Casa aberta, chefe fechado
Há homens que nascem para a epopeia e há os que nascem para o balcão. Luiz Alves de Melo nasceu para a gerência de um lupanar, e digo isso com a solenidade de quem anuncia um ministério. Conheço-o desde o início dos anos 1980, quando ainda tínhamos ilusões capilares e alguma fé na humanidade. Hoje ele administra, com a serenidade de um abade, o melhor dos prostíbulos da cidade.
Outro dia escreveu-me uma carta. Não uma mensagem lacônica, mas uma carta, gênero que supúnhamos extinto. Começava assim: “Caro Astério, tive, como há muito não tinha, quinze dias completos, contínuos e deliberadamente afastados do trabalho.” E eu já senti o drama. Quinze dias! Há homens que não conseguem se afastar do próprio espelho por quinze minutos.
Luiz prosseguia, quase épico: não foi recesso disfarçado, nem sobreaviso elegante. Foi desligamento real. Silenciou grupos de WhatsApp, arquivou conversas paralelas, ignorou notificações insistentes e tratou o e-mail institucional como correspondência de outro planeta. Em suma: meu amigo transformou o celular num objeto decorativo. Isso, no século XXI, equivale a renunciar ao trono. Não respondeu “só uma coisinha rápida”. Não participou de reuniões emergenciais que surgem quando alguém ousa descansar, porque a humanidade é assim: nada acontece durante meses, mas basta o sujeito calçar uma sandália para o mundo desabar. Luiz, porém, foi firme. Afastou-se das pautas, dos prazos, das pequenas urgências que se julgam épicas. Preservou a distância como quem protege um território recém-conquistado.
“Não foi negligência, foi higiene mental”, escreveu ele. “Não foi desinteresse, foi limite. Foram férias de verdade.” E eu, que o conheço, sei: Luiz não mente nem sob tortura. Se diz que foram férias de verdade, é porque houve um rompimento quase litúrgico entre ele e o balcão. Eis, antes de continuarmos, o detalhe que torna tudo sublime: Luiz é feliz. Trabalha com o que gosta. É dono e gerente de um puteiro. O melhor da cidade. Socialmente referenciado, expressão que ele usa com um orgulho quase acadêmico. E não é exagero. Seu estabelecimento é frequentado por homens de várias faixas etárias e estados civis. Ali há uma democracia que a República desconhece.

Imagem feita com auxílio de IA
Entram rapazes iniciando a vida sexual, com o olhar de quem vai prestar vestibular para a eternidade. Entram homens experientes, que falam baixo e aprofundam conhecimentos como se estivessem numa pós-graduação aplicada. Há os que perderam o ritmo e tentam retomar a cadência, coitados, chegam como atletas lesionados. Há jovens, adultos, velhos. Todos irmanados. Ali não existe esquerda nem direita, apenas a solidão humana buscando companhia. E Luiz administra esse microcosmo com a gravidade de um diretor de colégio interno. Conhece as fragilidades de cada cliente e os humores de cada funcionária, sabe quem bebe demais, quem fala demais, quem chora no banheiro. O lupanar, ao contrário do que supõe a moral doméstica, é um confessionário sem absolvição.
E, no entanto, até esse sacerdote do desejo precisa de férias.
Imagine a cena: o melhor puteiro da cidade funcionando sem seu gerente. Telefones tocando. Funcionárias discutindo o cardápio etílico. Clientes habituais perguntando pelo chefe. E Luiz, viajando ou em casa, de chinelos, olhando o teto como um homem que escapou da própria biografia. Silenciou os grupos. Ah, os grupos! Há grupo de fornecedores, grupo de manutenção, grupo de “assuntos estratégicos”, grupo de “eventos temáticos”. Luiz matou todos com um único gesto: silêncio. A tecnologia, que escraviza os incautos, tornou-se para ele um vaso de planta.
Durante quinze dias, o trabalho seguiu sem ele, como deve ser. E ele seguiu sem o trabalho, como precisava ser. Essa frase, confesso, tem algo de revolucionário. Vivemos numa época em que as pessoas confundem ocupação com identidade. Se o sujeito não responde à mensagem às 23h47min, sente-se traidor da pátria. Luiz não. Luiz compreendeu que o mundo não acaba quando o gerente dorme. Mas não pense o leitor que foi fácil. Há sempre uma culpa clandestina. E um gerente de lupanar não descansa impunemente. Imagino-o às três da manhã, despertando subitamente, perguntando-se se a máquina de cartão está funcionando, se o estoque foi reposto, se algum cliente exaltado resolveu filosofar demais. Mesmo assim, resistiu. Não atendeu. Não respondeu. Não cedeu à tentação de saber. Fez o que poucos fazem: confiou. Confiou na equipe, na rotina, na inércia do mundo e quando voltou encontrou o estabelecimento de pé. Nenhuma hecatombe. Nenhum escândalo de proporções bíblicas. A vida seguira seu curso, com a indecência habitual e a elegância possível. E Luiz, ao reassumir o posto, tinha algo novo no olhar: a certeza de que não é insubstituível, “descoberta, meu caro Astério, libertadora e humilhante. Libertadora porque nos permite respirar. Humilhante porque revela nossa insignificância”.
O mais curioso é que, enquanto muitos executivos pregam produtividade e metas, meu amigo, gerente de um prostíbulo, deu uma lição de saúde mental. Não foi negligência. Foi limite. Ele entendeu que, se não se afastasse, tornaria o balcão uma extensão do próprio sistema nervoso. Mais, e aqui há outro ponto que me comove: o lupanar de Luiz é uma espécie de teatro humano. Ali desfilam as carências que a sociedade finge não ter. O rapaz que quer provar virilidade. O marido que busca silêncio. O viúvo que procura memória. O divorciado que testa a própria sobrevivência. Todos pagam não apenas por um serviço, mas por uma trégua. Luiz sabe disso. Por isso trabalha com gosto. Não é um cafetão caricatural. É um gerente atento, quase um psicólogo prático. Talvez por isso precisasse tanto de férias.
Quinze dias foram suficientes para que ele voltasse ainda mais cínico. Sim, mais cínico. E, se me permitem a confidência final, invejo-o. Não pelo negócio, não pelo movimento noturno, não pelo status socialmente referenciado do seu estabelecimento. Invejo-o porque teve a ousadia de fazer o que muitos prometem e poucos cumprem: tirar férias de verdade. Quinze dias completos, contínuos e deliberados.
Num país em que as pessoas se orgulham de não descansar, Luiz cometeu o maior dos pecados contemporâneos: desligou-se. E voltou inteiro.