O Fico do cafezinho

por Sérgio Trindade foi publicado em 17.mar.26

ficos e há fiascos. No Brasil, os dois costumam usar o mesmo figurino. Quando Fátima Bezerra anuncia, com a solenidade de uma ata de condomínio, que ficará até o fim do mandato e não disputará o Senado, está falando e está fazendo o que a política faz de melhor: encenar a virtude quando o roteiro já foi decidido no camarim.

Não nos enganemos: todo fico tem cheiro. O do regente D. Pedro cheirava a pólvora, cavalo suado e ruptura. Era um fico de peito aberto, de quem não tinha a menor vocação para a modéstia. O de Fátima, perdoem-me, tem aroma de café requentado em repartição pública, aquele que ninguém quer, mas todos fingem que está ótimo.

Pedro ficou para nascer na História. Fátima fica para não morrer na estatística.

Há nisso uma diferença obscena. O futuro imperador gritava contra um império; a governadora parece cochichar com as planilhas. Um enfrentava Lisboa; a outra negocia com pesquisas de opinião, essas espécies de tias fofoqueiras de jaleco metodológico que dizem quem sobe, quem cai e quem deve sair de fininho antes que a luz acenda. Porque o poder, meus três ou quatro leitores, é uma amante cruel: enquanto você a serve, ela lhe chama de indispensável; quando você hesita, ela já está flertando com o próximo. E ninguém, absolutamente ninguém, abandona o Senado por vocação franciscana. Há sempre um motivo menos nobre, mais humano, mais prosaico.

Dirão os ingênuos que e coerência. Eu respondo: é cálculo com blush. Dirão os crédulos: é compromisso com o mandato. Eu retruco: é compromisso com o espelho, esse tirano silencioso que, um belo dia, devolve não o herói, mas o desgaste.

O fato é que o fico virou, entre nós, uma palavra elástica, que tanto serve para a bravura quanto para a prudência envergonhada. Há ficos que são punhos cerrados; outros, mãos abanando. Há ficos que inauguram países; outros, que apenas evitam vexames. E este, convenhamos, tem uma certa elegância defensiva. Fica-se para não se expor, para não medir forças, para que a derrota não precise de urna – basta a suspeita.

Nelson Rodrigues disse que o brasileiro tem pudor até da própria ambição. Quer o poder, mas não quer parecer que quer. Sonha com o Senado, mas, diante do espelho, prefere dizer: “Não, obrigado, fico onde estou”. É a modéstia como estratégia, a renúncia como marketing, a desistência de salto alto. E enquanto isso, o estado, esse personagem secundário, sempre traído, continua ali, assistindo ao monólogo. Porque, no fundo, a política local tem algo de novela em reprise: os mesmos rostos, os mesmos conflitos, as mesmas frases ditas com ar de novidade. E o mais cruel: que ninguém se surpreende. A plateia já aprendeu a aplaudir antes do final, como quem quer ir embora mais cedo.

Imagem feita com auxílio de IA

O fico de hoje será o talvez de amanhã, seguido de um quem sabe depois de amanhã. A biografia, uma ficção organizada, agradece.

Dom Pedro ficou e fez barulho. Fátima fica e pede silêncio. Um precisava de testemunhas; a outra, de discrição. Um rasgou o script; a outra parece tê-lo lido com atenção e decidido não improvisar. É o que temos: um Rio Grande do Norte que continua sendo um teatro de peças mesquinhas no qual os personagens juram permanência enquanto ensaiam a saída. E nós, pobres espectadores, seguimos assistindo, não por esperança, mas por vício.

No Brasil, caros, o fico pode ser uma forma elegante de ir embora sem sair do lugar.

 

 

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