O tempo como poder: interregno, cálculo e prudência na sucessão potiguar
Em política, nada se resolve no instante em que o fato ocorre. Resolve-se depois, até bem depois, quando o café já está frio, nas varandas de casas de praias e no alpendres de fazendas com rede armada, onde a conversa começa em tom doméstico e termina em cálculo de poder. Há nisso menos improviso do que método.
O titubeio do vice-governador Walter Alves diante da possibilidade de assumir o governo entre março e abril, com o afastamento de Fátima Bezerra para disputar vaga no Senado, não é só hesitação pessoal; é um retrato fiel da política como arte da espera, da contenção e da leitura paciente do tempo.
A reunião da semana passada, encerrada com um previsível “vamos conversar”, não frustrou expectativas porque, rigorosamente, não havia expectativas. A política opera sob uma gramática própria. No Brasil e no Rio Grande do Norte não é diferente. As decisões relevantes raramente se anunciam como decisões. Elas se insinuam. Nicolau Maquiavel já advertira, no início do século XVI, que o poder não se exerce apenas pelo ato, mas pelo tempo; saber quando agir é tão decisivo quanto saber como agir. Walter não titubeia por fraqueza, mas porque conhece, formado no berço político dos Alves, o preço do movimento errado no momento errado. E esse preço, no Brasil federativo e financeiramente exaurido de hoje, costuma ser alto.
O impasse se explica, em primeiro lugar, pelo que Giovanni Sartori chamaria de “jogo de equilíbrios instáveis”. O PT e o MDB são partidos políticos, mas, antes disso, são coalizões heterogêneas de interesses, memórias eleitorais, lideranças regionais, compromissos tácitos e ressentimentos mal cicatrizados. A sucessão temporária no governo não é um detalhe administrativo, desses que se resolvem com uma nota oficial. É um teste de confiança mútua. Assumir o governo é, ao mesmo tempo, um direito constitucional e um risco político. Quem se senta na cadeira, ainda que por pouco tempo, passa a ser responsabilizado por tudo, da folha salarial ao colapso da infraestrutura, do atraso em repasses à sensação difusa de paralisia que contamina a máquina pública. E aqui, meus três ou quatro leitores, entra um dado decisivo, muitas vezes tratado com pudor retórico: a situação financeira do Estado.
O Rio Grande do Norte vive, há quase duas décadas, sob o signo da penúria estrutural. O orçamento é engessado, a margem de manobra fiscal é mínima, a dependência de transferências federais é elevada e a capacidade de investimento próprio beira o simbólico. Governar nessas condições é administrar escassez extrema, não projetos. É escolher quem não receberá antes de escolher quem receberá. Para um vice-governador que eventualmente assume em meio ao ciclo eleitoral, isso significa herdar não apenas a caneta, mas a impopularidade embutida em cada decisão técnica travestida de necessidade fiscal.
Fátima Bezerra, ao se afastar, levará consigo o capital simbólico do mandato, acumulado ao longo de anos de militância e de uma narrativa coerente com o eleitorado próprio e disciplinado ideologicamente. Walter, ao assumir, herdará o ônus da caneta, a qual, no imaginário político brasileiro, assina mais desgastes do que conquistas. A assimetria é evidente. Como ensinou Max Weber, a política é a lenta perfuração de tábuas duras, feita com paixão e senso de responsabilidade. O problema é que, no Brasil, a paixão costuma ser terceirizada aos discursos, enquanto a responsabilidade se dilui em colegiados, secretarias e justificativas técnicas. Daí o “ainda é cedo”, mantra repetido como reza de terço.
