O jogo que ninguém quer

por Sérgio Trindade foi publicado em 16.jan.26

Há gestos e atitudes políticos que não se explicam pelo vocabulário da coragem ou da covardia, mas pela gramática árida da sobrevivência. O aviso de Walter Alves de que não assumirá o governo quando Fátima Bezerra se desincompatibilizar para disputar o senado pertence a essa categoria.

A reação imediata foi moral. O atual vice-governador foi chamado de fraco, de covarde, de traidor da linhagem emedebista, como se a política ainda fosse um romance de capa e espada, no qual o herdeiro deve morrer com honra em campo aberto. Mas a política real, sobretudo no Rio Grande do Norte contemporâneo, não é literatura edificante e, sim, contabilidade de prejuízos.
Walter Alves não age como quem foge do poder, mas como quem reconhece o estado lastimável do objeto desejado. O governo que herdaria não é coroa, é bagaço. Um bagaço institucional, financeiro e simbólico.

A máquina estadual, combalida por anos de crise fiscal, endividamento estrutural e promessas não cumpridas, oferece pouco capital político a quem a assume em fim de ciclo. Max Weber já advertia que o poder, quando não vem acompanhado de meios adequados, converte-se em fardo moral, pois a responsabilidade sem eficácia é a pior das condenações para o político profissional.

A acusação de covardia ignora um dado elementar: a política não é campo de honra, é campo de forças. Nicolau Maquiavel, tantas vezes mal compreendido, jamais aconselhou o governante a buscar situações em que só há risco e nenhum ganho. A virtù consiste justamente em reconhecer os limites impostos pela fortuna. Assumir um governo desgastado, com baixa governabilidade, hostilidade velada de aliados e desconfiança explícita do partido dominante, não é prova de bravura, mas de estupidez estratégica.

Walter joga com as cartas que tem na mão. E o baralho é curto, gasto, marcado. Não há cartas boas, não há jogo grande. O PT potiguar jamais escondeu seu desprezo histórico pelo MDB. Chamou os Alves de oligarquia atrasada, de resíduo arcaico da política estadual, tolerável apenas enquanto útil. Essa relação nunca foi de confiança, mas de conveniência. O italiano Antonio Gramsci lembrava que alianças sem hegemonia compartilhada são sempre instáveis; quando o projeto ideológico é monopólio de um só lado, o outro vira peça descartável.

Ao assumir o governo, Walter seria um gestor provisório e o fiador de um projeto que não é seu. Herdaria não apenas o Estado falido, mas também as culpas acumuladas de um ciclo político que não comandou. Seria responsabilizado pelo que não fez, cobrado pelo que não pode fazer e abandonado no momento em que o desgaste se tornasse insuportável. A história política brasileira é pródiga nesses exemplos: vices que assumem governos moribundos e saem como cadáveres eleitorais.

Há, ainda, um elemento filosófico mais profundo: a recusa ao poder também é uma forma de ação, dado que nem todo agir político, conforme expôs Hannah Arendt, se dá pelo exercício direto do mando. Há decisões que reorganizam o campo sem ocupar o centro. Ao não assumir, Walter sinaliza que não aceita ser mero instrumento de transição, tampão de crise ou bode expiatório institucional. É uma negativa que fala mais do que muitos discursos.

Os que invocam a “história do MDB” esquecem que partidos não são entidades metafísicas dotadas de honra eterna. São organizações adaptativas, sujeitas à erosão do tempo. O MDB potiguar já foi protagonista e hoje é mero coadjuvante tolerado. Exigir de Walter um sacrifício ritual em nome de uma grandeza passada é desconhecer o caráter profundamente pragmático da política moderna, como ensinava Raymond Aron, para quem o realismo político começa quando se abandona a ilusão de que o passado confere direitos automáticos no presente.

Não se trata, portanto, de covardia, mas de cálculo. Frio, talvez cínico, mas racional. Walter percebe que assumir o governo não lhe daria capital simbólico, nem eleitoral, nem administrativo. Daria apenas desgaste. Ao pedir “carta” e aceitar um jogo esquálido, ele age como quem prefere preservar o pouco que tem a apostar tudo num jogo viciado. Em política, perder pouco às vezes é a única vitória possível.

Imagem feita com auxílio de IA

O PT, por sua vez, colhe o que sempre plantou: desconfiança mútua.

Ao tratar o MDB como aliado menor, demonstra que nunca construiu parceria sólida, apenas coexistência desconfortável. Agora se surpreende quando o aliado se recusa a carregar sozinho o peso do fracasso administrativo. Não há traição onde nunca houve comunhão real de projeto.
No fundo, o episódio revela algo mais amplo: a crise do poder como desejo. O governo do Estado, outrora objeto de ambição máxima, tornou-se fardo. Ninguém quer segurar o leme quando o barco faz água por todos os lados. Walter Alves apenas verbalizou o que muitos pensam e não dizem. E, ao fazê-lo, expôs a nudez do rei: um Estado exaurido, alianças ocas e um jogo político em que a honra retórica já não paga as contas.

A moralização apressada que o apontou como covarde, fraco e indigno serve mais para esconder essa realidade do que para explicá-la. É mais fácil xingar o jogador do que admitir que a mesa está quebrada.

 

posts relacionados
Logo do blog 'a história em detalhes'
por Sérgio Trindade
logo da agencia web escolar