Allyson Bezerra, os Rosado e as portas do Palácio Potengi
A política do Rio Grande do Norte tem uma estranha vocação para a repetição. Não a repetição banal, mas aquela de feição trágica, quase pedagógica, como se a história insistisse em ensinar a mesma lição a alunos que se recusam a aprender. Os Rosado, sobretudo, foram personagens recorrentes desse enredo em que o poder se oferece, anuncia-se e, no último instante, é retirado da mesa, como prato que não era destinado àquele comensal. O Palácio Potengi se aproxima, até com certa rapidez e, logo depois, há recuo, a porta é fechada e vem o aviso silencioso de que aquele lugar não lhes pertence inteiramente.
O caso mais antigo e talvez mais revelador é o de Vingt Rosado, em 1960. Naquele momento, Mossoró ensaiava novamente, com certa timidez, sua travessia política em direção a Natal. Vingt, que figurava como candidato a vice-governador na chapa de Djalma Marinho, avô do atual senador Rogério Marinho, ensaiou fazer o caminho do irmão Dix-sept, morto em acidente de avião em Sergipe. Era uma composição que buscava equilíbrio regional e sinalizava que o Oeste poderia, ao menos como coadjuvante, participar do núcleo decisório do estado. Mas a chapa perdeu, e com ela perdeu-se também a chance simbólica de um Rosado chegar, ainda que pela antessala, ao governo. Foi uma derrota eleitoral e, também, uma advertência histórica, consolidando Aluízio Alves uma das duas grandes forças políticos do Rio Grande do Norte e alçando Walfredo Gurgel, seu companheiro de chapa, como liderança de peso.
Veio depois Dix-huit Rosado, talvez o mais persistente – e o mais frustrado – dessa linhagem. Diferentemente de Vingt, Dix-huit jogou o jogo duro do regime autoritário. Apoiou o golpe de 1964, alinhou-se ao discurso da ordem, da segurança e da modernização conservadora. Apostou, como tantos outros, que fidelidade política geraria dividendos institucionais e não entendeu o próprio equívoco: regimes autoritários são pródigos em aliados, e ávaros em recompensas duradouras. Como ensinou Juan Linz, o autoritarismo tolera elites enquanto úteis, descartando-as sem cerimônia quando as julga desnecessárias.
Em 1970, nas eleições indiretas, Dix-huit acreditava ter chegado sua vez. Tinha o apoio do poderoso senador Dinarte Mariz, patriarca da política potiguar e fiador civil do regime no estado. Ainda assim, foi preterido. O escolhido foi Cortez Pereira, nome considerado mais confiável, mais palatável aos humores do Palácio do Planalto. A mensagem era clara: apoio não significa sucessão automática. A lógica não era eleitoral, mas burocrático-militar.
Dix-huit insistiu. Em 1974, novamente se apresentou como opção, novamente com o respaldo de Dinarte. E novamente foi descartado. Desta vez, o regime escolheu Tarcísio Maia, figura que encarnava melhor o perfil tecnocrático e pacificador desejado pela ditadura naquele momento. O Rosado ficou à margem, observando de longe o poder que ajudara a sustentar. A frustração era pessoal, quase estrutural.
Em 1978, pela terceira vez, Dix-huit tentou. E pela terceira vez perdeu. O escolhido foi Lavoisier Maia, o azarão, o nome improvável, justamente por isso considerado mais controlável. O episódio é exemplar do que a teoria política chama de “seleção negativa” em regimes fechados: escolhe-se não o mais forte, mas o menos ameaçador. Dix-huit, com base política própria em Mossoró e projeção estadual, tornara-se grande demais para o conforto do sistema, num momento delicado de transição, quando os militares planejavam o retorno a um regime democrático controlado. Pagou por isso.
Esses episódios não são curiosidades de almanaque. Eles formam uma linha contínua de advertências. A política potiguar, como diria Raymundo Faoro em outro contexto, é marcada por um estamento que se protege e se reproduz. O acesso ao poder central e depende de apoio, de competência e de lealdade, mas também de pertencimento simbólico. Mossoró, historicamente, pertence, mas não manda.

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É nesse ambiente que surge Allyson Bezerra, o “Rosado” da vez. Ele encarna o mesmo impulso histórico: o desejo de Mossoró de governar o Rio Grande do Norte. Jovem, popular, gestor bem avaliado, Allyson construiu capital político real, algo que Vingt teve apenas em esboço e Dix-huit tentou converter em moeda autoritária. Diferentemente deles, Allyson opera num regime formalmente democrático, com eleições diretas, imprensa razoavelmente livre e pesquisas de opinião. Em tese, o terreno é outro. Em tese.
É necessário advertir contra ingenuidades. Autores como Adam Przeworski lembram que a democracia não elimina as assimetrias de poder, só as reorganiza. Elites regionais continuam operando, vetos informais persistem, coalizões se formam nos bastidores. O fato de Allyson contar com apoios importantes não significa que o caminho esteja desobstruído. Ao contrário, quanto mais cresce, mais visível se torna e mais suscetível aos mecanismos de contenção.
Daí a pertinência da metáfora clássica: pôr as barbas de molho. Não se trata de recuar, mas de compreender o terreno. Um mestre do jogo político ensinou que o governante prudente observa os exemplos do passado para prever os perigos do presente. Allyson faria bem em estudar Vingt e Dix-huit não como derrotados, mas como sinais. Ambos chegaram perto. Ambos tiveram apoios decisivos. Ambos foram barrados quando o sistema julgou conveniente.
O Rio Grande do Norte tem dessas ironias históricas. Permite que o Oeste sonhe, avance e cresça. Contudo, cobra um pedágio alto quando esse sonho ameaça se concretizar. Allyson Bezerra pode ser uma nova exceção que confirma a regra. Se a história, porém, serve para algo, é para alertar que exceções são raras. O Palácio Potengi continua ali, imóvel, como uma velha fortaleza romana. Muitos já bateram às suas portas. Poucos entraram. E quase nenhum veio de Mossoró sem pagar um preço elevado. Há uma ou outra exceção.