Mas há mais. O cenário nacional adiciona uma camada extra de incerteza ao cálculo de Walter Alves. A campanha presidencial, ainda que formalmente distante, já projeta suas sombras sobre os estados. O grau de envolvimento efetivo de Lula e do PT nas campanhas regionais não é um dado automático, como se supunha em outros tempos. O lulismo, hoje, opera sob limites mais claros, porquanto alianças amplas, prioridades concentradas em estados-chave, seletividade no investimento de capital político. A pergunta que ronda silenciosa as varandas do poder político potiguar é simples e mesmo incômoda: até que ponto o governo federal estará disposto a bancar, com presença, recursos simbólicos e políticos, uma candidatura que se fragilize ao assumir um governo em crise?
Essa dúvida não é paranoia, é cálculo racional. A ciência política ensina que partidos e lideranças maximizam ganhos e minimizam perdas. Anthony Downs já mostrava que atores políticos se movem como jogadores racionais em mercados eleitorais imperfeitos. Se o custo de se associar a uma gestão temporária marcada por dificuldades financeiras superar o benefício eleitoral, o apoio tende a ser protocolar, não entusiasmado. Walter sabe disso. Sabe que assumir o governo pode significar tornar-se fiador de uma crise que não criou, mas que será cobrada como se fosse sua.
Há também uma dimensão filosófica que não pode ser ignorada. O poder, advertiu Hannah Arendt, nasce do agir em conjunto e não da imposição individual. O que se vê agora é justamente a busca por esse agir conjunto: PT e MDB testam limites, medem silêncios, interpretam gestos. A conversa nas varandas tem muito de folclore, mas tem principalmente método. É ali que se constroem consensos informais, mais eficazes até do que atas e notas oficiais. No Brasil, a institucionalidade formal convive e por vezes se submete a uma institucionalidade paralela, feita de confiança pessoal, de tradição e de memória política.
E memória pesa. Walter Alves carrega o lastro de uma tradição familiar profundamente enraizada na política potiguar. Isso lhe confere densidade histórica, capilaridade e prudência. A política brasileira ensinou, desde a República Velha, que quem avança cedo demais costuma pagar o preço depois. Basta lembrar os ciclos de ascensão e queda das oligarquias, do coronelismo clássico às suas versões modernas, travestidas de coalizões partidárias. Assumir o governo pode significar entrar no tabuleiro como peça principal, e peças principais, como sabemos, são as primeiras a serem sacrificadas quando o jogo aperta.
Daí a prudência aristotélica que orienta o vice-governador. Aristóteles chamava de phronesis (prudência prática) a virtude de quem decide não pelo impulso, mas pela avaliação concreta das circunstâncias. A política, para ele, não era ciência exata, mas arte do possível. Walter parece operar nesse registro. Não diz não, mas também não diz sim. Mantém a decisão em suspenso porque sabe que o contexto ainda está em movimento.

Imagem feita com auxílio de IA
Há, ainda, a especificidade do federalismo brasileiro, com governadores e vice-governadores gerindo sob um pacto federativo assimétrico, no qual a União concentra recursos e poder de agenda. Assumir o governo sem garantias claras de apoio federal é arriscar-se a governar com o pé. A história recente do Rio Grande do Norte é pródiga em exemplos de gestões estranguladas financeiramente, reféns de Brasília e pressionadas por demandas locais crescentes. E essa história não perdoa ingenuidades.
Nada disso será resolvido por um gesto abrupto ou por uma declaração definitiva. Resolver-se-á pelo acúmulo de conversas, pela leitura do cenário nacional, pela temperatura das bases, pelo humor do eleitorado e, sobretudo, pelo cálculo frio de custos e benefícios. A política, ensinou Norberto Bobbio, é o reino das decisões trágicas, aquelas em que toda escolha implica perda. O titubeio, nesse contexto, é método de redução de danos, e não fuga. Quando o momento chegar, a decisão parecerá óbvia, como sempre acontece na política depois que tudo já foi decidido. Até lá, o discurso será o mesmo, repetido com a cadência mansa de quem sabe que o tempo também governa: “vamos conversar”. E conversar, na política, é, quase por vezes, agir sem parecer agir, entre a rede e a caneta, com o governo em suspenso.