É petróleo, sim, confia!
Passei a noite em claro acompanhando o desenrolar dos acontecimentos em Caracas e, confesso, não me surpreendi com o que li e ouvi dos nossos “analistas internacionais”.
A versão correu ligeira, com a agilidade dos boatos que já nascem com convicção acadêmica: Trump mandou prender Maduro porque quer petróleo. Pronto. Encerrado o debate. Pode apagar a luz da sala de aula, fechar o seminário e ir para casa tomar um café orgânico com culpa imperialista dissolvida. Os especialistas de sempre com a sempre econômica explicação e as pródigas certezas resolvem o drama venezuelano com uma palavra só – oil. Shakespeare que se cuide.
Mas façamos o favor de rir. Rir alto. Rir com sobrancelha arqueada, gargalhando e batendo a cinza do cigarro imaginário no tapete da moralidade alheia.
Se fosse só petróleo, Trump teria invadido a própria garagem. Ou o Texas. Ou o posto da esquina. Petróleo, convenhamos, os Estados Unidos têm aos baldes, aos barris e aos discursos. Invadir um país arruinado, com infraestrutura em frangalhos, sanções por todos os lados e uma economia que funciona à base de escambo e nostalgia revolucionária, só por petróleo, é como assaltar um cofre para encontrar dentro um bilhete dizendo “volte amanhã”.
Não, a coisa é mais prosaica, e, ironicamente, mais nobre. A Venezuela virou aquele parente distante que ninguém visita mais, mas que todo mundo comenta no almoço de domingo: “É triste o estado em que se encontra”. O país virou um manual prático de como destruir uma sociedade em nome do povo, contra o povo e apesar do povo. Faltam remédios, falta comida, sobra repressão. E sobra discurso, esse nunca falta.
Trump, que não é exatamente um humanista de aquarela, fez o que o mundo civilizado costuma terceirizar para notas de repúdio: agiu. E agir, nesse caso, foi interromper um regime que transformou eleições em encenação, tribunais em figurantes e o Exército em segurança privada do poder. Prender Maduro não é atacar a democracia; é desentupir a sua carótida.
Do ponto de vista humanitário, a intervenção chega como aquele médico grosseiro que salva o paciente enquanto xinga a família. Pode não ser elegante, mas estanca a hemorragia. Milhões de venezuelanos fugiram do país não por excesso de capitalismo, mas por falta de pão. A dignidade humana, essa velha esquecida nos congressos progressistas, agradece quando o carrasco é desarmado. Democraticamente, então, é quase uma caridade. Maduro governa com eleições que fariam inveja a concursos de miss: sempre vence a candidata da casa. Prendê-lo é dar uma chance – repare, chance – de que a Venezuela volte a escolher algo além do próprio coveiro. E a soberania, gritam esgoelando-se os virtuosos? Essa senhora, tão evocada quanto abandonada, não é licença para torturar, censurar e empurrar o povo para o exílio. Isso não é soberania; é cárcere com bandeira.
A acusação do petróleo diz mais sobre quem acusa do que sobre quem age. É parte de uma gente atrasada, mesquinha e míope olhando o mundo pelo retrovisor da Guerra Fria, vendo tanques onde há ruínas, e interesses onde há cadáveres.

Imagem feita com auxílio de IA
Trump, é certo, não é e não virou santo. Mas, desta vez, o diabo quebrou a vidraça para apagar o incêndio. E só não aplaude quem prefere o cheiro ideológico da fumaça ao incômodo da verdade.
Astério de Natuba (Analista de Política Internacional)