de 2010, como a Operação Lava Jato. Chegou a ser preso preventivamente em 2017, episódio que marcou profundamente sua trajetória pública. Um momento em que o velho operador político se viu subitamente transformado em personagem de um novo tempo, um tempo em que o sistema político inteiro passou a ser julgado não apenas pelas urnas, mas também pelos tribunais e pela opinião pública digital.

Imagem feita com auxílio de IA
Entre vitórias e derrotas, glórias e acusações, a trajetória de Henrique Eduardo Alves acabou se tornando uma espécie de retrato da própria política brasileira nas últimas cinco décadas.
Ele não foi um herói épico, desses que entram para os livros escolares. Tampouco um rebelde romântico. Foi algo mais comum — e talvez mais verdadeiro: um sobrevivente institucional. Alguém que compreendeu, desde cedo, que a política brasileira não é feita apenas de discursos ou ideologias. É feita de alianças, de persistência e de uma extraordinária capacidade de atravessar tempestades. Como o sertão, aliás, que não é feito de atalhos, mas de travessias.
E algumas travessias, como a de Henrique, atravessam meio século.