O Sistema: a nossa jabuticaba política (2)

por Sérgio Trindade foi publicado em 22.fev.26

O Sistema é um conceito elástico, uma espécie de massa de modelar nas mãos de quem detém, ou deseja, o poder. Se à esquerda ele é o mercado – sequioso, nefasto e nefando; na direita populista ele ganha contornos de um monstro de mil cabeças, no qual se misturam o estamento burocrático, o globalismo e, com especial predileção, o Judiciário. O fragmento que serve de bússola para esta análise expõe a tática: o líder se coloca como o único puro em meio a uma política apodrecida. Para a direita, o apodrecimento não está no capital, mas na norma.
A retórica é a mesma, mudam-se apenas os adereços. Enquanto um lado reclama do “golpismo da elite rica e branca”, o outro brada contra a “ditadura da toga”. No fundo, ambos sofrem da mesma alergia: a institucionalidade.
O populismo de direita utiliza o que Steven Levitsky e Daniel Ziblatt chamam de “deslegitimação das instituições mediadoras”. O Judiciário, por definição, é o sistema de freios. No entanto, na boca do populista, ele vira o Sistema que impede a vontade do povo. O “suposto conluio de forças” mencionado pela direita é uma aliança entre magistrados, a imprensa tradicional e a burocracia estatal para sufocar as liberdades individuais.
Aqui recorro Carl Schmitt, muito embora ele fosse um crítico da democracia liberal. O populismo de direita opera na lógica do “amigo versus inimigo”. Se o juiz aplica a lei e a lei limita o líder, o juiz não está cumprindo seu dever; ele se tornou um “agente do sistema”. O ataque às cortes não é um debate jurídico sobre interpretações constitucionais; é um cerco moral. A política apodreceu porque, na visão deles, os intérpretes da lei se tornaram políticos sem voto.
Na direita, a pureza é personificada no outsider, mesmo que ele tenha passado trinta anos mamando nas tetas do baixo clero parlamentar. A castidade, aqui, é ideológica. O líder se apresenta como o único capaz de drenar o pântano.
Quando Lula atribui a terceiros as crises que alimenta, há aí fenômeno binário, não resta dúvida. A direita populista faz o mesmo: se a economia patina, a culpa é do ativismo judicial que trava as reformas; se há isolamento internacional, a culpa é da conspiração globalista. O Sistema é o álibi perfeito para a incompetência política e administrativa. Como ensina Cas Mudde, o populismo é uma “ideologia de centro fino: ele precisa de um hospedeiro”. Ele se acopla ao nacionalismo e ao conservadorismo para dizer que o Sistema é inimigo da nação e da família, criando um conluio imaginário.
O conluio de forças que impediria o país de ser feliz é o motor da militância digital. Para o populismo autoritário de direita, a felicidade nacional está a um decreto de distância, não fosse pela “sabotagem” constante das engrenagens republicanas. Ele vende a ideia de que a democracia liberal é uma armadilha criada pelo Sistema para proteger privilégios de uma elite intelectual e burocrática.

Imagem feita com auxílio de IA

O perigo desse discurso, tal como o da esquerda, é que ele não aceita a derrota como parte do jogo. Se o líder perde, o Sistema fraudou. Se o líder é impedido de agir fora da lei, o Sistema é autoritário. É a inversão completa dos sentidos. A política, para essa grei, só é limpa quando lhes obedece cegamente.
Em suma:
1) A direita populista descobriu que atacar o Supremo Tribunal Federal rende mais cliques do que apresentar um projeto de infraestrutura. O Sistema virou um espantalho de toga que serve para esconder a falta de agenda para o país.
2) Diz que luta pela liberdade de expressão. Na prática, luta pela liberdade de não serem contestados. No dicionário do populismo, liberdade é o direito do líder de ignorar o sistema de freios e contrapesos.
3) Assim como Lula quer ser o “candidato contra o sistema” após décadas de poder, a direita populista quer ser a oposição mesmo quando está sentada na cadeira da presidência. É o governo com alma de guerrilha.

4) O problema de se dizer “puro e casto” em um ambiente de negociação política é que, cedo ou tarde, a realidade cobra o pedágio. Quando o antissistema precisa do orçamento secreto para sobreviver, o discurso da castidade vira piada de salão. O Sistema, irônico como ele só, acaba sempre convidando o puritano para jantar. E o puritano, quase sempre, aceita o banquete.

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