Trump sem surpresa: o presidente que já tinha escrito o próprio roteiro

por Sérgio Trindade foi publicado em 25.abr.26

Logo cedo, após a minha primeira leitura matinal (entre 4:00-5:30 horas da manhã), sintonizei a CNN Brasil e vi uma reportagem sobre o envio de uma delegação dos Estados Unidos ao Paquistão. O objetivo é reunir-se com representantes iranianos, sob mediação do primeiro-ministro paquistanês, para buscar uma solução diplomática para o conflito envolvendo Estados Unidos/Israel e Irã.

Nada de novo no roteiro trumpista, embora haja uma curiosa mania, especialmente entre analistas apressados e comentaristas de ocasião, de tratar cada movimento de Donald Trump como uma surpresa, um rompante ou, na melhor das hipóteses, uma improvisação típica de um empresário que teria levado para a política os vícios de quem nunca precisou dar satisfações a ninguém. A realidade, entretanto, é menos dramática, e, para quem se dispõe a ler, muito mais previsível. Trump vem dizendo há décadas o que pensa e, mais do que isso, vem explicando, com notável franqueza, como age. Basta abrir dois livros: A arte da negociação (The Art of the Deal) e Grande outra vez (Crippled America) para perceber que, no essencial, não há mistério algum.

O primeiro, publicado em 1987, é frequentemente tratado como uma peça de autopromoção, e de fato é. Mas reduzi-lo a isso é ignorar o que ele tem de mais relevante, a saber, um manual bem explícito sobre como Trump enxerga negociação, poder e oportunidade. Ali já estão os princípios que orientariam sua atuação décadas depois. Pensar grande, maximizar opções, proteger o lado negativo e usar alavancagem não são apenas conselhos para negócios imobiliários e sim diretrizes de comportamento. Trump não esconde que prefere riscos altos a ganhos modestos, nem que considera essencial criar cenários em que o adversário precise mais dele do que o contrário. Isso, que no mercado pode soar como agressividade calculada, na política se traduz em algo que muitos confundem com imprevisibilidade e não é. Trump age com método.

Quando se avança para Grande outra vez, publicado originalmente em 2015 no Brasil, a obra chegou às livrarias em 2016 (versão reduzida) e 2017 (edição ampliada; é a que tenho), a transição de empresário para político deixa de ser uma hipótese e se torna um programa. O livro é, essencialmente, um manifesto, e como todo manifesto, ele não apenas descreve problemas, anuncia intenções. Trump escreve, com todas as letras, que considera o sistema político americano capturado por interesses, lento, ineficiente e incapaz de tomar decisões rápidas e, ato contínuo, apresenta-se como alguém de fora, disposto a agir como não se age em Washington. Não há qualquer traço de ambiguidade nisso. Quem leu, leu. Quem não leu ou leu e não entendeu, estranha.

É particularmente revelador observar como temas que, mais tarde, seriam tratados como polêmicos ou inesperados já estavam delineados no texto. A questão da imigração, por exemplo, aparece de forma direta: controle rígido de fronteiras, construção de barreiras físicas e prioridade absoluta ao interesse nacional. Pode-se concordar ou discordar com o está escrito, não é possível, porém, alegar surpresa. Isso vale também para a política comercial. Trump afirma que os Estados Unidos vinham sendo prejudicados por acordos internacionais mal negociados e que seria necessário revisá-los com dureza. Isso não foi uma adaptação ao cargo, mas uma promessa de campanha transformada em ação.

Outro ponto central do livro é a crítica ao chamado establishment. Trump descreve Washington como um ambiente dominado por burocratas, lobistas, negocistas e políticos profissionais que falam muito e fazem pouco. Sua resposta a isso não é teórica, é operacional, propondo agir como agiria no setor privado, com decisões rápidas, assumindo riscos e aceitando conflitos como parte do processo. Para quem espera da política o ritual tradicional de negociações discretas e consensos graduais, isso soa como ruptura. Para quem leu o livro, é apenas coerência.

Há ainda um elemento que costuma ser mal compreendido: o estilo de comunicação. Em Grande Outra Vez, Trump explica por que prefere mensagens diretas, muitas vezes agressivas, e o uso intensivo de canais que lhe permitam falar sem intermediários. Ele afirma, sem censura e sem rodeios, que desconfia da mídia tradicional e que pretende contorná-la. Mais uma vez, não se trata de um desvio de conduta ocorrido depois de assumir o poder e sim de uma escolha consciente, anunciada previamente.

O que se observa, portanto, é uma linha de continuidade bastante clara entre o empresário descrito em A arte da negociação e o político que se apresenta em Grande outra vez. No primeiro, estão as ferramentas; no segundo, o campo de aplicação. A ideia de negociar sempre a partir de uma posição de força, de manter múltiplas alternativas e de não temer o conflito reaparece na política externa, nas disputas comerciais e até na condução de crises. Não é, meus três ou quatro leitores, improviso; é transposição.

Isso ajuda a entender o curioso fenômeno da tendência de atribuir a Trump intenções ocultas ou estratégias secretas, quando boa parte do que ele faz foi previamente descrita por ele mesmo. Há, nesse ponto, uma inversão interessante. Em vez de um líder que esconde seus planos, existe alguém que os expõe de maneira quase didática e, ainda assim, é tratado como enigmático. Provavelmente porque a clareza, quando foge ao padrão habitual, seja confundida com exagero ou bravata.

Nada disso significa que as ações de Trump estejam imunes a críticas ou que seus resultados sejam automaticamente positivos. Significa apenas que, do ponto de vista da coerência entre discurso e prática, há alinhamento evidente e cristalino. Trump não prometeu ser um conciliador clássico, nem um gestor técnico no sentido tradicional. Prometeu agir como um negociador duro, disposto a rever acordos, confrontar adversários e operar fora das convenções políticas usuais. E é exatamente isso que faz.

Imagem feita com auxílio de IA

Em um ambiente público frequentemente dominado por discursos vagos e compromissos elásticos, essa previsibilidade relativa causa desconforto. Há quem prefira líderes que digam pouco e ajustem muito. Trump faz o contrário: diz muito e ajusta menos do que se imagina. O resultado é que seus movimentos, por mais controversos que sejam, raramente são surpreendentes para quem se deu ao trabalho de ler o que ele escreveu.

A ideia de que Trump “não faz nada do que não tenha dito” não é um elogio nem uma crítica. É apenas e tão-somente uma constatação. Seus livros funcionam como um roteiro antecipado de sua atuação. Ignorá-los é renunciar a uma das poucas vantagens que o observador tem na política contemporânea: a possibilidade de saber, com antecedência, o que um protagonista relevante pretende fazer. Num mundo em que tantos dizem uma coisa e fazem outra, isso, no mínimo, merece registro.

posts relacionados
Logo do blog 'a história em detalhes'
por Sérgio Trindade
logo da agencia web escolar