Quem vai e quem fica

por Sérgio Trindade foi publicado em 22.jan.26

A política potiguar anda se movendo como aqueles jogos de salão em que as peças mudam de lugar quando o público ainda tenta entender as regras. Ontem (21), Rogério Marinho anunciou que sai de cena na disputa pelo governo do Rio Grande do Norte. Não sai derrotado, nem abatido; sai estrategicamente deslocado. Abandona o tabuleiro local para subir ao palco nacional, para o qual foi convocado para coordenar a candidatura de Flávio Bolsonaro ao Palácio do Planalto. É um gesto que diz menos sobre generosidade partidária e mais sobre cálculo frio, daqueles que não costumam falhar quando feitos com régua, compasso e memória histórica.

Rogério Marinho sabe que eleições não se ganham apenas com votos, mas com tempo, posição e narrativa. Ao recuar agora, ele se preserva. Evita o desgaste de uma campanha estadual incerta, num cenário fragmentado, e se coloca como operador nacional de um projeto que, goste-se ou não, ainda mobiliza bases barulhentas e disciplinadas. Maquiavel chamaria isso de prudência, não enfrentando a fortuna quando ela sopra contra, e esperar o vento mudar.

O gesto ganha peso quando se observa o calendário político do estado. O Rio Grande do Norte não terá apenas uma eleição tradicional. Terá, antes, um mandato-tampão, decorrente da esperada desincompatibilização da governadora Fátima Bezerra, que deixará o cargo para disputar o Senado e da recusa do vice-governador Walter Alves de assumir o leme do estado e do presidente da Assembleia Legislativa não manifestar apetite algum por sentar-se na cadeira de governador. Trata-se de um intervalo curto, porém decisivo. Quem assumir o governo nesse interregno não ganhará um gabinete e uma máquina para chamar de sua, esteja ela emperrada ou não. E, em política, como ensinava Max Weber, a máquina é o instrumento fundamental do poder moderno, porquanto movimentar burocracia, orçamento, cargos, visibilidade.

É nesse espaço que surge, com naturalidade quase automática, o nome de Álvaro Dias. Ex-prefeito de Natal, político experiente, conhecedor íntimo dos parafusos e engrenagens do poder local, Álvaro é, digamos, um homem de oficina. Sabe onde, quando e como apertar, afrouxar, lubrificar. Não é ideólogo nem tribuno. É gestor do possível. E isso, em tempos de política cansada de discursos, vale muito.

Postas as peças no tabuleiro, a hipótese de uma eleição indireta na Assembleia Legislativa não é delírio conspiratório, mas consequência lógica. A Assembleia, um fórum no qual os ideais costumam chegar cansados e sair domesticados, tende a escolher quem oferece previsibilidade. Álvaro oferece. Conhece os deputados, dialoga com suas necessidades, compreende o ritmo do Legislativo. E o poder, conforme Tocqueville advertia ao se referir às democracias reais, exerce-se menos pelo brilho das ideias e mais pela capacidade de organizar interesses dispersos.

Se eleito indiretamente governador, Álvaro ocuparia o cargo e o tempo. Governaria com a máquina nas mãos e com o calendário a seu favor. A reeleição deixaria de ser promessa e passaria a ser consequência, confirmando o ensinamento de Raymond Aron, para quem o poder cria fatos consumados que depois são chamados de “vontade popular”. Com o governo funcionando, ou ao menos aparentando funcionar, os adversários começariam a corrida alguns quilômetros atrás.

Não se trata de juízo moral, mas de descrição do jogo. Álvaro Dias sabe usar a máquina. Já demonstrou isso em Natal. Organiza, centraliza, controla. Em linguagem menos polida, tratora. E a política, quando se aproxima demais da administração, costuma favorecer quem domina os controles, não quem faz discursos mais eloquentes.

Enquanto isso, Rogério Marinho observa de longe. Sua retirada não enfraquece o grupo, reorganiza-o. Ele se livra do desgaste local e mantém influência sobre o processo. Se Álvaro vencer, Marinho terá um aliado no governo. Se perder, preserva-se para futuras batalhas. Recua em um front para consolidar forças em outro, sem jamais abandonar o campo. É a velha guerra de posição, tão bem explicitada por Gramsci.

Imagem feita com auxílio de IA

Do outro lado, o PT assiste com atenção e desconfiança. Sabe que um governo-tampão bem administrado pode virar governo efetivo. Sabe também que a máquina, mesmo por poucos meses, cria fidelidades rápidas e silenciosas. A esquerda institucional, que tantas vezes subestimou a força do cotidiano administrativo, conhece agora o risco de enfrentar um adversário instalado no poder.

O que em se desenhando há uns meses e se viu ontem de forma mais nítida não foi apenas a desistência de um candidato, mas o surgimento de um novo arranjo político no estado. Menos ideológico e mais operacional, menos retórico e mais mecânico, um movimento típico de tempos em que a política deixou de prometer grandes transformações e passou a administrar expectativas minguadas, confirmando uma velha lição: quem entende o relógio, manda mais do que quem entende o discurso. Rogério Marinho entendeu o relógio nacional; Álvaro Dias parece entender o relógio local. Resta saber quem ficará com o tempo, um bem escasso que, na política, vale mais do que qualquer voto entusiasmado.

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